A mineração é um setor de números grandiosos em Minas Gerais. No último ano, ela atingiu de faturamento de R$ 108,3 bilhões e, de acordo com os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), emprega quase 74 mil pessoas no estado. Cifras tão expressivas exigem uma responsabilidade igualmente grande dos CEOs dessa indústria. Os desafios e estratégias de alguns dos maiores nomes do ramo foram o tema do quarto e último painel do seminário Ouro Verde, realizado por O TEMPO e apresentado pela Anglo American nesta quarta-feira (1º/10).
Integraram a mesa o CEO da Samarco, Rodrigo Vilela, o CEO da Itaminas, Thiago Toscano e o CEO da Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM), Ricardo Fonseca de Mendonça Lima. Com diferentes perspectivas, todos convergiram ao mesmo ponto: na visão deles, o futuro da mineração passa necessariamente pela sustentabilidade e pelo posicionamento dos valores do setor perante o público.
Na liderança da Samarco, Rodrigo Vilela abriu a discussão sem fugir da bagagem histórica do rompimento da barragem de Fundão, que em 2025 completa dez anos. “São dez anos que nós lamentamos muito. (Houve) um processo de muito aprendizado, de reconstrução coletiva, empresarial e de um setor com um todo, que foi uma revisão de todos os processos, toda cadeia produtiva, principalmente da gestão de mineração que foi feita dentro da Samarco e que, de maneira direta e indireta, refletiu em todo setor e em toda cadeia”, disse.
Após retomar suas operações no final de 2020, a Samarco atingiu, no começo deste ano, 60% da produção registrada em 2015. “Nós esperamos chegar (ao volume de produção de 2015) somente em 2028. Esperamos atingir o desenho de produção da empresa, que é de 28 milhões de toneladas (de pelotas e finos de minério de ferro)”, detalhou o executivo. Ele também lembrou que, desde o último ano, a Samarco assumiu diretamente as ações de reparação pelo rompimento da barragem, antes sob tutela da Fundação Renova. “É uma transformação também do ponto de vista de reparação”.
A CBMM passa por outras transformações, com uma visão de diversificação de seu mercado. Hoje, a companhia mineira fundada na década de 50 também investe no desenvolvimento de diversas soluções à base de nióbio, especialmente no contexto da eletrificação. A produtora de nióbio em Araxá, no Triângulo Mineiro, ainda foca em abastecer a siderurgia, mas mira outras possibilidades, de acordo com o CEO, Ricardo Fonseca de Mendonça Lima. “Alguns anos atrás, 90% da receita da CBMM vinha da indústria siderúrgica. No passado, tivemos 77%. Sempre será nosso negócio principal, não tenho dúvidas. E estamos aquecendo na indústria siderúrgica”, destacou.
Para a Itaminas, o futuro também implica diversificação – até de país. Agora, a empresa que opera em Sarzedo, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, reforça uma rota logística do minério para o Oriente Médio. “Entendemos que o mercado da indústria da siderurgia migrava para o Oriente Médio, em razão da taxações com relação às emissões de carbono na Europa, e que lá estava um mercado para nos desenvolvermos. Então, abrimos uma filial no Oriente Médio, que começa a operar em outubro”, compartilhou. Em outro movimento estratégico da logística, a empresa assinou neste ano um contrato com o Porto Sudeste, na região de Itaguaí (RJ) para exportação direta da produção.
CEOs tentam ampliar visão do público sobre mineração
A sustentabilidade é um assunto debatido pela indústria da mineração internamente e em qualquer evento de mercado. Mas, para os CEOs de algumas das maiores empresas do segmento, o desafio é que o grande público também entenda a associação entre indústria mineradora e práticas sustentáveis.
“Os legados da mineração estão claros e postos, só não estão comunicados. Temos um desafio muito grande de comunicar e comunicar bem, de construir uma história que demonstre por meio de dados e fatos que esse legado existe. Acontece que a mineração nunca foi muito de comunicar, nunca precisou comunicar. Agora, temos esse desafio, talvez o maior”, avaliou o CEO da Itaminas, Thiago Toscano.
O CEO da CBMM, Ricardo Fonseca de Mendonça Lima, também enfatizou o papel da comunicação com os brasileiros neste momento. “A mensagem ainda está em uma fase inicial. O próprio Ibram tem investido em levar essas informações ao grande público, mas nós ainda temos que batalhar bastante, porque infelizmente infelizmente existem outras práticas que não são as melhores e que acabam arranhando a reputação de quem está fazendo certo. Eu me referi aqui à mineração ilegal, à série de práticas que não são as das grandes empresas sérias, que acabam tendo a sua reputação contagiada por isso. É importante esclarecermos”.
Por fim, o CEO da Samarco, Rodrigo Vilela, reforçou a diferença que essa aproximação significa para os próximos passos da mineração. “Nós temos um grande desafio, principalmente depois dos acidentes pelos quais passamos. Nós temos todo um histórico para demonstrar a importância que a mineração tem para o Brasil, para o desenvolvimento, que podemos fazer diferente e trazer a comunidade conosco. É um grande desafio, mas um caminho brilhante pela frente”, arrematou.