
A Eletra, pioneira na eletrificação de ônibus no Brasil, entra em uma nova etapa de sua trajetória de 25 anos e se consolida como montadora nacional de veículos elétricos. A empresa, sediada em São Bernardo do Campo (SP), investe R$ 40 milhões na ampliação da fábrica e na criação de uma linha de montagem de chassis próprios — movimento que marca uma mudança profunda em seu modelo de negócios e reforça sua liderança no mercado brasileiro de transporte sustentável.
Até então, a Eletra atuava sobretudo na eletrificação de ônibus produzidos por outras montadoras, como Mercedes-Benz e Scania. Agora, a companhia passa a controlar todo o processo produtivo, da compra dos componentes ao faturamento do veículo completo, assumindo o papel de montadora. Essa transformação, segundo a diretora comercial Iêda Oliveira, permite maior autonomia na definição de preços e estratégias comerciais. “Passamos a ter o controle da venda e o domínio da política de preço. Nosso objetivo é oferecer o chassi elétrico mais competitivo do mercado e expandir para a América Latina”, afirmou durante o evento Arena ANTP 2025.
O investimento ampliará a capacidade produtiva da Eletra de 1.800 para 3.000 unidades por ano e inaugurará uma linha exclusiva para chassis elétricos. A primeira fase da operação envolve o recebimento das plataformas com módulos eletrônicos e mecânicos prontos, mas a partir de 2026 a empresa pretende internalizar também a montagem dos sistemas eletrônicos. A expansão inclui ainda uma nova linha de produtos, com 12 modelos de ônibus — de 10 a 23 metros de comprimento, em versões urbanas e metropolitanas, com piso alto ou baixo. Com isso, a Eletra passa a deter o maior portfólio de ônibus elétricos da América Latina.
A nacionalização dos componentes é outro pilar da nova fase. Segundo a executiva, cerca de 95% da engenharia dos veículos é nacional, o que garante acesso a linhas de financiamento verde e favorece a competitividade. A tradicional parceira WEG continua responsável pelos sistemas de eletrificação — motores, inversores e baterias — agora com uma nova geração de componentes mais leves e eficientes, que reduziram em até 350 quilos o peso dos veículos, sem comprometer a densidade energética.
A presidente da Eletra, Milena Romano, destaca que o foco estratégico também inclui o mercado latino-americano, hoje dominado por marcas de origem asiática. “Temos recebido relatos de insatisfação com a durabilidade e o suporte técnico de alguns fornecedores estrangeiros. A Eletra quer se diferenciar pela qualidade e pela confiabilidade, ainda que a um custo um pouco maior”, afirmou. A companhia planeja, assim, disputar espaço em países vizinhos com uma proposta de valor baseada em tecnologia nacional e suporte técnico de longo prazo.
Eletra Consult: suporte integral à transição elétrica
Paralelamente à nova linha de montagem, a empresa lançou o Eletra Consult, serviço de consultoria criado para apoiar operadoras de transporte e gestores públicos na transição para frotas elétricas. A proposta é oferecer suporte técnico e estratégico em todas as etapas — da escolha do modelo ideal de veículo à captação de financiamento, passando pelo planejamento da infraestrutura elétrica, instalação dos carregadores e gestão da operação diária.
“O transporte público não para. Se o ônibus não está na rua, está na garagem em manutenção ou recarregando. Por isso, o suporte precisa ser 24 horas”, explica Iêda Oliveira. A executiva destaca que o Eletra Consult vai além da assistência técnica tradicional: a consultoria busca orientar empresas na estruturação completa de projetos de mobilidade elétrica, garantindo eficiência operacional e financeira.
O serviço nasce como resposta direta às demandas das operadoras que começam a eletrificar suas frotas e enfrentam desafios como o alto custo inicial, a adequação da rede elétrica e a manutenção especializada. A Eletra pretende usar sua experiência acumulada — responsável por 65% dos ônibus elétricos atualmente em circulação no país — para facilitar essa transição. Das 1.289 unidades elétricas operando no Brasil, 844 foram fornecidas pela companhia de São Bernardo do Campo.
Expansão com foco em inovação e competitividade
A nova estrutura fabril da Eletra permitirá maior controle sobre a cadeia produtiva e melhor integração com os parceiros industriais. No curto prazo, os chassis continuarão recebendo componentes da Mercedes-Benz e da Scania, mas a meta é que, em uma etapa posterior, apenas os módulos mecânicos sejam fornecidos, com os sistemas elétricos e eletrônicos sendo totalmente integrados pela própria Eletra. Isso inclui itens como freios ABS, controle de estabilidade e sistemas inteligentes de diagnóstico.
Com a ampliação, a empresa reforça sua posição como protagonista da mobilidade elétrica nacional e prepara o terreno para competir em um mercado global em franca expansão. A combinação de engenharia brasileira, autonomia produtiva e serviços de consultoria coloca a Eletra em um patamar inédito entre as fabricantes locais.
“Estamos completando um ciclo e iniciando outro, mais tecnológico e mais estratégico. O futuro da mobilidade urbana é elétrico — e queremos que ele também seja brasileiro”, resume Milena Romano.