A magnata australiana da mineração Gina Rinehart está demonstrando interesse crescente em projetos de terras raras no Brasil, um dos países com maior potencial para desafiar o domínio da China no segmento.
Esta semana, a empresa australiana de exploração St George Mining anunciou planos para obter 72,5 milhões de dólares australianos (US$ 50 milhões) para financiar seu projeto de nióbio e terras raras, Araxá, no estado de Minas Gerais, no Brasil.
Os recursos serão obtidos por meio de uma oferta privada de ações, na qual dois terços da emissão serão subscritos por grandes fundos dos Estados Unidos e da Europa, bem como por instituições locais e acionistas existentes, enquanto o terço restante será adquirido pela Hancock Prospecting Pty Ltd, empresa controlada por Rinehart.
Enquanto isso, a Brazilian Rare Earths Limited, na qual Rinehart detém uma participação de 5%, garantiu compromissos firmes para uma oferta privada de ações com os atuais acionistas, com o objetivo de levantar 120 milhões de dólares australianos.
Segundo a empresa, os recursos serão utilizados para acelerar o desenvolvimento de projetos de terras raras de alto teor no Brasil e reduzir o cronograma de implantação de uma refinaria integrada de separação de terras raras planejada para Camaçari, no estado da Bahia.
A participação de Rinehart em projetos brasileiros destaca uma tendência mais ampla no setor de mineração do país, onde empreendimentos em estágio inicial estão achando mais fácil obter financiamento de investidores internacionais do que locais.
“Como financiadores de projetos, começamos a analisar mais de perto os minerais críticos. No entanto, existem alguns desafios quando se trata de financiar esse segmento, especialmente da perspectiva dos bancos locais,” disse Marcelo Girão, chefe de financiamento de projetos do Itaú BBA, braço de banco de investimento do gigante brasileiro Itaú Unibanco, à BNamericas.
“Primeiro, é um setor dolarizado, o que limita o apetite dessas instituições locais. Segundo, a mineração é altamente volátil em termos de preços, o que causa certa hesitação entre os financiadores bancários. Por isso, projetos em estágio inicial são financiados principalmente por investidores já familiarizados com os riscos desse segmento,” acrescentou Girão.
As empresas que recebem o apoio de Rinehart reconhecem esses desafios específicos do segmento.
“Estamos muito satisfeitos com o forte apoio recebido de investidores institucionais locais e estrangeiros que reconhecem o enorme potencial do nosso projeto de terras raras de alto teor e nióbio em Araxá”, disse John Prineas, presidente executivo da St George Mining, em um comunicado.
“Também estamos muito satisfeitos que a Hancock Prospecting tenha optado por aumentar sua participação acionária atual na St George e emergir como um acionista substancial. A Hancock Prospecting é uma empresa com vasta experiência em reconhecer o valor de commodities estratégicas e apoiar empresas de minerais essenciais de sucesso, incluindo a MP Materials e a Lynas Corporation – além de possuir experiência significativa em execução e entrega de projetos para a St George alavancar no futuro,” destacou.
A Aclara Resources, sediada em Toronto, detalhou recentemente um investimento de US$1,2 bilhão em projetos de terras raras no Brasil, Chile e EUA, com cerca de US$600mi alocados ao seu projeto Carina, no estado de Goiás.
Assim como suas concorrentes, a Aclara está contando com financiadores internacionais para levar o projeto adiante.
A empresa garantiu recentemente US$5mi em financiamento da Corporação Financeira Internacional para o Desenvolvimento (DFC) dos EUA para o projeto Carina, com a opção de aumentar o investimento conforme o projeto avança, disse o CEO Ramón Barúa Costa à BNamericas em uma entrevista recente.
Embora com projetos ainda em estágio inicial, o Brasil é visto como um país estratégico para reduzir a dependência global da China na produção de terras raras.
O país possui reservas estimadas em 21 milhões de toneladas métricas (t), atrás apenas das 44 Mt da China. No entanto, a produção doméstica brasileira permanece mínima, totalizando apenas 20 t em 2024, uma pequena fração das 390.000 t produzidas globalmente. Para efeito de comparação, a China produziu 270.000 t no mesmo período.
Esta semana, as terras raras voltaram aos holofotes globais em meio a novas tensões comerciais. O governo chinês anunciou que endureceria as regras e imporia maior controle sobre as exportações de terras raras – minerais essenciais para tecnologias avançadas usadas nos EUA e em outros lugares.
A medida reacendeu as tensões comerciais entre as duas maiores economias do mundo, já que o presidente dos EUA, Donald Trump, ameaçou retaliar impondo uma tarifa de 100% sobre as importações chinesas se Pequim não suspendesse as restrições às terras raras.