A prisão de centenas de trabalhadores sul-coreanos na fábrica de baterias para veículos elétricos da Hyundai Motor, em construção nos Estados Unidos, turvou a estratégia da montadora de investir em um mercado crítico para combater pressões geopolíticas.
As autoridades detiveram na quinta-feira (4) 475 pessoas, incluindo cerca de 300 cidadãos sul-coreanos, na fábrica que está sendo construída pela Hyundai e pela fabricante sul-coreana de baterias LG Energy Solution, no Estado da Geórgia.
“Ainda não há decisão sobre quando a construção da fábrica será retomada”, disse um representante da LG Energy na segunda-feira (8).
Os sul-coreanos serão repatriados em um avião fretado, provavelmente por volta de quarta-feira (10), disse uma autoridade sul-coreana. Apesar da sensação de alívio com o destino dos trabalhadores, a perda de mão de obra interromperá o projeto da fábrica por tempo indeterminado.
A Hyundai e a LG Energy anunciaram inicialmente planos para construir a fábrica de baterias para veículos elétricos em 2023. Elas pretendiam investir US$ 4,3 bilhões, e uma joint venture foi estabelecida, com propriedade dividida igualmente entre as duas empresas.
A fábrica ficará no local da Metaplant America, a maior fábrica de montagem de veículos elétricos da Hyundai nos Estados Unidos. A construção da unidade de montagem de veículos elétricos foi concluída nesta primavera (no hemisfério norte). A Hyundai tomou essa decisão porque as baterias de veículos elétricos são pesadas e o transporte dos componentes de outros lugares teria um custo exorbitante.
A fábrica teria capacidade de 30 gigawatts-hora por ano, o equivalente a baterias que alimentam 300 mil veículos elétricos. Ela também abasteceria uma unidade fabril na Geórgia para a Kia Motors, empresa do grupo Hyundai.
A fábrica deveria ter sido inaugurada inicialmente neste ano, mas fatores como a queda na demanda por veículos elétricos adiaram o início para 2026. Agora, a previsão para a data de conclusão não é clara.
Um projeto da Hyundai para a criação de uma cadeia de valor nos Estados Unidos abrangendo matérias-primas, componentes e veículos acabados inclui aço produzido por uma usina de forno a arco elétrico da Hyundai Steel, planejada para o Estado da Louisiana.
Em março, a Hyundai Motor anunciou que investiria US$ 21 bilhões nos Estados Unidos nos próximos quatro anos. Após as tarifas mais baixas anunciadas por Washington, a montadora anunciou em agosto que adicionaria mais US$ 5 bilhões.
Mas acontecimentos recentes complicam essa estratégia. O relatório de analistas de segunda-feira da Daishin Securities, da Coreia do Sul, cita a potencial escalada da repressão contra imigrantes nos Estados Unidos. Isso poderia aumentar o risco para a produção americana da Hyundai Motor, segundo o relatório.
A América do Norte é o maior mercado da montadora, e a Hyundai prevê aumento na demanda. No ano passado, o volume global de vendas da Hyundai, incluindo a Kia, caiu 2%, para 7,03 milhões de unidades, mas as vendas na América do Norte subiram 4%, para 2,09 milhões. Isso levou a empresa a atingir um recorde histórico na receita consolidada em 2024.
Na manhã de segunda-feira, o governo da Coreia do Sul realizou uma reunião de emergência em Seul, reunindo empresas que erguem fábricas nos Estados Unidos. Entre os participantes estavam as fabricantes de semicondutores Samsung Electronics e SK Hynix, a construtora naval HD Hyundai Group e fabricantes de produtos químicos. Os participantes expressaram preocupação com os crescentes riscos de entrada no mercado americano.
“Por favor, acelerem a verificação de vistos para que o investimento nos Estados Unidos não estagne”, disse uma pessoa.
Desde que o presidente Donald Trump retornou ao cargo em janeiro, a Samsung tem enfrentado incidentes em que funcionários que viajam a negócios usando o Sistema Eletrônico de Autorização de Viagem (ESTA) tiveram a entrada negada nos Estados Unidos, alegando que o propósito da viagem não estava de acordo com os requisitos de elegibilidade.
Em maio, a Samsung emitiu um memorando interno para limitar a duração e a frequência de viagens de negócios em visitas aos Estados Unidos usando o ESTA.
O presidente sul-coreano, Lee Jae Myung, se encontrou com Trump na Casa Branca em 25 de agosto, na primeira cúpula entre os dois líderes. A comunidade empresarial sul-coreana anunciou uma promessa de investimento de US$ 150 bilhões, incluindo fundos para os setores automotivo, de chips e de aviação.
Em janeiro, a Hyundai nomeou José Muñoz como executivo-chefe (CEO) da montadora. Munoz tem uma vasta experiência nos Estados Unidos, tornando claro o objetivo de reduzir os riscos que surgiriam sob a presidência de Trump.