
Apesar de ter sido excluído da lista de produtos tarifados em 50% pelos Estados Unidos, os produtores de ferro gusa (matéria-prima para o aço) sentiram a ameaça. O período entre o anúncio da medida e a divulgação dos cerca de 700 itens que ficaram de fora da taxação desarticulou negócios, comprometendo a expectativa de alta de 3% este ano em produção e vendas – ambas caminham juntas, com mais de 60% para exportação.
Fausto Varela Cançado, presidente do Sindicato das Indústrias de Ferro de Minas Gerais (Sindifer-MG), Estado responsável por 75% da produção de ferro gusa no Brasil, avalia que o cenário ainda está “muito confuso”; negociações e embarques foram suspensos, e alguns compradores buscaram fornecedores alternativos. Bernardo Gontijo, presidente do Grupo AVG, afirma que a incerteza regulatória levou à paralisação completa das suas exportações, que têm como destino majoritariamente os EUA. “A retomada ainda ocorre de forma lenta”, diz.
O Sindifer-MG tinha boas perspectivas para o setor em 2025, revertendo as quedas de 5,2% e 3,2% registradas em 2023 e 2024, respectivamente. Mas o cenário se reverteu. “A demanda interna está baixa em relação a anos anteriores”, observa Cançado. A maior parte da produção brasileira (68,4% das 8 milhões de toneladas de 2024), entretanto, vai para o exterior. E dessas exportações, os EUA ficaram com 84% no ano passado, ou 4,6 milhões de toneladas.
Embora neste ano a participação americana nas exportações tenha aumentado para 89%, eles só adquiriram, na primeira metade deste ano, 1,12 milhão de toneladas, menos de um quarto do total vendido em 2024 para lá. O governo americano ainda impõe uma taxa de 10% sobre o ferro gusa brasileiro, e o setor reclama de custos altos e preços baixos.
Mesmo assim, há sinais de otimismo, com uma série de investimentos sendo anunciados. Um deles é do próprio Grupo AVG, que está desembolsando R$ 200 milhões para aumentar a capacidade de produção de ferro gusa de uma de suas duas usinas em Sete Lagoas (MG) em 143%, para 204 mil toneladas anuais. A outra unidade do grupo produz 240 mil toneladas por ano. Outro exemplo de expansão de capacidade vem da SDS Siderúrgica, que iniciou em agosto as operações de uma unidade industrial em Divinópolis (MG). O projeto recebeu R$ 100 milhões em investimentos para ter uma capacidade de produção de 144 mil toneladas/ano.
A CEO da Aço Verde Brasil – siderúrgica do Grupo Ferroeste -, Silvia Nascimento, diz que os 10% que ainda persistem de taxação sobre o minério são vistos pelo setor como uma despesa a cargo dos importadores. A CBF, do mesmo grupo, exporta 240 mil toneladas de ferro gusa por ano, das quais 140 mil seguem para os EUA.