
No Chile, o setor de mineração espera com ansiedade a aprovação do acordo entre a SQM, uma das maiores mineradoras de lítio do mundo, e a Codelco, estatal líder mundial na extração de cobre. As duas empresas querem investir juntas no mercado de lítio do país e avançar ainda mais o já verticalizado mercado chileno.
Na Argentina, a gigante Rio Tinto prepara investimentos de US$ 2,5 bilhões para produzir por ano 60 mil toneladas de carbonato de lítio em grau de bateria, um dos últimos produtos da cadeia do lítio e que antecede a fabricação de baterias. Em março, a empresa comprou a Arcadium, maior produtora de lítio do país.
Na Bolívia, o governo de Luis Arce tenta salvar dois acordos firmados em 2023 com chineses e russos para produzir 49 mil toneladas de carbonato de lítio por ano. A oposição, que disputa o segundo turno das eleições presidenciais, promete enterrar os contratos, sob acusações de falta de transparência e irregularidades.
Já no Brasil, onde uma série de projetos de lítio foram anunciados nos últimos cinco anos, a maioria das mineradoras planeja ir até a concentração do mineral, uma única etapa posterior à extração. Das três mineradoras em operação no país, apenas uma produz carbonato e hidróxido de lítio, mas em pequena escala.
A discrepância de cenários é justificável, segundo alguns especialistas com quem a Folha conversou. Chile, Argentina e Bolívia são as pontas do triângulo do lítio, como é chamada a região de salmouras que abriga os maiores depósitos de lítio já mapeados no mundo.
Além disso, tanto Chile quanto Argentina produzem lítio em larga escala desde a década de 1990, muito antes das baterias de veículos elétricos serem alvo de disputa geopolítica. A SQM, por exemplo, começou a extrair lítio nessa época e ampliou sua produção à medida que a demanda pelo mineral crescia, e o mesmo aconteceu com os argentinos.
A CBL, companhia brasileira criada nessa mesma época, não acompanhou o ritmo; a empresa hoje produz 1.500 toneladas de carbonato de lítio por ano. Em comparação, a chilena SQM tem capacidade de produzir 210 mil toneladas por ano. Já a Arcadium, criada a partir da junção da antiga americana Livent com uma australiana, hoje produz 75 mil toneladas de carbonato de lítio equivalente na Argentina.
A largada inicial ajudou os argentinos e, principalmente, os chilenos a entenderem este mercado, que por muitos anos caminhou apenas com dinheiro privado. Mas, com o avanço dos chineses sobre a capacidade de refino deste mineral e sobre a produção de baterias, o governo de Gabriel Boric iniciou em 2023 um plano para verticalizar ainda mais a cadeia de lítio no país.
A estratégia passa pela Codelco, gigante mundial do cobre controlada pelo governo. Após pressão do presidente chileno, a empresa formou no ano passado uma joint venture com a SQM para extrair as reservas de lítio no salar do Atacama. O processo, que agora depende de aprovações de órgãos reguladores, visa acrescentar 300 mil toneladas de carbonato de lítio até 2030 ao mercado chileno e mais 300 mil por ano de 2031 a 2060.
Em acordo semelhante, em julho uma outra estatal chilena, a Enami, formou uma joint venture com a Rio Tinto para produzir 75 mil toneladas de carbonato de lítio por ano no deserto do Atacama.
“Estamos agora vivenciando o início de uma nova era, com a entrada de novos players como Codelco, Rio Tinto e Enami, e esperamos que outros continuem a se juntar”, diz María Paz Pulgar, advogada que atua com projetos de lítio no Chile. “O importante é que as novas oportunidades não se limitem às empresas públicas, mas que também haja espaço para iniciativas privadas”, acrescenta.
A interferência do Estado no setor é um ponto central nas discussões sobre o crescimento e a verticalização do mercado de lítio. Alguns especialistas defendem que só o governo tem forças para equilibrar um mercado hoje totalmente inclinado para a China. Mas outros dizem que a solução passa por propiciar condições para que grandes mineradoras privadas entrem nesse ramo —a australiana BHP e a Vale, por exemplo, ainda não têm projetos de lítio.
Na Bolívia, a Constituição define que apenas o Estado pode ser dono de recursos naturais do país. Por isso, os acordos com os chineses e os russos consistiriam em uma prestação de serviço dos estrangeiros para a YLB, estatal boliviana que produziu 2.000 toneladas de carbonato de lítio em 2024. Conforme os acordos, o governo boliviano receberia 51% dos lucros da produção.
“Estamos falando de 23 milhões de toneladas de lítio metálico nos nossos salares; ou seja, 30% da reserva mundial. Isso é muito importante”, diz Alfonso Perez, gerente de projetos e contratos da estatal, ao contestar o argumento de que as regras bolivianas são incompatíveis com o mercado privado.
Mas, para ele, a presença do Estado não garante, por si só, a verticalização da produção do lítio, ainda que sirva de impulso. “É muito romântico falar que queremos fazer baterias, mas da salmoura ao carbonato de lítio, há um trecho muito grande industrialmente falando, assim como do carbonato de lítio às baterias”, afirma.
Nessa indústria, tudo se resume a custo —e produzir mais barato que os chineses é difícil.
Segundo a iLi Markets, se uma mineradora quiser montar uma refinaria no Chile precisa investir US$ 11 por quilo de carbonato de lítio; para montar na Argentina, seriam US$ 15 por quilo. Na China, caso o concentrado venha da Argentina esse valor cai para US$ 5.
Já o custo total para manter a operação funcionando de forma sustentável, incluindo custos diretos de produção e despesas com infraestrutura, manutenção e logística, ficam em US$ 7,6 por quilo de carbonato no Chile, US$ 9,6 na Argentina e US$ 7 na China, com o concentrado vindo do mercado argentino.
“Essa diferença também acontece com o Brasil, então não faz sentido refinar esse material no Brasil porque o produto final vai de qualquer forma para a China”, diz Daniel Jimenez, sócio da iLi Markets, consultoria especializada no mercado de lítio. “A China é mais eficiente em tudo e eles têm energia e reagentes mais baratos.”
Jimenez acredita que, enquanto EUA e Europa não avançarem na produção de baterias, dificilmente haverá mercado que aceite pagar mais para fugir de fornecedores chineses. Ele é cético quanto aos anúncios de investimentos no triângulo do lítio.
São baseadas nessas premissas que alguns executivos brasileiros argumentam que forçar uma verticalização no setor pode ser prejudicial para o mercado do país.
“É importante realizar o aproveitamento mineral e, na medida do possível, industrializar. Mas, se não há condições econômicas, é melhor que o aproveitamento mineral seja feito, porque ao longo do tempo muitos minerais vão perdendo mercado e aquela oportunidade de desenvolver uma determinada região que era rica no mineral é perdida”, afirma Adriano Drummond Trindade, sócio do escritório Mattos Filho.
Leandro Gobbo, vice-presidente da PLS no Brasil, maior mineradora de lítio da Austrália com planos de operar no Brasil, pensa semelhante: “Não é errado o Brasil exportar concentrados, ainda que o ideal fosse que o país tivesse a capacidade de processá-lo”, diz.
“A gente não pode sempre achar que tudo tem que estar no máximo nível de processamento para que possa ser exportado, não é assim que os mercados globais funcionam. Eles são atraídos pela eficiência e pelos resultados.”