
A nova edição do Alacero Summit, realizada em Cartagena, expôs com clareza o que executivos, analistas e governos da América Latina já sentiam há meses: o setor siderúrgico atravessa um ponto de inflexão. Entre o avanço agressivo do aço chinês, medidas protecionistas do governo dos Estados Unidos e uma reorganização global das cadeias de suprimento, o continente busca respostas estratégicas para preservar competitividade e reconstruir margens comprimidas.
No Brasil, o movimento recente no mercado de placas de aço chamou atenção. A combinação de expectativas positivas após o encontro da Alacero e a identificação de novas oportunidades comerciais na Europa e nos Estados Unidos abriu espaço para um redesenho momentâneo da dinâmica de exportações. Produtores brasileiros relatam aumento no interesse externo e enxergam, na iminente implementação do mecanismo de ajuste de carbono na fronteira da União Europeia, a chance de ocupar nichos antes disputados por outras origens. Esse cenário tem levado várias usinas a privilegiar placas em detrimento de laminados a quente, ajustando operações para aproveitar uma janela de demanda mais firme.
Mas a relativa bonança nas placas contrasta com a fragilidade de outros segmentos. Em aços planos, especialmente revestidos, a incerteza domina. A perspectiva de novas medidas antidumping contra produtos chineses paralisou negócios na América do Sul e forçou importadores a buscar fornecedores alternativos. No caso de aços revestidos, vários distribuidores deixaram de cotar materiais de origem chinesa, temendo que cargas já contratadas cheguem ao continente sob um novo regime tarifário. Em produtos laminados a frio, a busca por novas fontes também pressiona o mercado, refletindo a tentativa dos compradores de reduzir riscos enquanto governos estudam respostas.
A pressão do produto chinês — tanto no preço quanto na escala — se tornou o eixo central das discussões em Cartagena. O ex-embaixador mexicano Jorge Guajardo defendeu que a região adote tarifas significativamente mais altas, argumentando que as estruturas atuais não corrigem distorções provocadas por excedentes estruturais na China. Segundo ele, setores inteiros já foram desestabilizados por importações muito abaixo de valores de referência, e a siderurgia corre risco semelhante caso não haja reação coordenada. A avaliação é reforçada pela OCDE, que alertou para um cenário de forte excesso de capacidade global nos próximos anos, tendência que tende a intensificar o desvio de materiais chineses para a América Latina.
No Brasil, o impacto desse fluxo já é evidente. Mesmo com queda nos volumes importados, siderúrgicas registram margens pressionadas, demanda fraca e aumento exponencial de práticas irregulares. Distribuidores relatam a entrada de bobinas galvanizadas e Galvalume fora de especificação, com camadas de revestimento inferiores às declaradas e certificados adulterados. Casos de “head and tail” — quando apenas o início e o fim da bobina apresentam o padrão prometido — tornaram-se comuns, criando um ambiente tóxico no qual produtos irregulares competem com materiais nacionais de maior qualidade e preços compatíveis com normas rígidas. A falta de fiscalização em portos e a preferência do mercado por menores preços alimentam esse ciclo, deixando consumidores finais expostos a riscos de segurança e ampliando a deterioração da competitividade industrial.
O efeito tarifário dos Estados Unidos adiciona outra camada de dificuldade. A elevação das barreiras comerciais implementada pelo governo Trump reduziu a atratividade do aço brasileiro no mercado americano e forçou empresas a redirecionar cargas para outras regiões, muitas vezes a preços menos favoráveis. Embora recentes contatos diplomáticos entre os presidentes brasileiro e americano tenham aberto uma porta para o diálogo, lideranças do setor avaliam que qualquer recuo nas tarifas deve ser limitado. A percepção dominante é de que os EUA veem o protecionismo como ferramenta estratégica para reconstruir sua base industrial — movimento que, segundo especialistas, poderia servir de inspiração a países latino-americanos.
No congresso da Alacero, executivos reforçaram que a região está atrasada na criação de instrumentos próprios de defesa comercial. Enquanto os EUA ampliam barreiras e a Europa acelera mecanismos como o ajuste de carbono, a América Latina segue vulnerável à combinação de excesso de oferta chinesa e competição global mais acirrada. A visão consensual é que, sem regras mais claras e políticas coordenadas, o continente corre o risco de se tornar destino preferencial de excedentes internacionais.
Ao mesmo tempo, há sinais de que a recuperação gradual da demanda interna — especialmente na construção civil — pode oferecer algum alívio. Empresas como a Aço Verde do Brasil relatam retomada de volumes e melhoria nos preços domésticos em parte dos segmentos, ainda que os resultados recentes tenham sido prejudicados pela concorrência externa e por ajustes operacionais internos. Mesmo assim, o setor mantém postura cautelosa: o ambiente internacional continua volátil e a capacidade chinesa permanece muito acima da demanda.
A fotografia que emerge é de uma indústria em busca de equilíbrio entre abertura e proteção. De um lado, há oportunidades reais de reposicionamento nas exportações e de avanço tecnológico via exigências ambientais de mercados como a União Europeia. De outro, práticas desleais, tarifaços estrangeiros e uma enxurrada de produtos de baixa qualidade criam turbulência num setor historicamente estratégico para a industrialização da região.
O Alacero Summit deste ano reforçou que a América Latina não pode mais adiar decisões estruturais. Seja por meio de medidas antidumping, selos de qualidade, fiscalização técnica ou negociações internacionais, o continente precisará definir rapidamente como pretende se inserir numa cadeia siderúrgica global que se reorganiza a passos largos. O risco, como alertam dirigentes do setor, é ficar para trás — e perder não apenas competitividade, mas também a integridade de sua própria base industrial.