
Se por um lado 2025 tem se mostrado um ano desafiador para a siderurgia brasileira do ponto de vista externo – incluindo aí as tarifas de 50% adotadas pelos Estados Unidos para barrar as importações da commodity e a competição doméstica com os produtos exportados pela China ao Brasil -, a indústria nacional do aço tem encontrado apoio no mercado interno de seus principais parceiros comerciais e do governo federal, ao menos no discurso. Apesar de serem beneficiados pelo aço chinês barato no curto prazo, grandes consumidores do insumo destacam que também precisam de parceiros de longo prazo para atender às suas demandas.
É o caso da construção civil, maior consumidora da commodity no país e que demandou 9,32 milhões de toneladas de aço nacional em 2023, de acordo com o Instituto Aço Brasil, que ainda não divulgou dados de 2024. Durante a 35ª edição do Congresso Aço Brasil, realizada no fim de agosto, em São Paulo, Eduardo Fischer, CEO da incorporadora MRV, sustentou que o sistema de cota-tarifa adotado pelo governo brasileiro para conter a concorrência com o produto chinês tem impactado os custos do setor – o insumo representa 7% dos gastos da construção civil, de acordo com o executivo.
“A questão da importação tem sido extremamente danosa para a indústria [do aço]. A hora que eu tenho um desarranjo econômico, o que acontece é que uma indústria que me alimentava bem, passa a não me alimentar bem. E, no passado, a gente viu que algumas quebras de produção nos afetaram imensamente”, disse Fischer. O executivo ainda apontou que a construção civil passa por um bom momento e que isso deve seguir por pelo menos dez anos. “Acredito que a gente vai ter uma década de crescimento muito forte. A demanda é constantemente maior que a oferta. E a indústria do aço vai colher benefícios disso”, disse.
Claudio Brizon, diretor de compras e engenharia da qualidade do fornecedor (SQE) da CNH Industrial para a América Latina, multinacional italiana que atua na fabricação de equipamentos de construção, agrícolas e marítimos, além de motores e veículos comerciais, fez defesa semelhante, ressaltando a participação do segmento de máquinas e equipamentos nas compras do aço brasileiro e a importância de uma parceria mais estreita entre os setores.
“Hoje, no setor de máquinas, [o insumo] deve estar representando algo em torno de 30% a 40% do custo, então é extremamente relevante e impacta diretamente na competitividade do segmento”, destacou. Em 2023, o setor de bens de capital adquiriu 4,83 milhões de toneladas de aço nacional, segundo a entidade que representa as empresas de siderurgia. “Precisamos caminhar juntos para encontrar projetos que se conectem e continuarmos sendo relevantes para o futuro da indústria no Brasil”, opinou Brizon.
Já Antônio Sérgio Martins Mello, vice-presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) e executivo da Stellantis, evitou comentar o avanço das importações de aço, que somaram 6,3 milhões de toneladas neste ano, alcançando participação de cerca de 25% do mercado interno do insumo, segundo executivos da indústria siderúrgica. Por outro lado, Mello identificou um problema comum aos dois setores: a concorrência com a China.
“Hoje, a indústria chinesa de carros eletrificados já representa 8% do mercado, com perspectiva de importação para este ano em torno de 200 mil veículos. Isso realmente perturba todo o processo produtivo”, afirmou o executivo. “É importante dizer que essa não é uma defesa da proteção [governamental] à indústria, mas da busca de isonomia”, justificou Mello, lembrando que a Stellantis consome cerca de 700 mil toneladas de aço por ano e que o insumo corresponde a 59% dos custos de um veículo.
Como um todo, o setor automotivo é o segundo maior comprador da indústria siderúrgica nacional, com volume de 5,6 milhões de toneladas da commodity adquiridos em 2023.
Apesar de terem reforçado a relevância da produção de aço nacional em suas cadeias, os grandes clientes das siderúrgicas não fizeram menções às medidas defendidas pelo setor siderúrgico para frear a concorrência com os insumos chineses. Esse papel coube a Uallace Moreira Lima, secretário de Desenvolvimento Industrial do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic). “A conjuntura internacional hoje é um grande desafio. A gente vem constantemente dialogando e tentando incorporar e adotar as políticas para poder fazer a defesa comercial. Os Estados Unidos, a Europa e a China também estão fazendo isso”, afirmou o secretário.
Ao mesmo tempo, Lima afirmou que não é papel só do governo incentivar a indústria protagonista. “Cabe também ao setor privado brigar não só por medidas conjunturais, mas por medidas estruturais para que o país de fato tenha a indústria que mereça.”