
O setor automotivo nacional está preocupado com os prazos relativos à definição das alíquotas para veículos do apelidado “imposto do pecado”, oficialmente imposto seletivo, o IS.
Igor Calvet, presidente da Anfavea, fez alerta durante o painel “Os próximos 30 anos: Como o setor da mobilidade deve encarar a era das multitransições”, durante o Automotive Business Experience – #ABX25, nesta quarta-feira, 17.
“Temos apenas um ano e três meses pela frente e a verdade é que hoje não sabemos quais alíquotas incidirão sobre veículos com a reforma tributária [a partir de 2027]. E em se tratando de indústria automotiva esse prazo já é muito curto.”
Incertezas sobre imposto do pecado nos veículos
Já se sabe que a alíquota base do imposto será de 28% (CBS e IBS), mas ainda não há definição sobre o acréscimo do IS, o Imposto do Pecado, que incidirá sobre veículos.
“Poderá ser de 3%, 5%, 10%… não sabemos. As negociações estão em andamento com a Receita Federal, e esperamos chegar a um termo o mais rápido possível”, ressaltou Igor.
Mas este parece ser o único ponto de excessiva preocupação quando se observa o cenário geral à frente para as empresas do setor, especialmente no que se imagina sejam os 30 anos a seguir – referência ao aniversário de 30 anos de Automotive Business neste 2025 – ainda que, naturalmente, seja impossível prever o futuro.
Mas os colegas de Igor Calvet no painel, todos ocupantes das principais cadeiras da diretoria em importantes fabricantes de veículos na América do Sul, demostraram-se bastante otimistas, Principalmente ao considerar o quadro atual.
Toyota terá quarto híbrido flex em 2026
Rafael Chang, CEO da Toyota América Latina e Caribe, por exemplo, revelou que as fábricas no Brasil e na Argentina trabalham a plena capacidade em três turnos, e que a montadora lançará um quarto modelo com tecnologia híbrida flex no Brasil no ano que vem – que se somará a Corolla, Corolla Cross e Yaris Cross, SUV que chega em outubro.
“Esse ano venderemos 500 mil unidades na América Latina, volume recorde. Abriremos uma segunda linha em Sorocaba no ano que vem e queremos dobrar nossa capacidade produtiva na região até 2030. Precisaremos localizar mais itens de eletrificação”, destacou.
Outro executivo que se mostrou bastante animado com os resultados recentes foi Ciro Possobom, presidente e CEO da Volkswagen do Brasil.
“Estamos crescendo quase três vezes mais que o mercado, nossas fábricas estão ocupadas, grandes investimentos sendo realizados… é um bom momento e o nosso lançamento mais recente, o Tera, representa só o começo de uma nova geração, com híbridos e picapes. Seremos agressivos.”
Martin Galdeano, presidente da Ford América do Sul, aparentemente também não tem do que reclamar do mercado automotivo local.
“Estamos crescendo neste ano 25% na América do Sul, com recorde de vendas da Ranger. É um bom ano para nós no Brasil e na região”.
Certamente empolgado mostrou-se Diego Fernandes, COO da GWM Brasil. O executivo citou a fábrica inaugurada em agosto e o valor agregado dos carros da marca chinesa.
“Em termos de vendas registramos 29 mil unidades em 2024 e estimávamos 35 mil para 2025, mas já reajustamos esse volume para 40 mil, e isso com tíquete médio acima de R$ 260 mil. Ano que vem queremos fabricar aqui 50 mil unidades e vender bem mais do que isso.”
Fernandes representava no painel as novas montadoras chinesas no Brasil, boa parte delas com ao menos planos de produção local. Todos os participantes do #ABX25, a propósito, declararam-se favoráveis a esta nova concorrência, desde que com condições iguais para todos.
Nesse ponto específico Mauro Correa, CEO da HPE Automotores, montadora nacional que representa as marcas Mitsubishi e Suzuki, revelou estratégia bastante objetiva para enfrentar esses novos competidores.
“As montadoras chinesas são competentes e competitivas, têm bons produtos, mas preferimos trabalhar com um DNA específico: somos conhecidos por veículos 4×4, por robustez, adequação ao agronegócio. Não procuramos grandes volumes, mas sim fidelização, que para nós hoje já é em torno de 60%.”
E os próximos 30 anos para o setor automotivo
Provocados a imaginar os próximos 30 anos no setor automotivo nacional, os participantes do painel preferiram elencar desafios pelas próximas três décadas a que o país não pode se furtar para seguir competitivo no mercado automotivo global.
Para Rafael Chang, presidente da Toyota, o Brasil automotivo precisará exportar mais e, para isso, deverá localizar mais itens de eletrificação – e quem sabe, em busca dessa estratégia, as próprias montadoras locais possam, de alguma forma, associar-se entre si.
Possobom, da VW, defendeu isonomia e “competição sadia na produção e na rede” como principal fator a melhorar. Já Galdeano, da Ford, ponteou que “cada um precisa fazer sua parte, não só a empresa trazendo tecnologia, mas também os governos precisam entender que precisamos de mais competividade e regras estáveis”.
Fernandes, da GWM, por sua vez, entende que atacar “questões e políticas estruturais, bem como crescer a nacionalização” será muito importante para criar condições mais razoáveis de compra ao mercado, ou seja, reduzir os preços ao consumidor.
E Correa, da HPE, aproveitou para lembrar de necessário investimento em educação e formação de novos profissionais, além de “estabilidade jurídica e política”.
Igor Calvet, da Anfavea, aproveitou a oportunidade para encerrar com novo e importante alerta: “Temos que primeiro parar e depois reverter o processo de enfraquecimento da base produtiva. É algo fundamental para atravessarmos um período de transição tecnológica e energética.”