Flexibilidade global permite à Gerdau driblar instabilidades do mercado de aço no Brasil

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Em cenários de incerteza, a flexibilidade é melhor que a rigidez — e isso vale mesmo no mundo dos produtores de aço, como a Gerdau. A pulverização geográfica de suas atividades produtivas por sete países tem assegurado bons resultados ao grupo. “Quando o mercado de um país não vai tão bem, o desempenho de outro compensa”, diz o CEO da Gerdau, Gustavo Werneck.

No momento, o mercado de aço no Brasil preocupa, mas nos Estados Unidos os negócios vão bem. No segundo trimestre de 2025, a receita líquida da Gerdau foi de R$ 17,5 bilhões. O Brasil contribuiu com R$ 7,3 bilhões, queda de 2,4% em relação ao primeiro trimestre do ano. Na operação da América do Norte, que inclui Estados Unidos, México e Canadá, a receita líquida bateu em R$ 9,1 bilhões, 4,2% a mais que no primeiro trimestre do ano. O resultado foi impulsionado por aumento nas vendas e também por preços mais altos.

No período, o Ebitda ajustado (lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações) do grupo alcançou R$ 2,6 bilhões, com margem Ebitda de 15,8%. O resultado também foi influenciado pelos resultados na América do Norte, onde o Ebitda ajustado foi de R$ 1,63 bilhão (61% do Ebitda da companhia). “Nosso desempenho consolidado é muito bom, mas o Brasil preocupa”, diz Werneck.

O desempenho das indústrias siderúrgicas brasileiras tem sido duramente afetado por aumento significativo do aço importado. De acordo com o Instituto Aço Brasil, no primeiro semestre de 2025, as importações somaram 3,5 milhões de toneladas, uma expansão de 28,8% em relação ao primeiro semestre do ano passado. Entre 2022 e 2024, as importações já haviam crescido 78%. Em junho, o aço estrangeiro abasteceu 24,1% do mercado interno, mais do que o dobro da margem histórica, de 11%. A China é a origem de mais de 60% do aço que chega ao país. “Hoje quem mais vende aço no Brasil não é nenhuma empresa brasileira, são os chineses”, lamenta Werneck. “Vivenciamos uma invasão de aço chinês subsidiado”, diz Marco Polo de Mello Lopes, presidente do Instituto Aço Brasil.

A invasão chinesa é global e levou vários países a adotar estratégias de defesa comercial para a produção local. Em junho de 2024, o governo brasileiro estabeleceu uma política de cota-tarifa pela qual dez diferentes tipos de aço passaram a pagar uma tarifa extra de 25% quando o volume importado ultrapassa a média das compras feitas entre 2020 e 2022. Em junho deste ano, mais quatro tipos de aço foram incorporados à proteção. Mas, na avaliação do setor siderúrgico, o sistema de cota-tarifa fracassou.

“Os chineses estão dispostos a pagar a tarifa, seja qual for o patamar estabelecido. Eles utilizam dinheiro público chinês para viabilizar suas exportações e manter as suas atividades”, afirma o executivo. “Nossa estimativa é que as importações da China vão continuar a crescer e chegar a 40% de participação no mercado brasileiro, dizimando a produção nacional.” Para ele, a solução do problema é o governo brasileiro determinar um patamar máximo de volume de importações anuais, a partir do qual ficariam proibidas as compras internacionais. A medida traria previsibilidade para os produtores locais, argumenta.

A falta de uma política governamental mais firme, avalia Werneck, obriga as empresas a realizar ajustes. “É uma decisão dolorosa, envolve demitir pessoas, mas a situação exige redução de capacidade produtiva.” A Gerdau paralisou em 2024 as atividades de três usinas: Barão de Cocais, em Minas Gerais; Cearense, em Fortaleza (CE); e a Usiba, em Simões Filho (BA). Em agosto, a companhia decidiu reduzir a capacidade produtiva das unidades de Pindamonhangaba e Mogi das Cruzes, ambas no interior paulista, com dispensa de 1.500 trabalhadores. “Procuramos sempre realocar o pessoal em outras unidades da companhia, em fornecedores e parceiros de negócios”, diz Werneck. Na unidade de Barão de Cocais foram desligadas 400 pessoas em 2024 e a empresa conseguiu realocar 80% delas, diz.

Outra preocupação na Gerdau é dar transparência às decisões. “Fazemos reuniões frequentes com colaboradores; eles precisam entender o que está acontecendo e a razão de nossas decisões”, afirma o executivo, que em agosto participou de um encontro com dois mil líderes globais do grupo.

A Gerdau também decidiu rever seus planos de investimentos, que rondam a casa de R$ 5 bilhões a R$ 6 bilhões anuais. Em 2025, o total programado é de R$ 6 bilhões (R$ 4 bilhões no Brasil), volume que não será alterado. Werneck afirma, porém, que a participação brasileira nos próximos orçamentos de investimentos será reduzida e a dos Estados Unidos, ampliada. Os detalhes do novo planejamento devem ser divulgados em outubro.

De acordo com o executivo, a revisão dos investimentos no Brasil será restrita a novos projetos industriais e não afetará a pauta de sustentabilidade. Em 2024 a companhia investiu R$ 1 bilhão em ganhos de eficiência que melhoram o desempenho ambiental das operações. A Gerdau reduziu suas emissões de poluentes para 0,85 tonelada de dióxido de carbono equivalente (CO2e) por tonelada de aço produzida, índice menor do que a média global do setor, de 1,92 tonelada de CO2e por tonelada de aço produzida, segundo dados da World Steel Association (Worldsteel).

Também não será afetado o investimento de R$ 3,2 bilhões até 2026 em um projeto de mineração sustentável em Miguel Burnier, em Ouro Preto (MG), com capacidade de produção anual de 5,5 milhões de toneladas de minério de ferro. A operação fará o empilhamento a seco dos rejeitos, eliminando o uso de barragens, e o minério será transportado por mineroduto, reduzindo o impacto logístico.

A companhia foi pouco afetada pela decisão do governo Trump de impor taxas de 50% para as importações de aço porque pouco exporta para os Estados Unidos. A atuação no país se dá por meio de produção local, com capacidade anual de 5,4 milhões de toneladas de aço bruto e 4,5 milhões de toneladas de produtos acabados. A estrutura é composta por 11 unidades que incluem instalações de reciclagem de sucata e produção de aços longos e aços especiais.

Segundo Werneck, a unidade que deve ser privilegiada no novo planejamento de investimentos em elaboração é a fábrica de aços longos em Midlothian, no Texas. A Gerdau também tem planos de construir uma nova usina de aços especiais no México, com foco no mercado automotivo, mas o projeto entrou em compasso de espera. “Estados Unidos, Canadá e México estão discutindo um novo acordo comercial que envolve a indústria automobilística. Vamos aguardar o desfecho das negociações para decidir quando e onde investir”, diz Werneck.

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