Dois empreendimentos voltados ao mercado internacional, um já operacional e outro em fase de implementação, asseguram a participação do Piauí no mapa mineral brasileiro. Em Piripiri, no noroeste do Estado, a Lion Mining explora minério de ferro desde 2022 e programa expansão para alcançar capacidade produtiva de cinco milhões de toneladas anuais a partir de 2027.
No município Capitão Gervásio Oliveira, no sudeste do Estado, o Projeto Piauí Níquel, do grupo britânico Brazilian Nickel Limited (BRN), orçado em US$ 1,4 bilhão, prevê entrar em operação em 2029 e alcançar a partir de 2030 produção anual de 27 mil toneladas de níquel equivalente e mil toneladas de cobalto. Os dois minérios formam um concentrado denominado de Produto Misto de Hidróxido (MHP), utilizado para aumentar a durabilidade de baterias de veículos elétricos.
A expectativa na BRN é de uma boa aceitação de sua produção no mercado internacional. “Estamos em fase de pré-venda e já contamos com cerca de 50% da capacidade comercializada”, diz André Simão, CFO da Brazilian Nickel. Os acordos comerciais são com duas empresas que participam da cadeia de produção de baterias de veículos elétricos, a alemã Pure Battery Technologies (PBT) e a francesa Electro Mobility Materials Europe (EMME).
O níquel e o cobalto são minerais considerados estratégicos para a transição energética e valorizados globalmente. O Brasil é detentor da terceira maior reserva comprovada de níquel do mundo, mas em 2023, segundo dados do Ministério de Minas e Energia, o país ocupava apenas o nono posto entre os maiores produtores mundiais, com uma produção naquele ano de 89 mil toneladas. O Projeto Piauí Níquel é um dos pioneiros no mundo a utilizar em escala industrial um processo de produção de níquel por lixiviação em pilha e hidrometalurgia, que consome menos ácidos e energia elétrica, reduzindo o impacto ambiental. “A sustentabilidade é um critério cada vez mais valorizado por clientes na Europa e nos Estados Unidos”, diz Simão.
“Estamos transitando da posição de um Estado que produzia apenas agregados minerais para a construção civil local para um Estado exportador de minérios”, diz Bruno Casanova, superintendente de mineração e energias renováveis da Secretaria do Planejamento (Seplan) do Piauí. Essa transição já rende resultados econômicos. Em 2023, a arrecadação de Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM) no Piauí foi de R$ 4,13 milhões. Em 2024, quase o dobro, R$ 8,12 milhões. “É o efeito das operações da Lion Mining”, diz Casanova. A arrecadação deve aumentar ainda mais nos próximos anos, uma vez que a mineradora programa a expansão de suas atividades.
A Lion Mining possui duas jazidas abertas em Piripiri. A primeira, que já está sendo explorada comercialmente, tem capacidade de produção de 2,5 milhões de toneladas anuais de minério e apresenta teor de ferro na faixa de 60%, o que é considerado de alto padrão. A extração mineral está evoluindo gradualmente. Em 2024, a produção foi de 1,5 milhão de toneladas e em 2025 deve alcançar dois milhões de toneladas. A China é o principal destino da produção, mas a mineradora também atende a siderúrgica ArcelorMittal Pecém, a unidade cearense do grupo. A segunda jazida, em fase de desenvolvimento industrial, tem previsão de entrar em operação no fim de 2026. “Vamos duplicar nossa capacidade produtiva e chegar a cinco milhões de toneladas anuais”, diz o diretor Gabriell Lessa. O investimento total em Piripiri é previsto em R$ 150 milhões.
A mineradora adota um sistema de separação magnética do material extraído de suas jazidas e implementou a técnica de empilhamento a seco dos rejeitos de mineração, com a qual se retira a umidade do material que será depois disposto em pilhas, dispensando as barragens de rejeitos líquidos, como as que geraram os desastres de Mariana, em 2015, e de Brumadinho, em 2019, que juntos causaram 289 mortes e uma vasta destruição socioambiental em Minas Gerais. “A população estava bastante resistente à mineradora por conta dos desastres em Minas, mas mostramos que não havia risco com o sistema de empilhamento de resíduos secos”, diz a prefeita de Piripiri, Jôve Oliveira, que se envolveu diretamente no trabalho de convencimento dos moradores.
Um desafio para a operação da Lion Mining é a logística. Atualmente, a produção é levada por caminhões em um percurso rodoviário de 420 quilômetros até o porto do Pecém (CE). A expectativa da mineradora é transferir o escoamento para o porto Piauí, em Luís Correia, distante 170 quilômetros da mina. No entanto, o porto, que prevê iniciar as atividades em seu terminal de cargas em 2026, tem um calado de apenas sete metros de profundidade, o que não permite a atracação de navios de grande porte. “Vamos realizar uma operação transshipment”, diz Lessa. A operação consiste em embarcar o minério em uma barcaça no porto e realizar o transbordo em alto-mar para um navio cargueiro.
Em números absolutos, a produção da Lion Mining é de pequeno porte em um país que exportou 389 milhões de toneladas de minério de ferro em 2024. Uma atividade dominada principalmente por uma companhia, a Vale. “O volume da Lion, no entanto, foi suficiente para estabelecer a empresa como a sexta maior exportadora do minério no ano passado”, diz Casanova.
As principais reservas piauienses de minério de ferro estão na região sul do Estado, onde há vários projetos de prospecção, mas ainda sem processos produtivos estabelecidos. O maior projeto mineral na região é o da SRN, em São Raimundo Nonato, que tem recursos potenciais da ordem de 800 milhões de toneladas. A companhia, no entanto, ainda não conta com licença ambiental e precisa resolver um conflito territorial com a comunidade do Quilombo Lagoas, que reúne mais de cinco mil moradores à espera, desde 2008, da titulação da área em disputa com a SRN.
A viabilidade da exploração da mina da SRN e também de outros projetos no centro-sul piauiense depende da Transnordestina, ferrovia de 1.206 quilômetros de extensão que ligará Eliseu Martins (PI) ao porto do Pecém. A obra, iniciada em 2006, tem previsão de conclusão em 2028. Ao todo, o Piauí soma 3.193 processos de pesquisa mineral em execução e 205 requerimentos de lavras formalizados junto à Agência Nacional de Mineração (ANM) para o aval de exploração comercial de jazidas já comprovadas.
Em estudo recente realizado pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB), o Piauí apresenta potencial mineral em ferro, manganês, níquel e cobre. O Estado já é produtor de diamantes, com uma extração de aproximadamente mil quilates por mês em Gilbués, no sul piauiense, e de opala, uma pedra preciosa encontrada em Pedro II, no norte do Estado.