O alto volume de aço exportado pela China continua a ser um problema para o setor siderúrgico da América Latina, dizem especialistas da indústria reunidos no congresso da Associação Latinoamericana do Aço (Alacero), em Cartagena das Índias, na Colômbia. Jorge Oliveira, presidente da Alacero, disse nesta terça-feira (11) que o cenário está mais preocupante do que nos últimos anos e que ainda há mais dúvidas do que respostas para resolver as questões decorrentes da entrada do produto chinês na região: “A realidade mostra que, apesar dos esforços, o mercado de aço da América Latina está em deterioração por conta da capacidade global excedente de produtos da Ásia.”
Oliveira, que também é presidente da ArcelorMittal no Brasil, disse que empresas latinas têm sido obrigadas a reavaliar investimentos e reduzir produção: “A maior produtora de aço do Chile [Huachipato] fechou operações. Essas tensões geopolíticas afetam toda a cadeia de insumos e os preços das commodities e de logística. Precisamos buscar respostas efetivas para enfrentar esse ambiente desafiador.”
A preocupação com a entrada do produto chinês em países latino-americanos se confirma nos números. Entre janeiro e setembro deste ano, as importações totais de aço do Brasil (de todas as origens) somaram 5,075 milhões de toneladas, 9,7% acima das 4,628 milhões de toneladas de igual período do ano passado, conforme dados do Instituto Aço Brasil.
Já as importações de produtos de aço com origem na China cresceram 25,9% no mesmo período, em comparação com nove meses de 2024, somando 3,1 milhões de toneladas. Os chineses representaram 61,1% das importações brasileiras de produtos de aço de janeiro a setembro de 2025, aumento de 7,9 pontos percentuais ante igual período do ano anterior.
De janeiro a setembro de 2025, a produção brasileira de aço caiu 1,7%, para 24,982 milhões de toneladas, também segundo o Aço Brasil, ante 25,419 milhões de toneladas de igual período de 2024.
Segundo a Alacero, a China produz em 20 dias o equivalente a um ano de operação da indústria siderúrgica de toda a América Latina. Quando se trata de Brasil, o país asiático produz em 12 dias o mesmo volume produzido pela indústria brasileira em um ano.
“A América Latina está perdendo a possibilidade de desenvolvimento. As barreiras de defesa da região são muito baixas”, disse Ezequiel Tavernelli, diretor-executivo da Alacero. Ele prosseguiu: “As economias latinas estão se ‘primarizando’. As indústrias da região estão vendendo mais produtos primários do que manufaturados. Os países não estão se industrializando.”
Na visão do diretor-executivo da Alacero, a China pode se tornar um problema social para países da América Latina como resultado dos efeitos que uma desaceleração da siderurgia pode ter sobre a cadeia produtiva: “A indústria do aço gera empregos, movimenta logística e abastece outras indústrias. Muitos setores são afetados ao mesmo tempo.”
Para Tavernelli, o ideal seria uma maior integração regional entre os países, com políticas de defesa comercial que incluam maiores tarifas para produtos importados. Segundo o executivo, o exemplo da cota-tarifa do Brasil mostra que é necessário que os impostos cobrados sobre as importações sejam mais altos.
O Comitê Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex/Camex), ligado ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, renovou em maio deste ano o sistema de cotas de importação de produtos de aço no Brasil, prorrogado até maio de 2026. A regra prevê uma alíquota de 25% sobre o aço importado da China que ultrapassar a cota, válida sobre 23 tipos de produtos
“A América Latina poderia ganhar a partida se houvesse igualdade de competição”, disse Tavernelli. “O aço da China é subsidiado, desde a energia utilizada para a produção até o transporte. A América Latina tem uma indústria siderúrgica potente e com potencial de competir. Mas não conseguiremos em um espaço desigual.”
Também no evento da Alacero, o professor de relações internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV) Oliver Stuenkel disse que um dos diagnósticos do cenário problemático do setor é a ausência de união entre governos da região: “A falta de união de governantes da América Latina deixa a região mais frágil. O que sobra é um espaço para que o setor privado se una e cumpra esse papel. Os países atuando de forma autônoma não devem conseguir uma solução.”