
A indústria siderúrgica brasileira praticamente paralisou a compra de carvão para alto-fornos produzido nos Estados Unidos após o presidente americano, Donald Trump, elevar tarifas para a importação de aço. Conforme dados levantados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) a pedido do Valor, a quantidade de coque de hulha exportada dos EUA para o Brasil caiu 99,9% na comparação entre os períodos de janeiro a agosto de 2024 e 2025.
Em fevereiro, Trump elevou a taxa para importação de aço produzido globalmente para 25%, prejudicando assim as exportações brasileiras, que até então eram isentas por conta do antigo sistema de cotas para vendas aos EUA. Quatro meses depois, em junho, ele ampliou essa mesma tarifa para 50%, intensificando as barreiras ao aço. Como reflexo disso, em julho, o Brasil exportou 53% menos aço para os EUA na comparação com o mesmo mês do ano anterior. Já na comparação entre agosto de 2024 e 2025, a redução foi de 12%.
“Logo após o anúncio das primeiras tarifas, as siderúrgicas brasileiras se mobilizaram para antecipar suas exportações aos EUA. Por isso, no acumulado do ano, as exportações ainda estão em alta. Mais recentemente, contudo, estão começando a surgir os efeitos das tarifas”, afirma Verônica Winter, coordenadora de facilitação de negócios internacionais da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), um dos principais polos siderúrgicos do Brasil, responsável pela produção de cerca de 43% do metal que o país comercializa no exterior.
Segundo Winter, a queda da importação de carvão siderúrgico também está relacionada às tarifas. Para ela, com um leque diversificado de fornecedores do produto disponível ao Brasil, não faz sentido para as empresas nacionais comprarem carvão de um país que dificulta a entrada de seu aço.
O vice-presidente Geraldo Alckmin, que também é titular do Mdic, já havia alertado que as tarifas impostas por Trump poderiam prejudicar as empresas americanas. Em julho, ele lembrou que o Brasil era o terceiro maior comprador de carvão siderúrgico dos EUA até o tarifas. Segundo ele, o país utilizava esse insumo justamente para produzir chapas semiacabadas do metal para exportá-las ao mercado americano. Com as tarifas dificultando essa exportação, era natural para o vice-presidente que a importação de carvão pelas siderúrgicas brasileiras também caísse, como efetivamente caíram.
“Cadeia produtiva do aço entre o Brasil e os EUA está em risco”
— Fernando Ribeiro
Em todo 2023, o Brasil chegou a importar 385 mil toneladas de coque de hulha dos EUA, pagando US$ 184 milhões por isso (cerca de R$ 1 bilhão na cotação atual). Em 2024, ainda antes da posse de Trump, a importação já foi menor: 144 mil toneladas, custando US$ 53 milhões (cerca de R$ 290 milhões). Neste ano, porém, até agosto, foram apenas 18,1 toneladas, ou US$ 22.186 (R$ 115 mil).
De 2021 a 2023, em média, 10% de todo coque de hulha que o Brasil importava para suas siderúrgicas provinham dos EUA, que chegou a ser o terceiro maior fornecedor brasileiro. Em todo ano passado, a participação das exportações americanas caiu para 4,4% e, neste ano, é de praticamente zero. Hoje, o país ocupa a 12ª posição entre os fornecedores nacionais de coque.
A Colômbia é a maior exportadora do produto. De janeiro a agosto, enviou 38% mais carvão siderúrgico ao mercado brasileiro do que no mesmo período do ano passado. A Indonésia, segunda maior fornecedora ano, triplicou neste ano sua exportação ao Brasil.
Para Fernando Ribeiro, coordenador de relações econômicas internacionais do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), esses dados demonstram que a imposição de tarifas americanas contra a importação de aço também produz efeitos negativos sobre a própria economia dos EUA. “Existe uma cadeia produtiva do aço entre o Brasil e os EUA, que agora está em risco”, afirma. “Trump anuncia tarifas para estimular a economia dos EUA, mas não é tão simples assim.”
Segundo ele, essa cadeia envolve também a exportação brasileira de chapas de aço que servem de insumo para produção de chapas mais refinadas fabricadas pelas siderúrgicas dos EUA. Considerando essa relação, as tarifas do aço, além de prejudicar as exportações de carvão americano ao Brasil, também geram problemas à produção industrial do próprio EUA. “Cerca de 90% do aço exportado pelo Brasil é semiacabado, mais básico, que não é produzido pelos EUA”, disse. “Tarifar essa importação apenas eleva o custo de produção do próprio país.”
Hélio Goldenstein, ex-professor do departamento de engenharia metalúrgica e de materiais da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), lembra que há multinacionais que operam no Brasil justamente para exportar aço brasileiro para unidades que elas próprias mantêm nos EUA para processar esse metal e atender o mercado americano. Ele incluiu entre elas a ArcelorMittal e a Gerdau.
A ArcelorMittal informou que, apesar das mudanças na dinâmica do comércio internacional decorrentes das tarifas, seu volume de exportação para os EUA se manteve. A Gerdau não se pronunciou sobre eventuais consequências das tarifas sobre sua operação.
Já Rodrigo Rangel Porcaro, professor na Escola de Minas da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), acrescenta que há também tipos específicos de aço, desenvolvidos por siderúrgicas nacionais e que interessam a setores estratégicos dos EUA, como chapas mais resistentes à corrosão especialmente projetadas para atender demandas de empresas de petróleo e gás. Segundo ele, companhias dos EUA adquirem esses produtos do Brasil. As tarifas prejudicam esses negócios.
William Haupt, professor da Universidade de Passo Fundo (UPF), aponta que boa parte do aço usado em estruturas metálicas de construções dos EUA provém do Brasil. Para ele, as tarifas de importação criam até mesmo um risco de desabastecimento desse produto.