No comando da Vale há pouco mais de um ano, Gustavo Pimenta acredita que não existe momento melhor para atuar na indústria de mineração do que agora. “Meu legado será uma companhia que retoma o seu protagonismo dentro da indústria.”
Em entrevista exclusiva ao Estadão/Broadcast, o executivo contou que participará de painéis na COP-30 sobre descarbonização e que adotou como missão pessoal melhorar a relação da mineradora com o governo.
Como diferencial competitivo, Pimenta ressalta que a Vale possui depósitos inestimáveis e capacidade de executar projetos com baixos investimentos, vantagem importante no mercado atual.
Além disso, ele avalia que a transição energética, o crescimento da população mundial e a urbanização devem sustentar a demanda por minerais críticos e minério de ferro nos próximos anos, abrindo oportunidades para a companhia. “Temos potencial de avançar muito e criar uma companhia líder da indústria, retomando algumas das posições que já tivemos”, afirmou.
A seguir, os principais trechos da entrevista:
Qual o balanço do seu primeiro ano à frente da Vale?
Foram 12 meses muito produtivos, com foco claro para resolver temas que estavam pendentes, como o Acordo de Mariana, e seguir avançando na descaracterização de barragens. Há um mês, tiramos a última barragem de nível 3. Foi um marco importante no processo de descaracterização e para o reposicionamento da companhia perante a sociedade. (…) Tivemos o melhor trimestre de produção de minério desde 2018 e o melhor trimestre de cobre desde 2019.
Qual legado que pretende deixar na companhia?
Uma companhia que retoma o seu protagonismo dentro da indústria. Estamos nesta jornada. Eu olho para o futuro com muito otimismo, porque está nas nossas mãos entregar esse futuro.
Como o sr. vê a Vale se posicionando globalmente nos próximos cinco anos?
Não existe melhor momento para estar na indústria da mineração do que agora. Temos uma oportunidade única de reposicionamento, crescimento e geração de valor. As grandes temáticas — descarbonização, resiliência de cadeias de suprimentos, inteligência artificial — vão demandar muito minério. E a Vale tem um potencial minerário que ninguém tem. Eu brinco que a gente tem a tabela periódica aqui no Brasil.
Importante no cenário atual….
E há mais um elemento global: a perda de qualidade e a dificuldade de encontrar novos depósitos minerários. O cobre é um exemplo: este ano o preço subiu porque ocorreram eventos de quebra de oferta pelo mundo. E começamos a ver certa dificuldade para desenvolvimento de novos projetos, o que cria uma oportunidade para que sejamos os ofertantes. Estamos olhando com o otimismo de ser uma das companhias que vão crescer a partir de todas essas tendências.
Onde será a aposta da Vale para crescer mais?
Estamos crescendo no minério com projetos de alto teor (de ferro) e baixa intensidade de capital, que é algo muito único da Vale. Estamos dobrando a capacidade de cobre em dez anos. Isso nos coloca numa posição muito única para avançar num portfólio líder da indústria, em duas commodities nas quais acreditamos muito no médio e longo prazo. (…). Temos potencial de avançar muito e criar uma companhia diferente, líder da indústria, retomando algumas das posições que já tivemos.
A Vale continua cotada no mercado acionário abaixo do que o senhor considera justo em relação aos concorrentes?
Neste ano estamos tendo bom desempenho comparado com pares da indústria, melhor do que todos eles. Mas continuamos entendendo que temos um grande potencial de destravamento de valor na companhia. Primeiro pela capacidade de desenvolver projetos que ninguém tem dado ao potencial minerário. Segundo, o fato de podermos desenvolver projetos com intensidade de capital muito baixa. A indústria hoje está tendo que dedicar muito capital para manter níveis de produção estáveis, nem em crescimento. E nós conseguimos trazer projetos para operação, dada toda a infraestrutura — porto, logística, ferrovia — que temos, com um grau de eficiência muito grande.
O senhor já falou que espera voltar ao posto de líder no segmento de minério de ferro. Esse pode ser o ponto de virada?
Há um conjunto de elementos. (…) Nos últimos 12 meses, sem nenhuma barragem em nível (de emergência) 3, tem mais gente investindo na Vale. Isso ajuda a destravar valor. A gente vem crescendo o nosso portfólio de minério de ferro e cobre. São elementos que se somam e acredito que vamos recuperar e destravar o valor.
A Vale aposta no minério de alto teor , mas lançou um produto de teor médio (63%) e reduziu os guidances para pelotas. São tendências opostas?
Existe uma situação de curto prazo e uma situação de médio e longo prazo. No médio e longo prazo, a tendência é de que o mercado siga em processo de descarbonização. Seja porque tem um imposto sobre o carbono, algo que em algum momento vai entrar em vigor na Europa, seja porque políticas públicas serão implementadas gerando alguma forma de tributação ou restrição. A sociedade vai entender que isso é um tema que precisa ser trabalhado. Todos os clientes — na Europa, no Japão, Sudeste Asiático, China — seguem comprometidos com essa agenda no médio-longo prazo. O alto teor seguirá sendo uma vantagem de posicionamento estratégico para a Vale.
E no cenário de curto prazo?
Tem um cenário no qual as siderúrgicas estão com margens bastante apertadas e usualmente vão favorecer produtos de mais baixo teor e buscar menos produtividade. Não acho que exista um conflito. (…) A grande vantagem que a gente tem — e neste ano a gente tem conseguido demonstrar nos nossos números — é de que independente do momento do ciclo, conseguimos ofertar aquilo que funciona
A relação da Vale com o governo melhorou na sua gestão. Mas ainda há riscos, como na renovação das concessões ferroviárias e o decreto de exploração das cavidades…
Nós temos construído uma boa relação desde que eu assumi. Foi uma pauta a que me dediquei pessoalmente. Tivemos uma série de oportunidades de compartilhar a direção estratégica da companhia e todos nós entendemos que uma Vale forte é boa para o Brasil. Temos muito compromisso de investir no país, de crescer, somos um dos maiores investidores e empregadores. E isso nos aproximou porque essas pautas são boas para qualquer governo que esteja à frente do país.
Mas ainda há riscos?
Uma companhia do tamanho da Vale, com a quantidade de ativos e operações que temos, sempre vai haver um tema ou outro. Isso não significa falta de harmonia. O que eu percebo hoje é uma grande harmonia não só em relação ao governo federal, mas também aos governos estaduais e municipais.
Existe uma pressão política em torno do investimento na Bahia Mineração (Bamin)?
Não, não sinto. É uma discussão natural de potenciais projetos de crescimento. Uma companhia como a Vale vai estar sempre olhando todos os projetos de mineração no Brasil. Às vezes, não tem ninguém que não rode um processo que não nos ligue para ver se a gente tem interesse. Isso é natural. Então, não vejo isso como um elemento que eventualmente impacte essa harmonia que a gente conseguiu desenvolver ao longo desses últimos 12 meses de agendas convergentes.
Como o tarifaço de Donald Trump impacta na companhia?
A Vale vende muito pouco para os EUA. Não tivemos nenhum impacto direto. E o outro lado dessa equação é que se criou uma necessidade de cadeias alternativas. Daí, Brasil e Vale têm um posicionamento muito único, porque podemos ser esse parceiro que oferta para os EUA, a Índia e vários dos mercados em desenvolvimento. A necessidade de criar a maior resiliência da cadeia de suprimentos é favorável à Vale, que tem relações comerciais com todos esses países. E é um pouco do que a gente vem tentando trabalhar ao longo desses últimos meses.
A demanda por minério da China vai continuar forte?
A China sempre foi um mercado importante nas últimas duas décadas. Hoje é o principal produtor de aço do mundo e, na nossa visão, vai seguir sendo. O momento é de estabilização da produção na China, ao redor de um bilhão de toneladas, com pouca possibilidade de crescimento e talvez até com um decrescimento. Mas esse decréscimo não vai ser tão acelerado porque algumas demandas na China e o uso do aço evoluíram nos últimos anos. A China sempre foi muito dependente do mercado imobiliário, e 40% do minério que importava ia para esse setor, que reduziu. Mas outros (setores) cresceram. A manufatura passou a ser um mercado muito importante e absorveu muito do decréscimo no mercado imobiliário. Infraestrutura continua forte.
A demanda estabilizou?
Sim, e fez com que o ajuste de produção do aço fosse minimizado na China. Há vários outros movimentos importantes a serem observados, como crescimento populacional global estimado em 2 bilhões e grandes oportunidades de urbanização em vários mercados. (…) Nossa visão é de que a produção de aço no médio e longo prazo vai seguir construtiva. Talvez não em alto crescimento, mas temos perspectiva de algum crescimento na produção, ainda que a China tenha alguma redução.
A entrada em operação da mina de Simandou da Rio Tinto na Guiné preocupa de alguma maneira?
Simandou é um projeto relevante, mas há dois fenômenos em curso, e o mercado já absorveu essas informações. Um é a exaustão de minas, a depleção. Anualmente, entre 50 a 60 milhões de toneladas são exauridas, na medida em que as minas vão ficando mais antigas. Este fator é muito importante e substancialmente maior do que era dez anos atrás, porque estamos falando de uma cadeia maior, com maior volume de oferta. Tem um outro elemento, que se aplica para o minério e para o cobre, que é a redução de teor. As minas estão ficando mais velhas, com menor qualidade, com menor teor. Então, a nossa visão é que Simandou vem para repor capacidade.
Não traz um aumento de oferta?
Talvez tenha algum crescimento na margem, mas não um crescimento integral. Simandou pode chegar a 100 milhões a 120 milhões de toneladas. Mas isso não vai significar 100 a 120 milhões de toneladas de adição. Vai repor muita depleção. O futuro vai dizer quanto é reposição, quanto é crescimento. Mas, na nossa visão, o volume vai ser absorvido pelo mercado, que vai seguir em equilíbrio.
Qual a tendência para os preços nesse cenário?
Nos últimos dez anos, em todos os anos subsequentes o preço superou a expectativa do mercado do ano anterior. Isso porque existe um desafio enorme de desenvolvimento de minas, exaustão de minas, perda de teor. Existem vários fatores que o mercado não tem sido capaz de capturar. É sempre difícil dizer qual será o preço do próximo ano. O que eu posso dizer é que quando a gente olha a demanda na ponta, que é talvez o nosso principal indicador, ela segue bastante firme. Nós não estamos tendo dificuldade de alocar nossos produtos, pelo contrário. E essa demanda na ponta nos dá a indicação de que o mercado vai seguir em equilíbrio.
Como o senhor avalia a importância da COP-30 em Belém?
Estamos presentes na Amazônia há 40 anos e estarei na COP-30. Vamos levar uma delegação importante da Vale — do Conselho de Administração, Comitê Executivo e vários membros do nosso time —, e estarei em vários painéis, debatendo a descarbonização. A Vale se beneficia do processo: é um tema importante na missão da companhia e é bom para o nosso negócio.