A indústria siderúrgica da América Latina vive o dilema de ver, por um lado, a entrada massiva de aço chinês e, de outro, as medidas protecionistas do governo de Donald Trump. Nesse cenário, executivos do setor dizem que a região está atrasada na criação dos próprios mecanismos de proteção e em encontrar alternativas de comércio. O debate esteve presente nesta quarta-feira (12) no congresso anual da Associação Latino-americana do Aço (Alacero), em Cartagena das Índias, na Colômbia.
No caso brasileiro, o presidente da associação de fabricantes de aço dos Estados Unidos (SMA, na sigla em inglês), Philip Bell, acredita que a relação entre governos do Brasil e dos Estados Unidos têm potencial para melhorar, o que pode aliviar parcialmente o cenário. Ao Valor, Bell diz que ainda que tenha havido aproximação entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Trump, há espaço para avanços.
“Trump era um grande fã de [Jair] Bolsonaro, mas as coisas mudaram. O Brasil é importante para a economia global e para a indústria de aço. É fundamental termos um relacionamento saudável. Há um enorme potencial para melhora”, disse Bell.
Indagado se essa melhor relação entre os países poderia reduzir as tarifas americanas sobre o aço importado do Brasil, que ainda é taxado em 50% desde junho pela medida da Casa Branca chamada seção 232, Bell deixou a decisão para os chefes de Estado: “Isso diz respeito à relação entre Lula e Trump. Acredito que o Brasil tem muito a fazer no campo de comércio exterior. Muitos na indústria brasileira [do aço], ainda que não gostem do que estamos fazendo, acreditam que o Brasil deveria fazer algo parecido para ajudar a indústria interna”, afirmou.
“Os chineses não vão parar de produzir. O último a proteger o mercado vai ser o primeiro a perder”
— Ezequiel Tavernelli
Trump instituiu a seção 232 logo depois de assumir em janeiro deste ano, inicialmente taxando os produtos em 25%. Em junho, decidiu elevar a taxa para 50%. A tarifa vale igualmente para todos os países. Bell diz que a medida tem ajudado a indústria americana: “Para os produtores americanos, isso nos ajuda. Nos ajuda a conseguir mais investimentos e a ganhar fatia de mercado que havíamos perdido com a concorrência desleal do produto importado. A melhor forma de descrever o avanço é que até agora está tudo bem.”
O presidente da SMA reconhece que a taxação de aço prejudicou as relações entre os Estados Unidos e outros países. “Mas ainda acredito que temos que entender o que o presidente Donald Trump está tentando fazer. Ele está passando uma mensagem clara sobre o comércio exterior americano e sobre as relações com os países. Países como a China estão tentando dominar as indústrias dos outros países e tentando derrubá-las. Sei que não é fácil, mas em certo ponto o Brasil deve precisar de algo como a 232 para ajudar a levantar a indústria de aço e outros setores de manufatura.”
Ezequiel Tavernelli, diretor-executivo da Alacero, afirma que países da América Latina estão pressionados entre o excesso de produto chinês e o aumento da proteção americana. “Os Estados Unidos farão em breve um acordo com o México e o Canadá para formar um bloco, o USMCA. Por outro lado, a Europa também está taxando o aço. Isso deve aumentar a vinda do aço chinês para a América Latina.”
Tavernelli defende que países da América Latina definam formas de proteção. No caso do Brasil, há uma taxa de 25% sobre produtos de aço importado, mas que não tem sido suficiente para reduzir a entrada do material chinês. “A capacidade excedente da China está sobrecarregando a nossa região. Os chineses não vão parar de produzir. O último a proteger o mercado vai ser o primeiro a perder.”
O presidente da ArcelorMittal Brasil, Jorge Oliveira, acredita que é possível que o Brasil negocie uma redução de tarifas sobre o aço com os Estados Unidos. “A seção 232 deixa o produto brasileiro igual aos produtos de outros países, ao ser importado pelos americanos. Se o Brasil conseguir negociar uma redução dessa tarifa, nos deixaria diferente do resto do mundo, especialmente no aço”, disse.
Desde quando passou a valer a taxa dos Estados Unidos sobre o aço, parte da exportação de semiacabados da ArcelorMittal, que ia para os americanos, foi redirecionada para a Europa e outros mercados. Segundo a empresa, a produção e as vendas não foram afetadas pela medida, mas houve pressão sobre os preços, que recuaram.
Segundo Oliveira, que atuou como presidente da Alacero nos últimos dois anos e deixa o cargo em 2025, o bloco USMCA deve facilitar as trocas comerciais entre esses países, mas o fato de se fecharem entre eles pode dificultar a negociação com outros países, como o Brasil.
Cálculos da consultoria Argus mostram que os preços de placas, o principal produto de exportação de aço do Brasil para os Estados Unidos, caíram cerca de 12%. Em janeiro, o preço de exportação estava em torno US$ 510 a US$ 520 por tonelada. Em outubro, o preço caiu para US$ 460 por tonelada.