Nióbio e terras raras são oportunidades fantásticas, diz fundador de mineradora com projeto no Brasil

A mineradora australiana St. George, com planos de operar no Brasil em até dois anos, anunciou nas últimas semanas avanços na prospecção de terras raras em suas reservas, além de uma parceria com um fornecedor de ímãs do governo dos EUA. Os anúncios se somam ao projeto de nióbio da empresa, que quer construir uma mina na mesma cidade onde a mineradora da família Moreira Salles atua.

A empresa foi fundada em 2010 por John Prineas, que está no Brasil nesta semana para participar da Exposibram, maior feira de mineração do país. Paralelamente ao evento, que acontece em Salvador, ele se reunirá com o encarregado de negócios dos EUA, Gabriel Escobar, em uma reunião fechada com executivos de empresas de minerais críticos.

À Folha Prineas defendeu que o Brasil, assim como a Austrália fez, assine um acordo com os EUA em torno de minerais críticos. Ele contou que a empresa, de capital aberto em Sydney, captou há duas semanas U$ 72,5 milhões, sendo US$ 22,5 milhões de Gina Rinehart, a pessoa mais rica da Austrália e ligada a vários projetos minerários no mundo. O montante representa 80% do investimento necessário para colocar as operações de nióbio em andamento.

O projeto da St. George no Brasil era mais focado em nióbio, mas recentemente a empresa tem feito mais anúncios sobre terras raras. Houve mudança de foco?

Queremos produzir ambas as commodities. O nióbio é a opção mais fácil, dada a nossa localização, então estamos muito confiantes de que podemos fazer produtos comerciais a partir desse metal. Mas as terras raras se tornaram super empolgantes e interessantes neste ano, todos querem estabelecer cadeias de suprimento domésticas para terras raras. Sabemos que alguns investidores estão mais interessados em terras raras, mas outros com quem conversamos realmente gostam da oportunidade do nióbio, então acho que somos uma empresa de minerais críticos.

E no que a Gina Rinehartm, pessoa mais rica da Austrália, está interessada?

Acho que ela está esperando ambos. A beleza do nióbio é que nem a China nem os EUA têm produção doméstica, então é extremamente importante para ambos os países tentar garantir contratos de longo prazo. E uma das razões pelas quais os EUA estão bastante interessados na St. George é que não temos nenhuma afiliação chinesa, enquanto os maiores produtores de nióbio têm uma conexão chinesa muito forte. Então, o espaço de nióbio e terras raras é uma oportunidade fantástica para entrarmos em produção em um tempo relativamente rápido.

Não é muita ambição querer operar no quintal da CBMM, que já está ali há décadas?

Não, de forma alguma. É uma comparação entre um player muito grande e dominante e um player muito pequeno, já que vamos produzir talvez 10% do que eles fazem. Na verdade, é adequado ter outro player no mercado [para evitar monopólios]. Os outros players e a comunidade reconhecem isso. Temos um engajamento comunitário muito forte em Araxá. A população quer ver outra mina em funcionamento e acho que ninguém vai atrapalhar isso.

A St. George tem sete projetos, mas nenhum em operação. Por que o de Araxá pode se tornar uma realidade?

Nosso foco desde o início foi a exploração. Nós queríamos fazer uma grande descoberta e depois levá-la ao desenvolvimento. Nosso primeiro projeto foi, na verdade, uma joint venture com a BHP para extrair níquel na Austrália Ocidental, mas o projeto não se desenvolveu exatamente em um depósito econômico. Então, viemos ao Brasil e compramos o projeto Araxá, porque não queríamos mais risco de exploração. Queríamos agora um projeto avançado, um que tivesse um recurso estabelecido, algo com o qual pudéssemos realmente estar confiantes de que poderíamos levar ao desenvolvimento e produção.

E essa confiança também diz respeito às reservas de terras raras?

As terras raras podem ser muito complexas. Elas são muito comuns na crosta terrestre, mas é realmente muito difícil levar um depósito de terras raras ao desenvolvimento e à produção. É por isso que há apenas dois principais produtores fora da China, um nos EUA e outro na Austrália. Nós temos metalurgistas que trabalhavam para essa mineradora da Austrália, e isso trará muita expertise em termos da oportunidade no desenvolvimento das terras raras.

Além disso, temos a mesma tonelagem que a Mountain Pass, que é a maior mina dos EUA, e também o mesmo teor que a operação da Mount World na Austrália, da empresa Lynas (uma das maiores do mundo). Então, em termos de depósito, considerando tamanho e teor, o nosso projeto é definitivamente econômico.

Mas, também economicamente, faria sentido verticalizar a cadeia no Brasil?

Queremos um produto que tenha o modelo financeiro certo. A dificuldade com terras raras é quando você está tentando produzir o produto avançado, como o óxido de terras raras; é aí que o gasto de capital aumenta e fica bastante complexo. Então, provavelmente, vamos tentar produzir um concentrado de terras raras que requer menos gastos de capital e depois vender esse produto para outra parte fazer o produto final de terras raras. Mas estamos muito interessados em contribuir para a cadeia de suprimentos doméstica do Brasil, e os EUA também estão olhando fortemente para as terras raras.

A Austrália acabou de assinar um acordo com os EUA sobre minerais críticos. Qual é a vantagem de fazer acordo de terras raras com os americanos e não com os chineses, que já detêm a capacidade de refino?

Os EUA estão desenvolvendo essa tecnologia muito rapidamente; eles já têm essa tecnologia, só precisam escalá-la. A St. George, por exemplo, já tem um memorando de entendimento com uma empresa nos EUA, a RE-Alloys, que tem essa capacidade para o processamento downstream. Eles podem separar, dividir e metalizar as terras raras e criar materiais para ímãs. Então essa escala aumentará ao longo do próximo ano e outras empresas também estão crescendo no processamento, o que anteriormente apenas a China podia fazer. A partir disso, acho que a oportunidade existe para fornecer terras raras para os EUA e aproveitar seu grande impulso para estabelecer cadeias de suprimentos domésticas.

Nessas negociações com os americanos, a Austrália e o Brasil têm poder suficiente para dizer aos EUA que o processamento dos minerais têm que acontecer no país onde estão esses minerais?

Os EUA desenvolveram essa tecnologia com forte apoio governamental e essa é uma das coisas que você precisa se quiser tentar desenvolver esse processo downstream. Estamos vendo isso na Austrália; o governo está fornecendo subsídios de financiamento ou empréstimos de longo prazo com baixos juros para empresas tentarem desenvolver esse processamento. Ainda não vi isso no Brasil, mas espero que também aconteça, até porque os EUA podem apoiar esse tipo de financiamento. Mas definitivamente gostaríamos de ter mais processamento downstream no Brasil, se possível.

QUEM?

JOHN PRINEAS, 62

Acionista fundador e diretor da St. Geroge, possui experiências de alto nível em mineração, finanças e governança corporativa, adquiridas ao longo de mais de 25 anos. Antes de criar a St. George, foi o diretor para a Austrália no Commerzbank, com foco em financiamento de projetos e aquisições para recursos e projetos de infraestrutura, bem como no comércio de commodities associadas.

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