
A siderurgia tem investido no desenvolvimento de novos tipos de aço para atender demandas de setores econômicos em expansão. A estratégia busca aumentar as vendas domésticas e já levou a criação de ligas metálicas aos setores agropecuário, automotivo e de energia.
Segundo Frederico Ayres Lima, presidente da Aperam, o Brasil consome cerca de 120 kg de aço por habitante, contra 700 kg da China. Para ele, uma forma de reduzir essa disparidade é criar produtos adaptados às necessidades dos setores com maior potencial de consumo de metal. “Existe um excesso de oferta no mercado mundial de aço”, diz Lima, citando a crescente produção chinesa. “No Brasil, a diferenciação de produtos tornou-se estratégia fundamental para expandir negócios.”
O centro de pesquisas da Aperam, em Timóteo (MG) desenvolveu em 2019 o Endur 300, um aço especial para caçambas de caminhões que transportam grãos ou minério. O material tem mais vida útil por ser mais resistente à corrosão causada pelo material agrícola e mineral. Lima ressalta que buscar soluções para o agro foi uma decisão estratégica. A safra brasileira de grãos deve atingir em 2025 o recorde de 340 milhões de toneladas, segundo o IBGE – mais que o dobro de 15 anos atrás. Recentemente, a Aperam também criou aços especiais para motores de veículos elétricos e transformadores, como os de poste, antecipando a demanda por esses materiais.
Rodrigo Rangel Porcaro, professor na Escola de Minas da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), diz que o setor de energia é um dos que mais demanda novas ligas metálicas. A própria Ufop pesquisa, em parceria com a Gerdau, aços mais resistentes e duráveis para torres de geração eólica. Há também um esforço para criação de tipos de aço especiais para dutos de hidrogênio, apontado como alternativa aos combustíveis fósseis. “Já houve uma corrida na indústria siderúrgica para desenvolvimento de aços resistentes à corrosão de elementos que vinham junto com o petróleo extraído do pré-sal”, lembra Porcaro. “Agora, a pressão vem do hidrogênio verde [de baixa emissão de carbono].”
Segundo o professor, cada tipo de aço especial possui composição diferente ou passa por um processamento específico. A indústria automotiva, por exemplo, demandam aço mais leve e resistente. As siderúrgicas conseguiram essas características adicionando pequenas quantidades de nióbio, titânio e vanádio à liga de ferro e carbono.
A Usiminas informou que, nos últimos seis anos, colocou no mercado 20 tipos de aço de alta resistência a indústria automotiva e de máquinas e tratores. “Esses materiais permitem reduzir a espessura e o peso nas aplicações finais dos produtos e, ao mesmo tempo, ajudam na diminuição do consumo de combustível”, informou a empresa, que obteve duas novas patentes em 2024. Ela já tem 538.
O foco em aço para automóveis também é uma decisão de negócio. Em 2024, foram vendidos 2,6 milhões de veículos novos no Brasil, 14,1% a mais que em 2023, segundo a Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave).
Hélio Goldenstein, ex-professor do departamento de engenharia metalúrgica e de materiais da Escola Politécnica da USP, pesquisa, em parceria com a Vale, aços para rodas e trilhos de trem com alta capacidade de carga. Segundo ele, a indústria está debruçada na criação de ligas especiais para impressoras 3D. É o caso da ArcelorMittal, que em 2023 firmou convênio com a Federação das Indústrias do Estado de Minas (Fiemg) e o Centro de Inovação e Tecnologia do Senai voltado à impressão 3D de peças metálicas de grande porte.
William Haupt, professor da Universidade de Passo Fundo, destaca os avanços para soldagem a laser de placas de aço. Segundo ele, a técnica, que começou a ser usada em 2020 na China e que chegou ao Brasil em 2023, permite maior precisão na junção de placas, com acabamento menos perceptível.