Setor de mineração no Brasil avança em tecnologia, mas continua atrás de principais rivais”

A mineração sustenta parte significativa da economia brasileira. Em 2024, respondeu por 33% do saldo da balança comercial do país (US$ 24,51 bilhões), segundo o governo federal. Foram US$ 67,2 bilhões em exportações de minério de ferro, ouro, cobre, nióbio e lítio. No entanto, a distância entre potencial geológico e liderança tecnológica ainda é grande.

Não há dados consolidados sobre o montante total dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento em mineração no Brasil, mas há consenso entre atores do setor de que o país investe menos em tecnologia e pesquisa do que seus principais concorrentes – como Austrália, Canadá e China -, onde governos e empresas destinam recursos pesados à digitalização, automação e descarbonização das minas.

Um estudo publicado em 2024 pelo Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) mostra que houve redução no número de mineradoras com áreas dedicadas exclusivamente à inovação – de 72% em 2022 para 57% em 2023. Apesar disso, o fomento interno avançou, com 81% das companhias implementando programas próprios de melhoria contínua. No mesmo período, o uso de ferramentas digitais de gestão da inovação cresceu de 47% para 76%.

Para Silvia França – diretora do Centro de Tecnologia Mineral (Cetem), principal órgão governamental de pesquisa do setor e vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações -, o Brasil precisa fortalecer a cooperação internacional e investir de forma contínua em pesquisa aplicada. “É preciso vislumbrar além da produção mineral e dar passos à frente na cadeia produtiva, agregando valor por meio do aporte de tecnologias aos produtos gerados.”

A produção científica brasileira na mineração tem se expandido, mas ainda carece de continuidade. Nos últimos anos, universidades como USP, UFMG, UFOP e Unicamp ampliaram linhas de pesquisa em beneficiamento, reaproveitamento de rejeitos e novas rotas de extração com menor impacto ambiental. Um dos exemplos mais recentes é o projeto MagBras – da Mina ao Ímã, iniciativa do Programa Mover, liderada pelo Senai e coordenada pela Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (Fiesc), que busca estruturar uma cadeia nacional de ímãs permanentes de terras-raras, do minério ao produto final, para reduzir a dependência de importações. O projeto reúne 38 empresas, startups, universidades e instituições de pesquisa, com foco em mobilidade elétrica, energia limpa, defesa e outros setores estratégicos.

Em janeiro deste ano, o BNDES e a Finep lançaram uma nova chamada pública para impulsionar a transformação de minerais estratégicos e acelerar a transição energética no país. Com orçamento inicial de R$ 5 bilhões, o programa combina crédito, participação acionária e recursos não reembolsáveis para fortalecer a capacidade produtiva e o investimento em pesquisa, desenvolvimento e inovação. A iniciativa prioriza cadeias de lítio, terras raras, níquel, grafite e silício, além de incentivar a fabricação nacional de baterias, células fotovoltaicas e ímãs permanentes.

O setor privado tem alocado o orçamento de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) em áreas como automação, inteligência artificial e digitalização de processos, para impulsionar ganhos em eficiência, segurança e sustentabilidade.

Líder mundial na produção de nióbio, a CBMM vem mantendo um investimento entre R$ 250 milhões e R$ 300 milhões por ano em PD&I. A companhia mantém mais de 200 projetos ativos com universidades e empresas no Brasil e no exterior, voltados à diversificação do portfólio e à criação de aplicações de alto valor agregado.

“Desde 2018, temos investido no desenvolvimento de tecnologias inovadoras para baterias de última geração, com foco na aplicação do nióbio em eletrodos”, explica Ricardo Lima, CEO da CBMM. O objetivo, segundo ele, é impulsionar a eletrificação e a descarbonização, alinhando-se à agenda global de energia limpa.

Entre as áreas que mais atraem investimento privado na mineração brasileira estão automação, inteligência artificial, sensoriamento remoto e eficiência energética. Grandes mineradoras, como Vale e CBMM, vêm adotando sistemas autônomos e modelagem digital, utilizando caminhões automatizados, drones e sensores de monitoramento em tempo real.

O potencial brasileiro em terras-raras também deve impulsionar o desenvolvimento de novas tecnologias nacionais. Esses tipos de minério são fundamentais para a fabricação de ímãs permanentes usados em turbinas eólicas, motores elétricos e painéis solares.

O avanço das tecnologias digitais também vem remodelando o ecossistema do setor. Plataformas como a Jazida, que automatiza a gestão de processos minerários e ambientais com integração geoespacial e alertas de conformidade, e a CertiMine, que aplica blockchain e inteligência artificial para rastrear e certificar cadeias produtivas sob critérios ESG, são um exemplo da nova geração de soluções voltadas à eficiência e transparência do setor.

“A gente tem uma mão de obra muito especializada. Temos faculdades tanto públicas quanto privadas excelentes. O que precisa é o governo olhar o setor mineral e fomentar a inovação, tanto com as mineradoras quanto com as empresas de base tecnológica”, diz Eder Griebeler, fundador e CEO da Fast2Mine. A empresa foi criada em 2013, em Minas Gerais, e desenvolve sistemas baseados em IA, automação, internet das coisas (IoT) e plataformas em nuvem (SaaS) para controle operacional e gestão de frotas.

Em pouco mais de uma década, a Fast2Mine já atendia 90 mineradoras e operava em países como Austrália, Chile e México. O sucesso atraiu atenção da britânica Weir, que adquiriu a empresa em setembro deste ano. Griebeler não revela o montante da transação, mas espera que casos como esse se tornem mais comuns no país. “O Brasil é um país minerador que não se enxerga como minerador. O setor só é lembrado quando algo de ruim acontece, com a queda de uma barragem. Por que não podemos ser a mesma potência no setor mineral como somos no agro?”

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