
O Brasil tem potencial para ampliar sua relevância na mineração mundial e repetir o sucesso do minério de ferro em minerais estratégicos como terras raras, cobre e urânio, segundo Francisco Valdir Silveira, diretor de Geologia e Recursos Minerais do Serviço Geológico do Brasil (SGB).
Em entrevista à BNamericas, ele defende mais investimentos em mapeamento e tecnologia geológica para fortalecer a competitividade nacional.
BNamericas: O Brasil é um grande produtor global de minério de ferro, assim como de ouro e nióbio. Há potencial no país para replicar essa relevância em outros minerais estratégicos?
Silveira: Você citou muito bem os exemplos do minério de ferro, do ouro e do nióbio, mas existem outros bens minerais nos quais o Brasil é um grande player, como o cobre e a grafita.
O país também está entre os maiores produtores de sílica e quartzo – matérias-primas do silício, extremamente relevantes para a indústria de alta tecnologia, para a produção de chips.
Há ainda bens minerais que, com mais conhecimento geológico e desenvolvimento, podem colocar o Brasil em posição de destaque global, como as terras raras. O país tem grandes depósitos conhecidos desde os anos 1970, geralmente como subprodutos de outros depósitos.
Além disso, o Brasil tem condições de desenvolver grandes reservas de urânio, essencial para a transição energética, e de outros minerais considerados estratégicos, como tungstênio e tântalo.
Nossa riqueza mineral decorre do fato de o território brasileiro reunir todos os ambientes geológicos propícios à formação de depósitos minerais.
BNamericas: Qual é o atual status do conhecimento geológico no Brasil?
Silveira: O país tem um desafio muito grande devido ao seu tamanho. São 8,5 milhões de quilômetros quadrados de área terrestre e mais 5,7 milhões de área marinha – um total de 14,2 milhões de quilômetros quadrados, com geologia diferenciada.
Hoje, apenas 30% do território é conhecido em termos geológicos. O Serviço Geológico trabalha numa escala mínima adequada, ainda distante da ideal.
O SGB precisa ser tratado como o serviço geológico de um país grande, de fato. Atualmente temos 1.411 colaboradores. Desse montante, apenas 570 são da área finalística – ou seja, geólogos e hidrólogos. E, desses 570, apenas 277 trabalham com geologia e recursos minerais.
Para fazer mapeamento básico, temos apenas 177 pessoas. Apesar de nosso time ser muito qualificado, quase todo formado por mestres e doutores, é um time muito pequeno para um país do tamanho do nosso.
Só para dar uma ideia, cada geólogo que temos hoje no SGB é responsável por trabalhar no mapeamento de uma área equivalente à Bélgica. Como comparação, o Serviço Geológico dos Estados Unidos tem mais de 10 mil geólogos, o da China mais de 20 mil e o da Austrália mais de 5 mil.
BNamericas: Como acelerar o conhecimento geológico?
Silveira: O primeiro passo é reconhecer que o Brasil precisa de um Serviço Geológico proporcional ao tamanho do país. Isso requer mais força de trabalho e recursos financeiros para pesquisa básica e infraestrutura.
Outro desafio é incorporar mais tecnologia ao mapeamento geológico, uma atividade historicamente empírica. Existem ferramentas que aceleram o processo, mas são caras e geralmente importadas de países como Austrália, EUA e Canadá.
Atualmente, estamos com um programa de aerogeofísica para ampliar o conhecimento geológico. Fizemos uma licitação para mapear 1 milhão de quilômetros quadrados, cobrindo bacias sedimentares ainda não estudadas.
BNamericas: Esse esforço para melhorar o conhecimento geológico deve ser apenas estatal ou pode envolver o setor privado?
Silveira: No mundo todo, o levantamento básico é feito pelo Estado, que cria o alicerce do conhecimento. Países como Austrália e Canadá fazem esse mapeamento e disponibilizam os dados ao setor privado até certo ponto. Depois disso, as empresas complementam.
A diferença é que, nesses países, as empresas devolvem ao Estado o conhecimento adquirido após concluir suas pesquisas. No Brasil, isso não ocorre, o que impede o aproveitamento dessas informações pelo SGB.
Esperamos mudanças na legislação para que, quando as empresas deixarem de ter interesse em uma área, por qualquer razão, devolvam o conhecimento obtido, fortalecendo a base de dados nacional e otimizando investimentos futuros. Isso criaria um círculo virtuoso de troca de informações.
BNamericas: Um tema de grande interesse global são as terras raras. Como destravar o potencial do Brasil e transformá-lo em grande produtor?
Silveira: As terras raras são um bem mineral sobre o qual o Brasil pode ter domínio total, como já ocorre com o nióbio.
Há muito tempo sabemos do nosso potencial. Temos depósitos em complexos carbonatíticos, em granitos com argilas iônicas, em depósitos de urânio – como em Poços de Caldas – e em areias marinhas ao longo da costa.
Até 1996, o país tinha um dos programas mais desenvolvidos do mundo em terras raras, conduzido pelas Indústrias Nucleares do Brasil (INB), com patentes registradas. Esse programa foi descontinuado nos anos 1990, enquanto a China investiu fortemente em pesquisa e capacitação.
Para retomarmos o protagonismo, precisamos investir no desenvolvimento da cadeia. O Brasil poderia firmar parcerias internacionais, fornecendo matéria-prima em troca de transferência tecnológica. Mas isso depende de decisão política: definir se queremos ou não verticalizar toda a cadeia produtiva.
O ideal seria desenvolver uma indústria forte, com cadeia bem estruturada, exportando apenas excedentes.
BNamericas: O avanço da cadeia de terras raras deve vir principalmente do governo ou do setor privado?
Silveira: O governo sempre terá um papel central, pois tem acesso direto a institutos de pesquisa e universidades. Mas o modelo híbrido, com envolvimento do setor privado, tende a gerar melhores resultados, pois divide responsabilidades e tarefas.
BNamericas: Qual setor poderia servir de modelo para o desenvolvimento das terras raras?
Silveira: O caso do nióbio é exemplar. A mina da CBMM, em Araxá, tem uma verticalização interessante: produz o minério, realiza a metalurgia e atende diretamente o mercado internacional.
Não podemos continuar apenas vendendo matéria-prima. É hora de agregar valor em metalurgia e processamento, inclusive nas terras raras.
O mercado de terras raras ainda é pequeno, por isso é fundamental buscar parceiros confiáveis e diversificar alianças, não depender apenas de um ou dois países.
BNamericas: A euforia em torno das terras raras pode repetir o que ocorreu com o lítio, que enfrenta queda de preços após o boom inicial?
Silveira: Sim, é possível. Esse movimento é comum: um setor ganha destaque, atrai muitos investidores e rapidamente sofre com excesso de oferta. O lítio é um bom exemplo disso.
BNamericas: Além das terras raras, quais outros minerais podem ganhar tração no Brasil?
Silveira: Além das terras raras e do lítio, destacam-se o cobre e o alumínio, que hoje têm papel essencial na transição energética e na indústria.
BNamericas: O Brasil pode ganhar escala no cobre, já que hoje responde por apenas 1% da produção global?
Silveira: Sim. Há muitos esforços de pesquisa em andamento para identificar depósitos em profundidade. Temos ocorrências de cobre do Sul ao Nordeste, incluindo Pará, Mato Grosso e Goiás.
Mas ainda conhecemos apenas 30% do território e com muito pouco conhecimento especialmente na região da Amazônia. Ou seja, o potencial é enorme.
Na região de Carajás, onde está uma das maiores províncias polimetálicas do mundo, há muitas áreas requeridas por grandes empresas que acabam bloqueando a exploração de depósitos menores.
Vale ressaltar que a América Latina produz 85% do cobre e do lítio mundiais, além de 95% do nióbio e do quartzo. A região é uma potência e pode se beneficiar agindo de forma conjunta. O Brasil deveria buscar alianças com Chile, Argentina, Peru e Colômbia para ampliar o protagonismo global.