Hidrogênio verde entra em fase de maturação global e expõe gargalos regulatórios, aponta ABIHV

O mercado global de hidrogênio verde e derivados atravessa, em 2026, um ponto de inflexão relevante. Após anos marcados por anúncios ambiciosos, metas agressivas e uma corrida por protagonismo tecnológico, o setor entra agora em uma etapa mais pragmática, focada em execução, viabilidade econômica e disciplina de capital. Essa é a principal conclusão da nota técnica divulgada em janeiro pela Associação Brasileira da Indústria do Hidrogênio Verde (ABIHV), que analisou a trajetória de mais de 500 projetos internacionais em diferentes estágios de maturidade.

Segundo o levantamento, esses empreendimentos, em fase de decisão final de investimento (FID), construção ou já em operação, representam um volume estimado de US$ 110 bilhões em investimentos globais. Dentro desse universo, cerca de 52 projetos foram recentemente cancelados ou reavaliados, totalizando aproximadamente 4 milhões de toneladas por ano (Mtpa) de capacidade potencial. Para a ABIHV, no entanto, o movimento não caracteriza uma crise sistêmica do hidrogênio limpo, mas sim um processo esperado de seleção natural em um mercado ainda em consolidação.

Da euforia à execução racional

A análise da associação aponta que o setor está migrando de uma “primeira onda” marcada pela euforia dos anúncios para um ciclo de execução racional, no qual projetos precisam demonstrar fundamentos sólidos para avançar. Esse novo momento é descrito pela estratégia adotada por grandes empresas globais, resumida no conceito “Fill, Hold and Fold”.

Nesse modelo, companhias garantem posição em projetos considerados estratégicos e com melhor combinação de recursos, infraestrutura e demanda (“Fill”); mantêm iniciativas em compasso de espera diante de incertezas regulatórias ou de mercado (“Hold”); e despriorizam ou cancelam projetos que não se mostram compatíveis com o novo ambiente macroeconômico, caracterizado por juros mais altos e maior rigor na alocação de capital (“Fold”). Para a ABIHV, esse comportamento explica boa parte da recente depuração do pipeline global de hidrogênio verde.

Licenciamento e burocracia lideram entraves globais

O estudo detalha os principais fatores que têm levado à reavaliação ou cancelamento de projetos ao redor do mundo. O licenciamento ambiental, a burocracia e falhas regulatórias aparecem como o principal entrave, afetando cerca de 44% das iniciativas analisadas. Em seguida, surgem a incerteza política e de mercado, citada em 38% dos casos, refletindo mudanças em políticas públicas, subsídios e prioridades energéticas.

Custos elevados e desafios na economia dos projetos também pesam de forma significativa, respondendo por aproximadamente 28% das reavaliações. Já as dificuldades de financiamento, em um cenário global de aperto monetário e menor apetite ao risco, aparecem em 27% dos projetos. A falta de contratos firmes de demanda ou offtake, elemento central para a bancabilidade, é apontada em cerca de 23% das situações. A ABIHV ressalta que muitos projetos acumulam mais de um desses fatores simultaneamente.

O que diferencia os projetos que avançam

Em contraste com os empreendimentos que ficaram pelo caminho, a nota técnica identifica padrões claros entre os projetos que conseguem alcançar o FID. De acordo com a associação, esses casos bem-sucedidos compartilham três pilares fundamentais: demanda assegurada, seja por meio de contratos de offtake ou integração com cadeias industriais existentes; um arcabouço regulatório claro e previsível; e uma estrutura de financiamento consistente, capaz de absorver riscos tecnológicos e de mercado.

Experiências internacionais reforçam esse diagnóstico. Na Europa, novos mecanismos de funding, leilões específicos e instrumentos de mitigação de risco têm permitido destravar investimentos. Em países como Mongólia e Arábia Saudita, projetos de referência avançaram com forte participação estatal, inclusive com o Estado assumindo parte do risco de equity para viabilizar empreendimentos de grande escala.

Brasil e a janela de oportunidade industrial

Na avaliação da ABIHV, o Brasil reúne condições únicas para se posicionar como protagonista na próxima fase do hidrogênio verde, especialmente na vertente industrial. A combinação de abundância de recursos renováveis, potencial logístico e base industrial existente coloca o país, com destaque para o Nordeste, em posição estratégica no cenário global.

Para que essa oportunidade se materialize, no entanto, a associação defende a adoção de instrumentos claros de estímulo à demanda. Entre eles estão mandatos de consumo, metas nacionais, compras públicas estruturadas e leilões com critérios rigorosos de maturidade dos projetos. O uso de capital catalítico, capaz de reduzir riscos iniciais e atrair investidores privados, também é apontado como elemento-chave.

Do pipeline à realidade operacional

A mensagem central da nota técnica é que o hidrogênio verde deixou de ser apenas uma promessa de futuro e entrou em uma fase em que apenas projetos economicamente robustos avançarão. A depuração do pipeline global, longe de ser um sinal de fracasso, reforça a importância de planejamento, integração com infraestrutura existente e políticas públicas bem desenhadas.

Para o Brasil, o momento é decisivo. Com o mercado internacional mais seletivo e focado em execução, a definição de regras claras e instrumentos de financiamento adequados pode determinar se o país será apenas um fornecedor potencial ou um verdadeiro hub industrial de hidrogênio limpo e derivados nos próximos anos.

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