
A siderurgia, intensiva em energia, é responsável por 8% a 10% das emissões globaisde gases estufa e sua descarbonização depende de uma combinação de soluções verdes e limpas com novos modelos de negócios.
O tamanho do desafio é imenso: até 2050, a expectativa é que 50% do problema seja resolvido pelo uso de tecnologias que ainda não estão disponíveis em escala — como o hidrogênio verde e a captura de carbono.
Diante desse cenário, a economia circular desponta como um caminho promissor rumo às metas climáticas do setor: no Brasil, o compromisso é reduzir entre 15% a 50% dos gases emitidos até 2030 e alcançar a neutralidade de carbono até 2050.
Mas afinal, como estão caminhando as gigantes siderúrgicas brasileiras?
Um mapeamento pioneiro sobre o estágio de práticas de circularidade foi desenvolvido pelo Instituto Brasileiro de Economia Circular (Ibec) com apoio do Instituto Clima e Sociedade (ICS) e revelou que o Brasil está desperdiçando a oportunidade de liderar globalmente essa agenda ao adotar ações isoladas em vez de uma abordagem sistêmica e integrada.
A análise contemplou 11 empresas brasileiras, entre elas as maiores: Aço Verde do Brasil (AVB), Aperam, ArcelorMittal, CSN, Gerdau, Usiminas e Vale. A conclusão? O país tem base sólida avançar, mas fica atrás de outras companhias globais por concentrar práticas internas e isoladas.
Brasil está na segunda onda evolutiva
O estudo classificou o Brasil na segunda de quatro “ondas” evolutivas da economia circular e concluiu que o país já tem percepção consolidada do valor dos materiais, engajamento em projetos de inovação e investimentos em energias renováveis, mas ainda com estratégias limitadas.
“Embora o setor já adote a circularidade, pela transformação de resíduos, uso de sucata e geração de coprodutos, é necessário superar obstáculos para desenvolver uma abordagem mais sistêmica”, explicam os pesquisadores.
Para mapear as diferenças a nível mundial, o Ibec criou a “Matriz de Descarbonização e Maturidade Circular”, que classifica as práticas em dois eixos: nível de maturidade (concentrada versus sistêmica) e amplitude (iniciativas internas versus multissetoriais).
‘Oportunidade perdida’
A grande chance está na evolução da segunda para a terceira onda, quando a circularidade se tornaria parte da cultura do negócio e da tomada de decisão. Para isso, a recomendação é estabelecer parcerias multissetoriais, integrando mineração, siderurgia, infraestrutura e agronegócio.
“A agenda já é vista no setor com a perspectiva do valor do material e do reaproveitamento de resíduos”, explica Beatriz Luz, presidente do Ibec. “É tempo de uma governança capaz de se expandir para vários setores, que possam gerar diferentes demandas de mercado.”
A integração criaria demanda e escala para soluções circulares, peça-chave para o cumprimento das metas de descarbonização do setor nos próximos anos e em alinhamento com a NDC brasileira de reduzir as emissões em 67% até 2035.
Potencial de protagonismo
Já na quarta e última onda evolutiva, o setor siderúrgico brasileiro poderia expandir sua atuação para participar de debates e se consolidar na liderança global.
“Trata-se de uma indústria que pode assumir um grande protagonismo na transição para um novo modelo produtivo e econômico”, concluiu a pesquisadora.