
O empresário Jorge Gerdau Johannpeter, acionista controlador da Gerdau e presidente do Movimento Brasil Competitivo (MBC), afirmou, nesta quinta-feira (9), que o Brasil precisa adotar uma postura mais assertiva na defesa de sua indústria siderúrgica, diante da escalada global de medidas de defesa comercial e da superoferta de aço subsidiado pela China.
Durante o 26º Congresso do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), Gerdau classificou como “extremamente relevante” a decisão da Comissão Europeia, braço executivo da União Europeia (UE), de propor o aumento da tarifa fora da cota sobre aço e alumínio para 50%, o dobro da atual. A medida, segundo ele, é um “exemplo de mobilização” da economia europeia em defesa de sua competitividade industrial.
“Esse exemplo da Europa, dos 27 países que a compõem — e a Inglaterra e a Grécia normalmente acompanham esses processos —, é extremamente importante porque mostra a mobilização da economia europeia em relação à agressividade e, inclusive, decisões políticas que acontecem no mundo siderúrgico. Essa medida afeta o setor, mas é, de forma mais ampla, uma proteção da competitividade industrial da Europa”, disse ao Valor.
Atualmente, as importações ocupam um terço do mercado brasileiro de aço. De janeiro a agosto, as importações de aço laminado do Brasil cresceram 30% em relação a igual período de 2024, e a previsão é de alta de 32,2% no ano, o triplo da média histórica, segundo dados do Instituto Aço Brasil. A alta ocorre mesmo após o Brasil ter reforçado as defesas comerciais em relação a 14 NCMs (Nomenclaturas Comuns do Mercosul), de 273 disponíveis, com a renovação do mecanismo Cota-Tarifa.
Cenário levou a revisões de investimento
As empresas brasileiras têm feito pleitos para que o governo implemente também medidas de defesa comercial – algumas saíram, e o setor considera que não foram tão relevantes porque o aço chinês subsidiado continua entrando de maneira relevante. Algumas companhias, como a própria Gerdau e a Usiminas, já revisaram os planos de investimentos e diminuíram.
Para o empresário, a União Europeia está “sabendo se defender da agressão chinesa sobre os mercados”. Ele avalia que o Brasil ainda não alcançou o mesmo nível de resposta observado em economias desenvolvidas.
“O Brasil tem uma estrutura tecnológica competente no Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), mas a guerra hoje é total. O país ainda não atingiu os patamares de proteção que o mundo desenvolvido, o econômico ocidental, tomou”, afirmou.
Para Gerdau, o Brasil vive um momento que exige decisões fora do padrão histórico do país na área comercial e defendeu que o governo siga o exemplo de Europa e Estados Unidos, adotando medidas mais firmes de proteção ao mercado e à indústria nacional.
Aproximação entre Lula e Trump
Gerdau também comentou a recente aproximação entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente americano, Donald Trump, vista como um gesto diplomático importante para tentar reverter a tarifa de 50% sobre o aço brasileiro.
A Gerdau, que mantém operações industriais nos Estados Unidos, foi menos afetada que outras siderúrgicas nacionais pela medida e tem focado as operações nos EUA, mas segue atenta aos desdobramentos da política comercial americana e à necessidade de preservar a competitividade de suas exportações a partir do Brasil, diante de um cenário internacional cada vez mais protecionista.
“A abertura de diálogo é extremamente importante. Temos esperança de que, através do diálogo, se encontrem caminhos para ajustar, no curto prazo, esse conflito de interesses que temos vivido nas últimas semanas”, disse o empresário.
Venda de minério de ferro a partir de 2026
No campo estratégico, a empresa anunciou recentemente que deve iniciar a venda de minério de ferro a partir de 2026, ampliando sua atuação no setor de mineração.
“Isso vai permitir atender toda a nossa demanda interna e ainda gerar excedente para exportação”, afirmou, ressaltando que o movimento reforça a competitividade global da empresa e amplia sua diversificação de receitas.