Geopolítica, juros e tarifaço: como a conjuntura global impacta a mobilidade no Brasil

Em meio a uma tempestade de juros altos, “montanha russa” de tarifas globais, instabilidade geopolítica e econômica criam um ambiente de incertezas que impacta diretamente a indústria e o consumidor. Mas o setor automotivo brasileiro encontra na inovação e em grandes investimentos a rota para a sustentabilidade.

No primeiro painel durante o Automotive Business Experience – #ABX25 especialistas e lideranças de diferentes segmentos se reuniram para debater perspectivas claras sobre como a indústria pode se adaptar e inovar.

Conjuntura global impacta mobilidade e a própria economia

Segundo a análise econômica do Itaú, o economista sênior André Matcin avaliou que o mundo vivencia uma série de tarifas, com os EUA impondo medidas que afetam China, Brasil e Índia. Um cenário que contribui para um risco de recessão global e desaceleração da própria economia americana.

Sobre o mercado brasileiro, a Selic se mantém em patamares elevados (15%), o que afeta diretamente o consumo de bens duráveis, como carros, que registraram desaceleração ou contração nas vendas.

Para Matcin , o endividamento público e o déficit fiscal são considerados desafios-chave, influenciando o patamar de juros e a conjuntura futura.

O que preocupa os brasileiros

Essa incerteza econômica se reflete na visão do consumidor. Dados da Ipsos levados pelo seu CEO Marcos Calliari revelam que a confiança dos brasileiros se assemelha a um “eletrocardiograma” de tensão, com 66% da população acreditando que o país está no rumo errado.

As principais preocupações, além da criminalidade e desigualdade, são a corrupção e, em forte alta, os impostos.

Esse contexto de baixa confiança e poder de compra limitado (apenas 6% dos brasileiros se sentem financeiramente confortáveis) exige que as empresas foquem em construir confiança e atender às necessidades básicas e diárias das pessoas.

Foco no planejamento estratégico

Diante desse panorama, o setor automotivo não está parado. A Stellantis, por exemplo, enfrenta os desafios dos juros elevados e da baixa confiança do consumidor com uma estratégia sólida e de longo prazo, de acordo com Fernando Scatena, CFO da fabricante.

“Demonstramos nossa confiança no mercado brasileiro ao anunciar um investimento de R$ 32 bilhões para o ciclo 2025-2030, focado em inovação e tecnologia”, disse.

O Grupo Stellantis também aposta em sua liderança de engenharia, com quase 5 mil engenheiros no Brasil para o desenvolvimento completo de veículos localmente.

Entre os exemplos dessa estratégia citados por Scatena estão o Jeep Commander e a Ram Rampage, os primeiros veículos de suas respectivas marcas desenvolvidos fora dos EUA.

A empresa tambémdiz que aperfeiçoa a tecnologia BioHybrid, que combina combustíveis como o etanol com motores eletrificados, mostrando uma inovação adaptada ao mercado local para manter o ritmo positivo da indústria.

Oportunidades no caminho da eletrificação

Mesmo com a estagnação do mercado geral, o segmento de veículos eletrificados (híbridos convencionais, plug-in e elétricos) surge como um motor de crescimento.

As vendas desses veículos estão projetadas para um aumento de 20% neste ano, o que impulsiona toda uma nova cadeia de negócios e infraestrutura.

Para Ricardo Bastos, presidente da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), o perfil do consumidor desse segmento também mudou.

“Ele migrou de um early adopter, curioso ou ambientalista para um comprador mais racional e econômico, que busca os benefícios financeiros desses veículos.”

Além de impulsionar a indústria de autopeças, Bastos enxerga que a eletrificação abre uma grande oportunidade para o Brasil liderar a produção e exportação de veículos eletrificados para a América Latina. Região que, segundo o executivo, está cerca de cinco anos atrás em termos de eletrificação – ele, inclusive, cita Argentina, Chile, Colômbia, Peru e México como potenciais mercados.

No entanto, o setor pede cautela e estabilidade regulatória. O atual IPI Verde, que entra em vigor em novembro, é visto com preocupação pela ABVE, porque favorece biocombustíveis e desfavorece veículos híbridos apenas movidos a gasolina.

A indústria busca ajustes na reforma tributária e no imposto seletivo de 2027 para garantir um ambiente mais justo. A preocupação é tamanha que Bastos revela que tem se reunido com a Anfavea para que as entidades unidas trabalhem para a redução da carga tributária.

Apesar dos desafios, a mensagem de todos os especialistas neste painel foi a mesma: o momento exige cautela, foco na gestão de risco e, acima de tudo, um compromisso inabalável com a inovação para atender às demandas de um mercado em constante e profunda transformação.

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