Diplomacia destrava crise dos chips e afasta risco de paralisação nas montadoras brasileiras

Imagem da notícia

A indústria automobilística brasileira começa a respirar aliviada. Depois de quase um mês de incertezas e risco real de paralisação nas linhas de montagem, a retomada gradual da importação de semicondutores pela China sinaliza o fim da crise que ameaçava paralisar a produção de veículos no País.

Segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), as montadoras já estão sendo comunicadas por seus fornecedores sobre a liberação dos embarques a partir da China. “Na sexta-feira, as fabricantes começaram a ser avisadas de que a autorização para importação de chips está sendo retomada aos poucos. Com isso, o risco de paralisação em nossas fábricas diminuiu”, afirmou Igor Calvet, presidente da entidade.

Dois movimentos diplomáticos foram decisivos para destravar o fornecimento. O primeiro foi a liberação pela China das exportações de chips para empresas que operam no Brasil e possuem fábricas em território chinês. O segundo, uma licença especial concedida pelo governo chinês às companhias brasileiras, permitindo que retomassem o acesso direto aos componentes, ainda que de forma limitada.

Intervenção política e disputa global

A crise, contudo, teve origem fora das fronteiras brasileiras. Em outubro, o governo da Holanda decidiu assumir o controle da Nexperia, subsidiária da gigante chinesa Wingtech Technology, responsável por cerca de 40% do fornecimento global de semicondutores usados em automóveis. A medida foi interpretada por Pequim como um gesto de hostilidade e desencadeou uma reação imediata: a suspensão das exportações de chips produzidos na China tanto para a operação europeia quanto para outros mercados, incluindo o brasileiro.

Com a interrupção, fornecedores como Bosch, ZF, Mahle e Marelli passaram a relatar dificuldades para atender as montadoras nacionais. A ameaça de desabastecimento colocou o governo brasileiro em alerta e levou o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) a intervir diretamente.

Em reunião emergencial com representantes da Anfavea, do Sindipeças e de sindicatos ligados ao setor automotivo, o vice-presidente e ministro Geraldo Alckmin articulou contatos com o embaixador da China no Brasil, Zhu Qingqiao, e com o embaixador brasileiro em Pequim, Marcos Bezerra Abbott Galvão, para negociar uma solução diplomática. “Se não houvesse essa interlocução direta, o risco de paradas nas fábricas seria alto”, admitiu um executivo do setor.

Impactos contidos, mas alerta permanece

Apesar do avanço nas negociações, a normalização total ainda não está garantida. “A situação melhorou, mas é importante dizer que ainda não foi normalizada. Se não houver nova interrupção, nossa indústria tende a não ser afetada”, ponderou Calvet.

A retomada do fluxo de chips é vista como um alívio momentâneo para um problema estrutural: a dependência global de poucos fornecedores e a concentração da cadeia de semicondutores em regiões geopolíticamente sensíveis.

Segundo dados da Agência Internacional de Energia (IEA), a China controla cerca de 70% da mineração mundial de terras raras, mais de 90% do refino e quase 100% da produção de ímãs permanentes — elementos essenciais na fabricação de semicondutores e motores elétricos. Essa dominância permite que Pequim exerça influência direta sobre cadeias produtivas inteiras, da indústria automobilística ao setor de tecnologia de ponta.

A disputa tecnológica e comercial entre China, Estados Unidos e Europa amplia a vulnerabilidade de países importadores, como o Brasil, que ainda não possuem uma base própria de produção de semicondutores. O episódio recente mostrou como uma decisão política em outro continente pode rapidamente comprometer a produção industrial em diversos países.

Um sinal de alerta para o futuro

Embora o pior pareça ter sido evitado, a crise reacende o debate sobre a necessidade de o Brasil avançar em políticas industriais voltadas à autonomia tecnológica. Especialistas defendem que o país volte a investir na produção local de componentes eletrônicos, fortalecendo iniciativas como o CEITEC e ampliando parcerias com centros de pesquisa e empresas internacionais.

Para as montadoras, o momento é de cautela. A cadeia de suprimentos global ainda se recupera dos efeitos da pandemia e das disputas comerciais entre as potências. Por ora, a diplomacia brasileira conseguiu evitar que a falta de chips travasse o coração da indústria automotiva nacional — mas o risco de novas interrupções segue como um lembrete de que, na era digital, a produção de veículos depende tanto de aço quanto de silício.

Compartilhe esse artigo

Açogiga Indústrias Mecânicas

A AÇOGIGA é referência no setor metalmecânico, reconhecida por sua estrutura robusta e pela versatilidade de suas operações.
Últimas Notícias