
Quando conto que a Cotia Trading exportava aço brasileiro para a China nos anos 80, alguns devem pensar que sou mentiroso. Mas sou apenas um veterano exportador brasileiro desiludido com o que aconteceu nos últimos cinquenta anos. Enquanto a produção de aço bruto na China cresceu, em média, 7% ao ano entre 1985 e 2025, e alcançou 1 bilhão de toneladas atuais, no Brasil o setor permaneceu praticamente estagnado, oscilando entre 30 e 35 milhões de toneladas por ano.
Mas como um país com reservas de minério de ferro de alta qualidade, ampla oferta de fontes de energia renovável e mão de obra técnica qualificada perdeu espaço no mercado global do aço? A resposta passa por fatores já conhecidos, que vão do alto custo do capital à pesada carga tributária, além da logística deficiente e da insegurança jurídica que mina a confiança de investidores, fornecedores e clientes da indústria brasileira.
O fato é que a China expandiu a sua capacidade industrial, tornando-se um agressivo exportador do excedente. Em 2025, a indústria brasileira deveria produzir cerca de 33,6 milhões de toneladas de aço bruto, enquanto a China vai ultrapassar 1 bilhão, volume trinta vezes maior que a produção nacional. A eficiência da operação chinesa, apoiada por subsídios estatais e pela capacidade de produzir em grande escala, possibilita aplicar preços que nenhum concorrente consegue chegar.
Mas as grandes economias tratam a indústria siderúrgica como um setor estratégico, que não estão dispostas a perder. O resultado foi uma escalada protecionista, com tarifas elevadas, salvaguardas, medidas antidumping e cotas de importação. O Brasil, porém, avançou pouco nesta direção. De 2002 até hoje, a fatia do aço chinês no consumo aparente do mercado interno saltou de 5% para mais de 30%, o que representa mais de 6 milhões de toneladas importadas anualmente. Somando às importações indiretas, via produtos com alta densidade de aço, estima-se mais de 6,3 milhões de toneladas por ano, totalizando 12,5 milhões, número que segue em crescimento exponencial.
Hoje, parte da indústria brasileira já recorre ao aço chinês. Em alguns estados, benefícios fiscais de ICMS para produtos importados tornam o produto mais competitivo no mercado interno, e a tendência de valorização do real frente ao dólar reduz ainda mais a proteção à indústria nacional. A situação é grave: a concorrência chinesa aumenta, os preços do aço desde dezembro de 2023 estão em queda de 18% no mercado mundial, e as principais empresas brasileiras do setor apresentam prejuízos e baixa propensão a novos investimentos em seus balanços. Um clima desanimador em um setor que emprega mais de 120 mil pessoas.
O cenário exige medidas urgentes, seja por meio de maior proteção tarifária ou de salvaguardas temporárias acompanhadas de uma política de incentivos a investimentos. Só assim será possível assegurar a sobrevivência da indústria siderúrgica brasileira.
É necessário ousadia e resiliência. Se não agirmos, amanhã teremos de lidar com o risco de seguirmos como simples fornecedores de minério de ferro, sem agregar valor, gerar renda ou criar empregos, o oposto do que sucessivos governos vêm defendendo desde os anos 2000. A hora é agora.
*Roberto Giannetti da Fonseca
Economista e empresário, presidente da Kaduna Consultoria e o Lide Comércio Exterior