O segmento de aço nos Estados Unidos se encontra dividido. Produtores comemoram as tarifas, atualmente fixadas em 50%, que trouxeram mais demanda e uma melhora nos preços do produto doméstico, mas os sinais positivos não são suficientes para compensar a tendência negativa geral do resto dos indicadores da economia americana. Na média, a indústria americana elevou seus preços em 16% desde o início do ano, e a participação do aço importado no mercado interno dos EUA caiu de 25%, em janeiro, para 20% em maio.
O aço da Steel Dynamics, de Indiana, encareceu 13,63% no segundo trimestre, para US$ 1.134 por tonelada. Outra grande produtora, a Cleveland-Cliffs – alta de 3,6% nos preços de janeiro a março -, chefiada pelo brasileiro Lourenço Gonçalves, declarou o recorde de 4,3 milhões de toneladas de remessas de aço no segundo semestre, valor não alcançado desde pelo menos 2021. Em teleconferência com analistas para discutir os resultados do primeiro trimestre, Gonçalves deixou claro que os resultados se devem à política tarifária do governo Trump, e está otimista com a perspectiva que o setor automotivo volte a produzir localmente.
Porém, com a alta no valor do aço, a subsidiária americana da Daimler, uma das líderes de venda de caminhões no país e fabricante dos tradicionais ônibus escolares amarelos da marca Thomas Built, se viu obrigada a aumentar o preço dos seus produtos ainda quando as tarifas do aço e alumínio estavam a 25%. Naquela época, o Thomas Built, que em média custa US$ 100 mil, recebeu um aumento de US$ 3.500 apenas por conta dos 25% da tarifa de aço.
A companhias ofre com a queda na demanda e em meados de julho anunciou a demissão de 2.000 funcionários em quatro plantas nos Estados Unidos e no México. Assim como outras empresas, o CEO da Daimler, John O’Leary, disse ao jornal “The New York Times” que não via como repassar as atuais tarifas de 50% aos consumidores nas atuais circunstâncias de mercado.
Muitas indústrias evitaram o baque maior fazendo estoques de produtos antes que as tarifas entrassem em vigor. Mas há sinais de que os efeitos da estratégia já passaram. A inflação dos EUA deu um salto de 0,3% em julho, em relação a junho, e de 3% no comparativo com o ano passado. Outro problema é que a esmagadora maioria (97%) dos cerca de 250 mil importadores americanos são pequenas e médias empresas, segundo o Departamento de Comércio do país. “São operações com margens pequenas e pouca flexibilidade financeira,” escreveu o vice-presidente executivo da Câmara de Comércio dos Estados Unidos, Neil Bradley.
É a situação da Blitz Proto, empresa de Michigan que cria protótipos e faz em pequena escala máquinas como equipamentos médicos, peças automotivas e projetos de iluminação, para as quais compra de 900 kg a 1.800 kg de aço e alumínio por ano. A empresa está pagando 13% a mais pelo mesmo tipo de aço que comprava no ano passado, e 1% a mais pelo aço inoxidável. “Temos um projeto cujos custos de material aumentaram 11% só por causa das tarifas,” disse ao Valor a CEO, Carrin Harris.
Um único dispositivo médico que a Blitz produz em pequena escala usa 45 kg de uma liga de aço e alumínio por unidade. Por sorte, a matéria-prima foi comprada em fevereiro. “Só de curiosidade, perguntei para o fornecedor quanto custaria a mesma encomenda atualmente, e o valor ficaria 25% mais alto,” contou a empresária. Segundo Harris, considerando inflação e outros gastos – como componentes eletrônicos importados que não são feitos nos EUA atualmente, e que subiram de 20% a 40% com as tafias -, o custo de produção da empresa já está 30% mais alto do que o do ano passado, zerando a margem de lucro.
Atualmente, o pior das tarifas é a incerteza, diz Carrin. “Seria ótimo se as tarifas se estabilizassem, seja 25%, 50%, e lá ficassem, porque assim nossos clientes poderiam se planejar. Eles pedem orçamentos com seis meses ou até um ano de antecedência e fazem as contas dependendo disso”, disse. Segundo ela, se o mercado se estabilizar, seus clientes poderão revisitar projetos e ter mais confiança em investir. “Ninguém quer gastar, todo mundo está com medo.”