
O anúncio do PBoC (People’s Bank of China, o banco central chinês), em 15 de janeiro de 2026, foi interpretado por parcela do mercado ocidental como “mais um estímulo” para reanimar o consumo. Trata-se de uma leitura simplificadora. A redução de 0,25 ponto percentual (25 pontos-base) nas taxas das ferramentas estruturais e a ampliação de linhas direcionadas para 1,2 trilhão de yuans trazem um carimbo claro: “Novas forças produtivas”.
Pequim não está irrigando a demanda doméstica; está fortalecendo o financiamento da supremacia industrial em tecnologia, manufatura avançada e transição energética.
O momento é estratégico. O ano de 2026 marca o início do 15º Plano Quinquenal (2026–2030). Para o Brasil, o recado é direto: a China acelera a substituição do motor imobiliário por um modelo centrado em capacidade industrial de ponta.
Há uma chave interpretativa essencial: na China, plano não equivale a burocracia; representa um contrato de execução. Na prática, combina disciplina interna —eficiência, padronização e governança— com um efeito externo previsível: o escoamento do excedente produtivo para mercados onde a resistência regulatória, tecnológica e financeira é menor.
Com a demanda doméstica contida, a saída natural de uma base industrial de grandes proporções é o mercado global. Em 2025, a China encerrou o ano com superavit comercial recorde, próximo de US$ 1,2 trilhão.
No setor automotivo, a exportação de 7,1 milhões de veículos e o avanço de elétricos e híbridos –cerca de 2,6 milhões– mostram que a disputa vai além de preço. Trata-se de competição por ciclo: quem domina bateria, semicondutor, software e crédito lidera o mercado e encurta o tempo de reação do concorrente.
Em 2026, parcerias com a China passam a representar, também, projetos de alinhamento político. A agenda anticorrupção e os ciclos de inspeção e reorganização institucional em Pequim lembram um ponto sensível: o suporte estatal é ativo —e pode ser instável.
Parceiros brasileiros que não compreendam a exegese de poder —as regras não escritas do ecossistema chinês— correm o risco de se vincular a fornecedores ou arranjos que perdem tração institucional rapidamente. O dano não se limita à esfera financeira: pode assumir contornos reputacionais e, em setores regulados, jurídicos.
Para atravessar o 15º Plano, o Brasil precisa atuar na interseção entre Estado e mercado com 4 pilares táticos:
1) Monitoramento do 15º Plano Quinquenal
missão – acompanhar metas setoriais, instrumentos financeiros (relending), padrões técnicos e cronogramas de execução;
impacto – o planejamento chinês não expressa “intenções”; traduz capacidade em construção.
2) Radar de cadeias produtivas e custos
missão – mapear minerais críticos, semicondutores e incentivos verdes –como mudanças em VAT rebates– que alteram custo e oferta;
impacto – o que ocorre em Guangdong hoje pode definir custos em Camaçari amanhã.
3) Due diligence de continuidade institucional
missão – avaliar o alinhamento institucional de parceiros chineses às prioridades e campanhas de Pequim, além das métricas financeiras tradicionais;
impacto – compliance, na China, também envolve leitura de sobrevivência política.
4) Estratégia de resposta nos setores automotivo e de bens de capital
missão – demandar transferência efetiva de tecnologia, estabelecer cláusulas de transparência e prever gatilhos de continuidade em setores regulados;
impacto – trocar acesso a mercado por tecnologia exige leitura de poder, não apenas de balanço.
O choque de realidade para a indústria brasileira está em aceitar que a China de 2026 já não se limita à figura de “fornecedora eficiente”. Trata-se do competidor que exporta escala, tecnologia e padrões. Quem seguir interpretando Pequim apenas como “mercado” perceberá tarde demais que negociava com um projeto de Estado.
O que observar em 2026:
quais setores entram como prioridade explícita no 15º Plano —e quais passam a ser tratados como “redundância” a ser consolidada;
indícios de disciplina contra guerras de preços e o que sinalizam sobre a exportação de excedentes;
alterações em incentivos —linhas de crédito, rebates e regras verdes — que afetam o custo global;
campanhas e inspeções: quem ganha e quem perde tração institucional no ecossistema chinês;
províncias-chave e seus targets de energia e carbono, com impacto direto sobre a cadeia industrial;
financiamento e seguro para exportações e projetos externos, quando o crédito se converte em vantagem competitiva.
*Olímpio Cruz, 59 anos, é jornalista e analista de risco institucional e geopolítica. Foi consultor do NDB (Novo Banco de Desenvolvimento) em Xangai, diretor da GAC Brasil e secretário de Imprensa da Presidência da República. Com 40 anos de experiência, atuou na Folha, O Globo e JB. Especialista em interface governo-mercado e gestão de stakeholders em ambientes de alta exposição estratégica.