Crise global de chips volta a ameaçar montadoras e pode paralisar produção no Brasil em poucas semanas

Imagem da notícia

A indústria automotiva mundial enfrenta uma nova e delicada fase da crise de semicondutores. O problema, que havia arrefecido desde o pico de 2021, voltou a pressionar as cadeias produtivas após a suspensão das exportações da Nexperia, empresa chinesa que opera na Holanda e é responsável por cerca de 40% dos chips usados em veículos flex e híbridos. A medida, motivada por tensões políticas entre a China e o governo holandês, reacendeu o alerta entre montadoras e fornecedores em todo o mundo — e ameaça provocar paralisações no Brasil dentro de duas a três semanas.

Fabricantes como Nissan, Mercedes-Benz e Honda já relatam impactos diretos em suas operações. A Nissan informou que dispõe de estoque de semicondutores suficiente apenas até a primeira semana de novembro. A Honda suspendeu temporariamente a produção em uma de suas fábricas no México, enquanto a Mercedes-Benz iniciou busca emergencial por novos fornecedores para evitar interrupções na produção global.

“Estamos literalmente vasculhando o mundo em busca de alternativas”, afirmou Ola Källenius, presidente-executivo da Mercedes-Benz, em declaração recente à imprensa europeia. O executivo reconheceu que a crise ultrapassa a esfera técnica e assume caráter político, exigindo negociações diplomáticas para garantir o fornecimento de componentes críticos.

Especialistas em cadeia produtiva, como Klaus Schmitz, da consultoria Arthur D. Little, avaliam que a dependência global dos semicondutores expõe a vulnerabilidade das montadoras diante de choques geopolíticos. “As empresas estão considerando a adoção de peças alternativas ou a paralisação de parte da produção. A complexidade das cadeias de suprimentos torna o risco de interrupção inevitável quando há disputas comerciais dessa magnitude”, afirma.

Brasil aciona canal diplomático com Pequim para evitar desabastecimento

No Brasil, o cenário também preocupa. O governo admite que as fábricas de veículos e autopeças podem começar a parar em até três semanas, caso o abastecimento de chips não seja restabelecido. Diante do risco, o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Geraldo Alckmin, iniciou nesta semana uma ofensiva diplomática junto à China para tentar garantir a continuidade das exportações de semicondutores ao país.

Na terça-feira (28), Alckmin reuniu-se com representantes das montadoras, fabricantes de autopeças e sindicatos do setor para discutir medidas emergenciais. O encontro contou também com a participação do embaixador da China no Brasil, Zhu Qingqiao, que se comprometeu a levar o pleito brasileiro a Pequim. O ministro acionou ainda o embaixador brasileiro na China, Marcos Bezerra Abbott Galvão, e sinalizou que poderá recorrer à Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação (Cosban) para intermediar as negociações.

De acordo com Uallace Moreira, secretário de Desenvolvimento Industrial, Inovação, Comércio e Serviços, as montadoras instaladas no país possuem insumos para cerca de duas semanas de produção. “Há prioridade total do vice-presidente em ampliar e aprofundar o diálogo para resolver a questão o mais rápido possível, defendendo as empresas e os empregos”, afirmou.

O setor automotivo representa cerca de 20% da indústria de transformação nacional, empregando 130 mil pessoas diretamente e 1,3 milhão de forma indireta. Uma paralisação prolongada teria impacto imediato sobre a economia, a arrecadação e o mercado de trabalho, especialmente nas regiões onde a cadeia automotiva é o principal motor de atividade industrial.

Efeitos em cadeia e busca por soluções estruturais

Embora as montadoras tentem administrar os estoques e priorizar a produção de modelos mais rentáveis, a escassez de semicondutores atinge componentes essenciais para o funcionamento dos veículos modernos — desde centrais eletrônicas e sensores até sistemas de segurança e eficiência energética. A falta desses itens interrompe a montagem completa dos automóveis, o que pode levar à paralisação total das linhas de produção.

Segundo fontes do setor, parte das empresas estuda flexibilizar temporariamente o ritmo de trabalho ou antecipar férias coletivas caso a situação não se normalize até meados de novembro. Paralelamente, fabricantes de autopeças também relatam dificuldades crescentes para cumprir contratos, o que pode gerar gargalos logísticos mesmo em empresas que ainda mantêm algum estoque.

O governo brasileiro, por sua vez, avalia medidas para reduzir a dependência externa de semicondutores no médio prazo, incluindo parcerias tecnológicas e incentivos para reativar linhas de produção locais. A iniciativa, no entanto, enfrenta obstáculos técnicos e financeiros, já que o país carece de infraestrutura para fabricação de chips em larga escala.

Para analistas, a crise evidencia a necessidade de diversificação das fontes de suprimento e o fortalecimento de acordos bilaterais que garantam previsibilidade à indústria. “Não se trata apenas de uma escassez momentânea, mas de uma nova configuração geopolítica. Quem tiver acesso estável a semicondutores terá vantagem competitiva nos próximos anos”, observa Schmitz.

Nova pressão sobre a cadeia global

Com a tensão entre China e Holanda, o impasse em torno da Nexperia reacende o temor de uma nova onda de disrupções semelhante à de 2021, quando fábricas em todo o mundo foram forçadas a suspender turnos e cortar produção. A diferença, agora, é que o setor já opera com margens mais apertadas e enfrenta simultaneamente desafios como tarifas comerciais, custos logísticos elevados e a transição para veículos elétricos.

Enquanto governos e empresas correm contra o tempo, o clima é de cautela e vigilância. Para a indústria automotiva brasileira, o desfecho das conversas diplomáticas com Pequim nas próximas semanas será decisivo para evitar que a crise global dos chips volte a estacionar o parque industrial nacional.

Compartilhe esse artigo

Açogiga Indústrias Mecânicas

A AÇOGIGA é referência no setor metalmecânico, reconhecida por sua estrutura robusta e pela versatilidade de suas operações.
Últimas Notícias