
Em meio à corrida global por energias limpas e tecnologias sustentáveis, as terras raras surgem como um dos recursos mais disputados do século XXI. Presentes em produtos como turbinas eólicas, painéis solares, veículos elétricos e dispositivos eletrônicos, esses elementos químicos se tornaram símbolo do desafio contemporâneo de conciliar inovação e equilíbrio ambiental.
No Brasil — e em especial na Bahia, que possui áreas com potencial de exploração —, o debate sobre as terras raras ultrapassa a dimensão científica e assume um caráter estratégico: como desenvolver uma mineração sustentável capaz de gerar riqueza sem comprometer o meio ambiente?
Diante deste contexto, o presidente da Companhia Baiana de Pesquisa Mineral (CBPM), Henrique Carballal, explicou que um dos elementos centrais que envolvem a pesquisa destes materiais é se haverá ou não, a criação de danos ambientais irreparáveis e irreversíveis, fator que impede o desenvolvimento da mineração.
“Você só desenvolve mineração se ela estiver com a sustentabilidade dentro dos parâmetros legais. Não existe atividade mineral que destrua a natureza. Você tem uma legislação muito rigorosa sobre isso”, enfatizou.
Apesar disso, ele apontou a existência de casos específicos em que são permitidas a exploração em áreas ambientais, desde que a região possa ser “reparada” e “reconstruída”. “Isso é extremamente factível e tem muita tecnologia para isso”, ressaltou.
Como exemplo, Carballal lembrou da visita à sede da empresa alemã RWE, na cidade de Dusseldorf, em que teve acesso a soluções inovadoras para a mineração sustentável, visando a aplicação de práticas ambientalmente responsáveis no setor mineral da Bahia, através do projeto da Brazil Iron, com foco na produção de ferro verde. Entre as tecnologias utilizadas, estão máquinas que, além de operarem na mineração, são capazes de recompor o solo, promovendo a recuperação ambiental e o reflorestamento das áreas exploradas.
“A terra que acaba de ser tirada aqui, fecha o espaço anteriormente aberto, já replanta e você vê os animais ocupando aquela área”, observou.
O que são as terras raras?
Apesar do nome, as terras raras não são exatamente escassas. Elas formam um grupo de 17 elementos químicos da família dos lantanídeos, amplamente distribuídos na natureza, mas de difícil separação devido às suas propriedades químicas semelhantes. Esses elementos são classificados em leves, médios e pesados, e costumam estar associados a diversos tipos de minerais.
Compõem os elementos terras raras (ETR): lantânio (La), cério (Ce), praseodímio (Pr), neodímio (Nd), promécio (Pm), samário (Sm), európio (Eu), gadolínio (Gd), térbio (Tb), disprósio (Dy), hólmio (Ho), érbio (Er), túlio (Tm), itérbio (Yb), lutécio (Lu), ítrio (Y) e escândio(Sc).
“São 17 elementos químicos que estão na tabela periódica, e são chamadas de terras raras porque eles são encontrados harmonicamente, normalmente em terrenos argilosos. E eles não são nem terras, nem raras, ou seja, a gente encontra eles em várias áreas da natureza”, pontuou Carballal.
Elementos têm papel importante para evolução tecnológica
De acordo com o geólogo e professor no Instituto de Geociências da Universidade Federal da Bahia (Igeo/Ufba), André Klumb, os elementos assumiram um “papel muito importante” nos últimos anos, diante da evolução tecnológica. Segundo ele, estes materiais são utilizados para ímãs permanentes, ligas metálicas, cristal líquido, lentes de alta qualidade, supercondutores, entre outros produtos. “Está muito ligado a essa tecnologia que se usa hoje em termos dessa evolução digital em que estamos vivendo”, pontuou.
Conforme o especialista, embora existam vários tipos de depósitos de elementos terras raras, na Bahia não há incidência de carbonatitos, que representam uma das principais fontes naturais do mundo. “Na Bahia, os depósitos estão associados a um outro tipo de mineralização, que são chamadas as chamadas argilas iônicas. Tem esse termo porque as terras raras ali estão associadas a argilas”, explicou. Ele também indicou que estes materiais são localizados, principalmente na região Sul da Bahia, a exemplo dos municípios de Jequié e Amargosa.
Outro ponto importante, segundo o geólogo, é a presença de rochas graníticas no estado. Segundo ele, os locais são cinturões orogênicos antigos – formações geológicas de montanhas que se originaram em eras geológicas passadas -, que foram submetidas a temperaturas de pressões “muito grande e por muito tempo”.
“Esses cinturões foram considerados estéreis para muitas mineralizações, as poções máficas e ultramáficas já estavam sendo exploradas, para níquel e etc., mas não existia muito mais do que isso. Hoje, já existem pesquisas de alumínio e terras raras nessas rochas, então isso abre um espaço muito grande para novas descobertas aqui no estado da Bahia”, indicou.
Bahia reúne minerais essenciais para transição energética
Na Bahia, onde há potencial identificado para extração desses elementos, a CBPM mapeia 61 regiões de terras raras, que reúnem diversos minérios essenciais para a transição energética, como: níquel, cobre, cobalto, ferro, titânio, vanádio, grafita e terras raras, silício, manganês e lítio.
“Além das terras raras, nós temos vários outros minerais separados, que você encontra com diversidade na Bahia e que tem plena condição de tornar a Bahia, o grande abastecedor mundial desses minerais da transição energética”, enfatizou o presidente da CBPM, Henrique Carballal.
Bahia tem potencial para se tornar ‘novo player’ no setor de terras raras
Diante da presença de terras raras na Bahia, a CBPM tem atuado para mapear e identificar o potencial dessas ocorrências no estado, conforme o geólogo e gerente de Geologia Básica e Aplicada da entidade, Williame Cocentino. Segundo ele, existem, pelo menos, duas empresas australianas “reportando valores bem interessantes” na região entre Jequié, Amargosa e Poções. “Naquele contexto do Centro-Sul baiano, que tem grande potencial para vir a se tornar importantes minas de terras raras”.
Conforme Cocentino, embora existam “outros fatores” que serão avaliados, os valores que “estão sendo encontrados” na região, apontam para a possibilidade de tornar a Bahia “um novo player” em terras raras.
“Hoje, no Brasil, a gente tem só uma mina de terras raras ali em Goiás, tem diversas outras localidades que estão pleiteando a abertura de minas de terras raras. E aqui na Bahia, a gente entende que aquela região ali do Centro-Sul é um novo local para se descobrir essa próxima mina de terras raras aqui no Brasil”, disse.
Segundo o geólogo, por entender este cenário, a CBPM tem revisto dados históricos para reavaliar as regiões e observar os “potenciais para esses minerais que são relacionados à transição energética”. “Com base nisso, a gente começou a avaliar a região de Poções e vem encontrando bons resultados. Então sim, de fato, a Bahia tem todo esse potencial para se tornar um importante ator nessa cadeia de suprimentos das terras raras”, complementou.
Estado reúne condições geológicas, científicas e industriais
Da mesma forma, o professor, pesquisador e coordenador do Grupo de Materiais Fotônicos da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), Jorge Fernando, enfatizou que a Bahia possui “condições geológicas, científicas e industriais excepcionais” para liderar esse setor no Brasil. Conforme o especialista, o estado abriga ocorrências expressivas de elementos terras raras (ETR) em diferentes províncias geológicas:
• Seabra – Lençóis – Andaraí (Chapada Diamantina): minerais como monazita e bastnasita, ricos em lantânio (La³⁺), cério (Ce³⁺), neodímio (Nd³⁺) e praseodímio (Pr³⁺) – podem ser empregados em ligas magnéticas e catalisadores.
• Complexo alcalino de Itatim e Jacobina: ocorrência de samário (Sm³⁺), európio (Eu³⁺) e gadolínio (Gd³⁺) em rochas ígneas diferenciadas.
• Jequié – Ubaíra – Jiquiriçá: presença de térbio (Tb³⁺), disprósio (Dy³⁺) e hólmio (Ho³⁺) em pegmatitos e carbonatitos, com alto potencial para fósforos e ímãs permanentes.
• Caravelas – Prado (extremo sul): areias monazíticas com ítrio (Y³⁺), túlio (Tm³⁺), érbio (Er³⁺) e itérbio (Yb³⁺), aplicáveis em dispositivos ópticos e lasers.
“Além da base mineral, a Bahia dispõe de infraestrutura científica consolidada (UFRB, Ufba, Senai Cimatec) e capacidade para desenvolver rotas completas de beneficiamento, separação e aplicação tecnológica, transformando o potencial mineral em inovação de alto valor agregado”, defendeu.
Exploração das terras raras exige equilíbrio entre tecnologia e sustentabilidade
Essenciais para o desenvolvimento de tecnologias limpas e para a transição energética, as terras raras representam um desafio para o setor mineral: como expandir sua utilização sem comprometer o meio ambiente. O gerente de Geologia Básica e Aplicada da CBPM, Williame Cocentino, destacou que a entidade tem adotado medidas para garantir que o aproveitamento das reservas baianas ocorra de forma sustentável e responsável, conciliando o potencial econômico desses elementos com a preservação dos recursos naturais e o uso racional do território.
De acordo com ele, essa atitude reflete uma mudança de postura da entidade, no sentido de “verticalizar” a produção mineral baiana. O objetivo é não só fornecer o minério bruto, mas também garantir que o material gere benefícios para o Brasil — e, sobretudo, para a Bahia. Como exemplo, ele lembrou da parceria da CBPM com a empresa Homerun Brasil, para a construção de uma fábrica de vidro solar no município de Belmonte.
“O projeto inicial era, simplesmente, fornecer a matéria prima para ser beneficiado em outro lugar. A gente comprou o projeto e invertemos, e o projeto atual é a instalação de uma fábrica de placas solares , que vai ser, por sinal, a primeira fábrica de placas solares fora da China. Então, tem toda essa postura que a gente tem e não vai ser diferente com os nossos depósitos de terras raras. Essa é a postura que a CBPM vem trazendo, de trazer o máximo de desenvolvimento socioeconômico através da mineração”, destacou.
Exploração das terras raras impõe desafios e exige cooperação de diferentes setores
Embora essenciais para o avanço tecnológico e para a produção de equipamentos sustentáveis, a extração e o beneficiamento das terras raras também trazem riscos ambientais significativos, conforme explicou o professor do Igeo/UFBA, André Klumb. Segundo o docente, o processo de mineração desses elementos exige o uso de soluções químicas que, se não forem tratadas corretamente, podem contaminar o lençol freático e afetar ecossistemas próximos às áreas de exploração.
“Qualquer planta de beneficiamento, seja para ouro, terras raras, cobre, lítio, precisa usar soluções químicas que, muitas vezes, não sendo tratadas, vão diretamente alimentar o lençol freático e isso vai contaminar essas regiões. Isso é inerente a qualquer mineração. Você pode, obviamente, tratar esses resíduos antes de jogar no meio ambiente — isso é o que é esperado de todos os empreendimentos minerários”, explicou.
O professor também alertou para um agravante específico relacionado às terras raras, já que muitos desses depósitos estão associados a elementos como urânio e tório. Segundo ele, essa característica aumenta os riscos de contaminação e exige cuidados adicionais durante o beneficiamento. Ainda assim, o geólogo destaca que é possível conciliar mineração e preservação ambiental, desde que haja planejamento e cooperação entre os diferentes setores envolvidos.
“Qualquer empreendimento minerário, e isso vai passar antes por um período longo, que a gente chama de exploração mineral, é preciso identificar, obviamente, os problemas e fazer a coisa certa desde o início. Enquanto você tem o minerador puxando a corda para um lado e o ambientalista para o outro, ninguém sai do lugar. É preciso que esses dois grupos trabalhem juntos desde o início”, defendeu.
Klumb também observou que, no caso da Bahia, muitos dos depósitos de terras raras são superficiais, o que pode demandar grande decapeamento de vegetação, tornando indispensável a recuperação das áreas exploradas.
“Isso, certamente, poderia ser um fator de risco. Mas, uma vez que isso possa ser feito, localizado em uma área, e depois essa área ser recuperada, e aí você pega uma área lateral. Então, eu acho que todas essas coisas podem ser feitas de uma forma inteligente e honesta, desde que haja esse interesse, de fato”, pontuou.
UFRB alia pesquisas em terras raras com sustentabilidade e inovação tecnológica
Na UFRB, o professor Jorge Fernando lidera o Grupo de Materiais Fotônicos (GMF), que desenvolve complexos luminescentes de íons de európio e térbio combinados a polímeros e resíduos recicláveis, com o objetivo de produzir filmes, tintas e sensores fotônicos de baixo custo e impacto ambiental reduzido. “As rotas sintéticas priorizam o reuso de materiais, baixo consumo energético e aplicação direta em dispositivos ópticos e marcadores de autenticidade, alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS 9, 12 e 13)”, afirmou.
Conforme o especialista, a combinação de nanocelulose – material extraído de fibras vegetais, como pinus, sisal ou resíduos agrícolas – com complexos de európio, é responsável por gerar “materiais luminescentes aplicáveis em sensores ambientais, embalagens inteligentes, etiquetas de rastreabilidade óptica e dispositivos para conversão de energia luminosa”.
“Esses compósitos unem desempenho óptico elevado, sustentabilidade e potencial de aplicação em setores como energia, saúde e meio ambiente”, complementou.
Universidades podem contribuir na redução de importações tecnológicas do Brasil
Outro ponto importante no papel das pesquisas desenvolvidas pelas universidades é a contribuição para a redução da dependência do Brasil em importações tecnológicas. Segundo Jorge Fernando, as instituições de ensino e pesquisa possuem “papel estratégico na transformação do conhecimento em inovação”. “Na UFRB, o GMF atua desde a síntese e caracterização de complexos luminescentes até a prototipagem de dispositivos e o depósito de patentes em áreas como sensores, filmes e tintas fotônicas”, listou.
O professor indicou ainda que a integração entre pesquisa aplicada e formação de recursos humanos é “essencial para que o Brasil agregue valor aos seus recursos minerais, substituindo a exportação de matérias-primas por produtos e tecnologias nacionais”.
Professor defende construção de cadeia produtiva sustentável para pesquisa em terras raras
Por fim, o docente do Centro de Formação de Professores (CFP) da UFRB, também abordou o futuro das pesquisas em terras raras no Brasil. Segundo ele, é necessária a construção de uma “cadeia produtiva sustentável” para o setor, com base na mineração responsável, refino limpo e o reaproveitamento de resíduos industriais e eletrônicos.
Para tanto, há a proposta de criação da Rede Baiana de Terras Raras, iniciativa que reúne instituições como a UFRB, Ufba, CBPM e Senai Cimatec, além de empresas do setor mineral e tecnológico. Segundo Jorge Fernando, a Rede terá como objetivo integrar academia, governo e indústria, formando uma “massa crítica”, para compartilhamento de infraestrutura, bem como estimular a inovação voltada à sustentabilidade.
“Assim, a Bahia poderá consolidar-se como vetor estratégico para o desenvolvimento tecnológico e ambientalmente responsável das terras raras no Brasil, conciliando crescimento econômico, preservação ambiental e soberania científica”, finalizou.