
A disputa entre Estados Unidos e China ganhou um novo capítulo com o anúncio, por parte de Pequim, de controles de exportação sobre terras raras e minerais essenciais — materiais cruciais para a produção de veículos elétricos, smartphones, semicondutores e sistemas de defesa. A decisão acendeu o alerta em Washington, que ameaça retaliar e intensifica esforços para diversificar suas cadeias de suprimento, hoje fortemente dependentes do domínio chinês.
O secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, afirmou que a medida chinesa representa “coerção econômica contra o mundo inteiro” e advertiu que, se Pequim quiser ser um parceiro “não confiável”, os Estados Unidos e seus aliados não terão alternativa senão “se desacoplar” da economia chinesa. “O mundo não quer se desvincular da China”, disse Bessent em coletiva. “Queremos reduzir riscos. Mas sinais como este nos empurram para o caminho da desvinculação.”
O monopólio chinês
A preocupação de Washington é respaldada por números contundentes. A China é responsável por cerca de 60% a 70% da extração mundial de terras raras e por mais de 90% do refino global desses metais — uma etapa tecnicamente complexa e ambientalmente delicada. Trata-se de um monopólio que Pequim consolidou ao longo de décadas, assumindo os custos ambientais e sociais que outros países preferiram evitar.
“Eles fizeram o trabalho sujo que os Estados Unidos e outros países não quiseram fazer”, explicou Juhani Platt, ex-assessor sênior do Departamento de Estado americano para energia, durante o Fórum de Segurança Energética de Drake. O refino dos minerais, destacou ele, gera resíduos ácidos e subprodutos radioativos de baixo nível, o que afugentou investimentos ocidentais nas décadas de 1980 e 1990.
Replicar esse modelo na América do Norte seria quase impossível. “Nunca seremos capazes de fazer pelo mesmo preço ou na mesma escala”, afirmou Platt. Diante disso, os EUA buscam parcerias com países ricos em recursos, como Argentina, Cazaquistão, República Democrática do Congo e Zâmbia, para formar uma cadeia de suprimentos “não chinesa”.
Tensões e ameaças de retaliação
As novas regras anunciadas por Pequim, que devem entrar em vigor em dezembro, obrigam empresas estrangeiras a obter licenças do governo chinês para exportar produtos que contenham terras raras — mesmo em pequenas quantidades. Washington reagiu duramente: o presidente Donald Trump ameaçou impor tarifas adicionais de até 100% sobre importações da China e prometeu medidas “duras” caso o controle não seja revogado.
O representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, afirmou que a decisão de Pequim “não é uma retaliação proporcional”, mas sim “um ato de coerção econômica global”. Ele advertiu que a medida pode afetar desde sistemas de inteligência artificial e semicondutores até bens de consumo como carros e eletrodomésticos.
Pequim, por sua vez, sustenta que os novos controles respondem às “ações punitivas” de Washington contra empresas chinesas e nega ter motivações políticas. Ainda assim, analistas avaliam que a manobra faz parte de uma estratégia mais ampla da China para pressionar os EUA a flexibilizar restrições sobre exportações de chips e tecnologias avançadas.
Uma economia em transição energética
Além da rivalidade geopolítica, a disputa expõe um dilema energético. Enquanto os EUA investem em fontes renováveis e eletrificação, continuam dependentes de insumos fabricados — em grande parte — na China. Brenda Shaffer, professora da Escola de Pós-Graduação Naval dos EUA, defende que o país deveria explorar melhor sua vantagem em combustíveis fósseis, como gás natural, em vez de tentar competir com o modelo chinês.
“Os chineses são maratonistas — eles são bons nisso. Nós, americanos, somos velocistas. Não deveríamos tentar ser maratonistas”, afirmou Shaffer, sugerindo que Washington se concentre em áreas nas quais tem domínio tecnológico e energético consolidado.
Segundo Kevin Book, diretor da consultoria ClearView Energy Partners, oito em cada dez barris de petróleo adicionados à oferta global nos últimos 15 anos vieram dos Estados Unidos. Essa expansão energética, diz ele, coloca o país em posição vantajosa em um cenário de crescente demanda por eletricidade, impulsionada pela inteligência artificial e pela digitalização da economia.
Desafios e custos da independência
Apesar do discurso político em favor do “desacoplamento”, especialistas alertam que reconstruir uma cadeia global de suprimento sem a China será caro, lento e ambientalmente custoso. O processo exigirá investimentos bilionários, coordenação internacional e regulamentações ambientais mais flexíveis — algo difícil de implementar em democracias ocidentais.
Para William Polen, diretor da Associação de Energia dos Estados Unidos, a transição energética e a corrida por minerais críticos vão aumentar a demanda por eletricidade e recursos naturais de forma sem precedentes. “Se a demanda global dobrar até 2030, será como adicionar o Japão inteiro à rede mundial de energia”, afirmou.
O papel do Brasil
Em meio ao embate entre as duas maiores potências, o Brasil surge como um ator potencialmente estratégico. O país possui reservas significativas de terras raras, especialmente em Minas Gerais e no Amazonas, além de deter cerca de 80% das reservas mundiais conhecidas de nióbio, um mineral essencial para ligas metálicas e tecnologias de ponta.
Para analistas, o Brasil pode se beneficiar do movimento de diversificação promovido pelos EUA e seus aliados, desde que estabeleça políticas de exploração sustentável e agregação de valor. No entanto, há também o risco de o país ser pressionado a escolher lados em uma disputa comercial que tende a se intensificar.
“O Brasil tem a oportunidade de se firmar como fornecedor confiável e parceiro tecnológico, mas precisa agir com estratégia, evitando o erro histórico de apenas exportar matéria-prima”, avalia o economista Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE).
Enquanto EUA e China medem forças, a corrida pelos minerais do futuro já começou — e países como o Brasil podem definir, nos próximos anos, se serão protagonistas ou espectadores dessa nova geopolítica dos recursos estratégicos.