Do lítio ao cobre: A posição dos investimentos chineses na América Latina

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A presença de investimentos chineses em projetos de mineração na América Latina ainda é relativamente modesta, mas tem ganhado nova tração nos últimos anos e se consolida como um dos temas centrais nas atuais discussões geopolíticas.

Atualmente empresa chinesas contam com participação de 4,1% nos projetos de mineração na região, segundo levantamento da base de dados de projetos da BNamericas.

O envolvimento chinês ocorre de várias formas – desde participações acionárias diretas ou indiretas até financiamento e fornecimento de equipamentos e serviços especializados.

“Os movimentos de investidores chineses no setor não têm sido lineares. Entre 2010 e meados de 2019, houve uma forte onda de entrada desses investidores, principalmente no Peru, seguida de retração até 2023. Agora, vemos sinais de uma retomada de interesse chinês na mineração da região,” disse à BNamericas Tito Martins, ex-executivo da Vale e da Nexa, atualmente consultor sênior de metais e mineração da Kaiau Consultoria.

A presença chinesa é diversificada tanto entre países quanto em segmentos.

A Argentina concentra a maior fatia, com 10,53% de participação, seguida do Peru, com quase 6%. Na Argentina, o foco desses investidores está no lítio, enquanto no Peru predomina o interesse pelo cobre.

“Nesses dois países houve estímulo dos governos locais para atrair investidores estrangeiros na mineração, inclusive os chineses. Já em outros países da região há características muito particulares, que tornam o ambiente mais desafiador. No Chile e no Brasil já existem grandes mineradoras globais posicionadas, o que representa uma barreira importante a novos entrantes, independentemente de sua origem,” afirmou Martins.

Na Argentina, mineradoras chinesas como Ganfeng Lithium, Zijin Mining e Tibet Summit vêm investindo nos últimos anos em projetos de lítio.

As províncias argentinas, que têm autonomia para aprovar projetos e conceder licenças, vêm promovendo esforços para ampliar o investimento estrangeiro, sem grandes distinções quanto ao país de origem.

No Peru, a China consolidou presença em operações de cobre como Las Bambas, operada pela MMG; Toromocho, da Chinalco; Río Blanco, da Zijin Mining, em pré-viabilidade; e Pampa del Pongo, da Jinzhao Mining, com início de operação previsto para o próximo ano. O país asiático também participa da mina de minério ferro Marcona no Peru, por meio da Shougang Hierro, além de desenvolver diversos projetos em fase de exploração.

Já no Chile, Brasil e México, a participação de investidores chineses em projetos de mineração é inferior a 3%.

No Brasil, no entanto, movimentos recentes sinalizam renovado interesse.

No início de 2025, a Anglo American vendeu seus ativos de níquel no país à MMG Singapore Resources, unidade da estatal chinesa MMG, em um negócio estimado em US$500 milhões (mi). Também neste ano, a mineradora peruana Minsur concluiu a venda da Mineração Taboca à chinesa CNMC Trade Company, por US$340mi. A Taboca opera a mina de estanho de Pitinga, no Amazonas, e é dona da fundição de Pirapora, em São Paulo.

Apesar da retomada, os investimentos chineses na mineração brasileira ainda são tímidos em comparação com outros setores.

Em 2024, os investimentos chineses no Brasil totalizaram US$4,18 bilhões (bi), um aumento de 113% em relação a 2023, segundo o Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC).

O setor de energia elétrica no Brasil liderou a recepção de capital chinês, com 34% das operações, seguido pelo petróleo (25%) e automóveis (14%). A mineração aparece em quarto lugar, com 13% dos investimentos.

Geopolítica

O interesse chinês na mineração latino-americana está fortemente ligado a fatores geopolíticos.

Em meio à escalada de tensões tarifárias entre Estados Unidos e China, o país asiático vem usando seu domínio em minerais críticos como instrumento de pressão. Recentemente, Pequim anunciou restrições à exportação de terras raras – insumos básicos para as indústrias de tecnologia e defesa norte-americanas.

Com grandes reservas de vários desses minerais, a América Latina se tornou palco das disputas entre as duas potências globais.

Nos últimos meses, a administração de Donald Trump tem se aproximado do presidente argentino Javier Milei, inclusive oferecendo apoio do tesouro norte-americano às reservas cambiais do país.

Analistas acreditam que essa aproximação pode abrir espaço para maior presença de empresas norte-americanas na mineração argentina, limitando a expansão chinesa.

No Brasil, a mineração também tende a ser influenciada por questões políticas nos próximos meses.

Desde agosto, os Estados Unidos impuseram uma tarifa de 50% sobre exportações brasileiras, mas os dois governos iniciaram negociações para reduzi-las. Analistas apontam que, em algum momento, deve entrar na pauta o acesso de empresas norte-americanas às reservas brasileiras de minerais críticos, especialmente terras raras.

O Brasil detém o segundo maior volume de reservas desses minerais, atrás apenas da China, mas ainda carece de tecnologia para processá-los.

“Os EUA têm tecnologia, capital e capacidade industrial para, se realmente se engajarem, desenvolver uma cadeia de processamento de terras raras em poucos anos. No entanto, terão que lidar com a defasagem tecnológica em relação à China e, provavelmente, negociar o acesso a tecnologias chinesas. A China investiu pesadamente no setor e detém vantagem técnica e infraestrutura consolidada,” disse à BNamericas José Carlos Martins, membro do conselho da Cedro Mineração e ex-executivo da Vale.

Tal aproximação entre Estados Unidos e a mineração na América do Sul já começa a acontecer.

A mineradora Aclara Resources, sediada em Toronto, planeja integrar cadeias de suprimentos entre América do Sul e Estados Unidos. A empresa prevê investir US$1,2bi em projetos de terras raras no Brasil e no Chile, além de construir nos EUA uma planta para converter óxidos extraídos em ligas para ímãs permanentes.

“A ideia é construir uma cadeia de suprimentos totalmente integrada, rastreável e sustentável que conecte a mineração responsável na América do Sul com a produção de materiais avançados na América do Norte”, afirmou Ramón Barúa Costa, CEO da Aclara, em entrevista recente à BNamericas.

A Corporação Financeira Internacional para o Desenvolvimento (DFC) dos Estados Unidos já investiu US$5mi no projeto Carina, da Aclara, no Brasil, reforçando o interesse norte-americano em desenvolver cadeias de valor regionais para minerais críticos.

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