Gerdau vê alívio tarifário entre Brasil e EUA como chance de retomada da indústria nacional

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Um eventual acordo comercial entre Brasil e Estados Unidos, voltado à redução de tarifas, pode representar um fôlego importante para a indústria brasileira e seus exportadores — e, indiretamente, para a siderurgia. A avaliação é do diretor-presidente da Gerdau, Gustavo Werneck, que demonstrou otimismo quanto à possibilidade de entendimento entre os dois países, destacando os efeitos positivos que um pacto dessa natureza teria sobre os clientes da companhia que exportam produtos para o mercado norte-americano.

“Clientes que compram aço nosso no Brasil, produzem equipamentos aqui e exportam para os Estados Unidos seriam diretamente beneficiados”, afirmou o executivo, em coletiva sobre os resultados do terceiro trimestre. Segundo ele, a empresa tem sentido uma retração nas encomendas internas desde que o governo Donald Trump impôs sobretaxas de até 50% sobre determinados produtos brasileiros. “A dificuldade dos nossos clientes é a nossa dificuldade”, reforçou o diretor financeiro, Rafael Japur, ao lembrar que setores como o de autopeças reduziram as compras de aço devido à queda nas exportações.

Apesar de a Gerdau não exportar diretamente aço ao mercado americano, Werneck vê no eventual acordo um impacto indireto, porém relevante: ao facilitar as vendas externas de seus clientes, a empresa aumentaria a demanda doméstica por aço. “Se o mercado se tornar mais adequado para que esses clientes exportem, isso possibilitaria que a Gerdau vendesse mais aço para eles aqui no Brasil”, disse.

Peso dos EUA e o efeito Trump

O desempenho da Gerdau nos Estados Unidos tem sido um dos pilares do grupo. No terceiro trimestre, a operação norte-americana respondeu por 65% do Ebitda consolidado — índice que mede o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização. O resultado, segundo Werneck, é reflexo da política protecionista adotada por Donald Trump, que impôs barreiras à entrada de aço estrangeiro e impulsionou a produção local.

“Está totalmente relacionado a isso, e não é só de agora — desde a primeira administração Trump”, observou o executivo. Ele acrescentou que a demanda por aço nos EUA segue forte, impulsionada por frentes como a construção de data centers. “A quantidade de data centers que serão construídos nos Estados Unidos corresponde a 800 campos de futebol”, afirmou.

Importações ameaçam siderurgia no Brasil

Enquanto o cenário externo mostra vigor, o quadro doméstico preocupa. Werneck advertiu que o alto volume de importações de aço no Brasil, hoje em torno de 25% a 30% do mercado interno, ameaça a sobrevivência da indústria nacional. “Se não houver uma redução significativa na entrada de produtos importados, será impossível que as siderúrgicas sobrevivam. Elas podem desaparecer”, alertou.

O executivo destacou que muitas empresas do setor já operam no prejuízo e têm perdido fôlego financeiro. No caso da Gerdau, o excesso de importações levou ao fechamento de plantas em Minas Gerais e São Paulo e à demissão de 1,5 mil funcionários entre janeiro e julho deste ano. A companhia também reduziu em 22% os investimentos previstos para o próximo ano, alegando falta de condições competitivas. “Não faz sentido manter investimentos elevados se não encontrarmos um ambiente de competição adequado. Só investimos se houver cliente”, afirmou.

Diálogo com o governo e perspectiva para 2026

Apesar das dificuldades, Werneck demonstrou confiança na abertura de diálogo com o governo federal, que tem sinalizado maior sensibilidade ao tema. Segundo ele, as conversas com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva avançaram nas últimas semanas, com discussões sobre medidas de defesa comercial para equilibrar a concorrência com o aço estrangeiro, sobretudo o chinês.

O CEO acredita que as ações antidumping poderiam reduzir o patamar de importações de 30% para 10%, restaurando um ambiente de competição “leal e isonômico”. “O governo entendeu que é impossível a indústria de aço sobreviver se continuar desse jeito. Eles entenderam que não há mais fôlego para o setor trabalhar no vermelho”, disse.

Minério sustentável e aposta em Minas Gerais

A Gerdau também aposta em projetos de inovação e sustentabilidade para sustentar seu crescimento futuro. Em Miguel Burnier (MG), a companhia avança com um projeto de minério sustentável, que já tem 90% de execução e deve iniciar operações integradas em 2026. O minério será transportado por mineroduto até a usina de Ouro Branco, o que deve retirar 400 caminhões por dia das estradas. O produto, com 65% de teor de ferro, é considerado de altíssima qualidade e atenderá principalmente a demanda interna da própria empresa.

Sinais de recuperação

Mesmo com as incertezas, os resultados do terceiro trimestre indicam resiliência. A Gerdau registrou lucro líquido ajustado de R$ 1,09 bilhão, alta de 26% em relação ao trimestre anterior. Werneck vê o momento como uma transição, em que o sucesso nas operações norte-americanas contrasta com os desafios no Brasil — mas acredita em uma recuperação gradual a partir de 2026, sustentada por um ambiente comercial mais equilibrado e por políticas industriais mais firmes.

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