Minaçu ficou conhecida por abrigar a única mina de amianto em operação nas Américas. O produto é cancerígeno e proibido em boa parte do planeta. Mas a pequena cidade no norte de Goiás agora atrai a atenção do mundo por causa das tão cobiçadas terras raras.
Elas são um grupo de 17 elementos químicos essenciais para a tecnologia moderna, sendo usados em produtos como smartphones, veículos elétricos, turbinas eólicas e equipamentos militares. Por isso estão no centro da disputa comercial entre China e Estados Unidos.
As terras raras podem ser usadas nas negociações do Brasil com os EUApara pôr fim ao tarifaço imposto pelo presidente norte-americano, Donald Trump. A informação partiu do vice-presidente Geraldo Alckmin, que é ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
Com cerca de 28 mil habitantes e no extremo norte de Goiás, na divisa com Tocantins, a 490 km de Goiânia e a 370 km de Brasília, Minaçu tem a primeira mineradora fora da Ásia a produzir em escala comercial os quatro elementos magnéticos essenciais de terras raras.
A Serra Verde Pesquisa e Mineração começou sua produção comercial em janeiro de 2024. Ela tem um depósito de terras raras em argila iônica e emprega cerca de 400 pessoas, sendo 72% da força de trabalho formada por moradores da região.
A mineradora produz um concentrado de terras raras com alta proporção de disprósio (Dy), térbio (Tb), neodímio (Nd) e praseodímio (Pr), essenciais para a fabricação de ímãs permanentes, usados em veículos elétricos, turbinas eólicas e outras tecnologias limpas.
Governo Trump libera R$ 2,5 bilhões para Minaçu
Na semana passada, o governo dos EUA aprovou um financiamento de até U$ 465 milhões (cerca de R$ 2,5 bilhões) para a Serra Verde expandir e modernizar as operações na mina da cidade do interior de Goiás, que tem vida útil estimada em 25 anos.
O dinheiro sairá por meio da Corporação Financeira de Desenvolvimento Internacional, agência criada por Donald Trump para apoiar projetos considerados estratégicos em países emergentes e reduzir a dependência da China no fornecimento e processamento de minerais críticos.
O país asiático responde por 69% da produção mundial de terras raras. O Brasil tem a segunda maior reserva, mas sua produção ainda é mínima. Com 21 milhões de toneladas métricas em reservas, extraiu apenas 20 toneladas métricas em 2024, todas em Minaçu.
Os investimentos estrangeiros são essenciais. A Serra Verde tem apoio de fundos internacionais como Denham Capital, Vision Blue Resources e Energy and Minerals Group. A expectativa é de que a mina do interior de Goiás cresça até 5 mil toneladas anuais.
Japoneses também querem investir em Goiás
Acredita-se que as reservas goianas de terras raras representam cerca de 25% da disponibilidade mundial deste tipo de minério. Há mais de 400 processos de pesquisa mineral envolvendo terras raras em Goiás, segundo a Secretaria Estadual de Indústria, Comércio e Serviços.
Entre os principais focos estão as argilas iônicas, ricas em elementos como neodímio, térbio e disprósio. Em agosto, uma comitiva de representantes do governo do Japão esteve em Goiás para tratar da exploração dessa riqueza.
Na ocasião, o embaixador do país asiático no Brasil, Teiji Hayashi, disse, sem dar detalhes, que umas das intenções é reduzir a dependência da China. “Veio a equipe completa do governo japonês para discutir e para aprofundar nossos laços, colaborações na área de terras raras”, destacou.
O governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil), também falou em parceria, mas sem muitas informações. “Chegamos a um entendimento para avançar na cooperação entre Goiás e o governo japonês, não apenas na exploração, mas também no processamento das terras raras”, afirmou.
A comitiva japonesa foi recebida por Caiado em Goiânia, a capital do estado, e visitou a mineradora Serra Verde, em Minaçu, e a planta piloto do Projeto Carina, da Aclara Resources, em Aparecida de Goiânia, onde as terras raras chegam sob a forma de argila iônica.
Cidade tem primeira fábrica do Brasil que processa terras raras
Aparecida de Goiânia fica na Região Metropolitana de Goiânia. A unidade da Aclara na cidade de 550 mil habitantes, a segunda mais populosa do estado, é a primeira fábrica do Brasil capaz de processar terras raras. No caso, ela serve para a produção de ímãs.
A fábrica de Aparecida de Goiânia usa um método ambientalmente responsável para transformar argila iônica, com cerca de 0,1% de terras raras, em carbonato com pureza acima de 95%, destinado à fabricação de ímãs usados nas indústrias automotiva e de energia.
Um dos destaques do projeto é a planta de tratamento de água, que representa 15% do investimento total. A água usada na lavagem do material é purificada e reutilizada. O consumo previsto na operação definitiva será de 150 litros por segundo.
A tecnologia aplicada, já testada em unidade da empresa no Chile, também prevê filtragens de alta precisão, incluindo nanoescala, para garantir a remoção de impurezas antes do reuso. Tudo tem sido acompanhado por órgãos ambientais do estado e do governo federal.
Cidade de 3,2 mil habitantes terá investimento de R$ 2,8 bilhões
O minério usado na fábrica de Aparecida é extraído em Nova Roma (GO), que fica no nordeste de Goiás, a 575 km de Goiânia, e tem pouco mais de 3,2 mil habitantes. De origem peruana, a Aclara pretende construir uma grande unidade em Nova Roma, com um investimento de R$ 2,8 bilhões.
Em 2023, a Aclara anunciou a descoberta de depósitos de terras raras na cidade. A mineradora se prepara para explorar uma área de cerca de 1.400 hectares, por meio do Projeto Carina, que deve gerar até 5,7 mil novos empregos na região, com a produção começando até 2030.
A Aclara pretende processar aproximadamente 250 toneladas de terras raras por ano em Nova Roma. É o ponto de partida para um projeto pioneiro no Brasil, com a exploração de terras raras pesadas, como disprósio e térbio.
Nova Roma é o município goiano com maior potencial de terras raras pesadas. Mas também se destacam Monte Alegre e Cavalcante, ainda na região Nordeste; Iporá, no Oeste; e Minaçu, que já exporta terras raras leves.
Governo de Goiás criou lei para cidade continuar a extrair amianto
Minaçu tem a única mina de amianto em operação na América Latina, a terceira maior do mundo, perdendo apenas para plantas da Rússia e do Canadá. Mas a produção de amianto é proibida no Brasil desde 2017, por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF).
A Corte aceitou a constitucionalidade de uma lei do Rio de Janeiro que proibiu a fabricação e venda de produtos com amianto. A decisão valia para todo o país. A mineradora Sama, do Grupo Eternit, paralisou suas atividades em Minaçu em 2019.
A decisão levou à demissão em massa de mais de 400 funcionários. Mas, no mesmo ano, o estado de Goiás driblou a proibição ao criar uma lei autorizando a exploração apenas para exportação. A mineradora retomou as atividades imediatamente.
Liminares chegaram a parar as atividades por poucos dias, mas o STF autorizou o funcionamento da mina até que a lei estadual seja julgada. Em agosto de 2024, a Assembleia Legislativa de Goiás criou outra lei, que dá cinco anos para o encerramento das atividades na mina.
A jazida de Minaçu foi descoberta em 1962, sendo explorada por mais de seis décadas. Ela fica ao lado do perímetro urbano, ocupando 45 quilômetros quadrados. O parque industrial tem capacidade para produzir 20% de toda a fibra de amianto crisotila comercializada no mundo.
A atividade sempre ameaçou os trabalhadores da mina e todos os moradores de Minaçu. Classificado como cancerígeno pela Organização Mundial de Saúde (OMS) há cinco décadas e banido por completo na Europa desde 2005, o amianto é proibido em mais de 60 países.
A aspiração do amianto provoca graves problemas respiratórios e aumenta a incidência de mesotelioma, câncer no tecido que reveste os órgãos e tem alto grau de mortalidade. Segundo a OMS, ao menos 107 mil morrem anualmente de doenças associadas ao amianto.
A matéria-prima oriunda da exploração é usada na construção de telhas, caixas d’água, peças automotivas, divisórias, pisos vinílicos, tubulações, vasos de decoração, fitas de isolamento térmico, gaxetas, chapas de revestimento, tecidos isolantes e outros produtos.
O amianto de Minaçu é exportado a países como os Estados Unidos, Japão, Índia, Indonésia, Irã, México, Emirados Árabes Unidos, Colômbia, Tailândia, Nigéria, entre outros.
Desde o início da guerra na Ucrânia, devido às sanções contra Rússia – maior exportadora de amianto do mundo –, muitos países buscam o amianto brasileiro, alavancando ainda mais a extração e a produção da matéria-prima em solo goiano.