
De olho no mercado de minério de ferro de alto teor e maior valor agregado, a Cedro Mineração tem um plano de investir US$ 640 milhões (R$ 3,5 bilhões) em uma nova mina em Mariana (MG). O projeto prevê a produção anual de 5 milhões de toneladas de minério com 67% de teor de ferro, que é atualmente cobiçado para fabricação de aço, já que permite menor emissão de dióxido de carbono (CO2) por siderúrgicas.
Para ter viabilidade econômica no projeto, a Cedro firmou um acordo de arrendamento de reservas de minério da Vale ao lado de mina que já opera em Mariana, que é de menor porte e faz outros tipos do minério. Ao juntar as duas reservas, a companhia do grupo Cedro, controlado pelo empresário Lucas Kallas, fará uma nova cava de extração, mais ampla, e montará uma instalação industrial que vai concentrar o minério. O produto final será o pellet-feed de redução direta (PFRD).
“Para a Vale, uma mina como essa é pequena; para a Cedro, é um bom projeto”, afirmou ao Estadão o vice-presidente Comercial e de Estratégia & Projetos, Fabiano de Carvalho Filho. O acordo é de longo prazo, de mais de 15 anos, segundo o executivo. E envolve ainda a venda direta do produto para a Vale, colocado em um terminal da própria mineradora ao lado da centenária Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM), que transporta minério de Minas Gerais para o porto de Tubarão, da Vale, em Vitória (ES).
Geralmente, o pellet-feed é utilizado para alimentar instalações de pelotização, gerando minério aglomerado (na forma de pelotas) de dois tipos: uso em usinas de redução direta (PFRD), comercializado no mercado em até US$ 180 a tonelada, e a pelota de alto-forno (cerca de US$ 160). O minério que a Cedro produz atualmente (sinter-feed e hematitinha), o mais comum no mundo, é cotado na China na faixa de US$ 100 a US$ 110 a tonelada.
A Vale tem a logística férrea de transporte e opera um complexo de pelotização em Vitória com várias usinas de processamento de pellet-feed. “Há uma demanda em alta no mundo e a Vale, com logística ferroviária e portuária, é um comprador natural. O plano da Cedro é fazer um projeto modelo em termos de meio ambiente, com modernas tecnologias comprovadas e parceria com um grande cliente”, diz José Carlos Martins, conselheiro da Cedro Participações.
A Cedro, informam os executivos, já deu entrada com pedido de licenciamento ambiental para a nova mina em Mariana, e está na fase final da engenharia básica do projeto. A expectativa é estar com tudo pronto até o fim do primeiro trimestre de 2026 e iniciar obras de abertura de cava logo a seguir. O passo seguinte é montar a unidade industrial de concentração de minério, cujas partes serão encomendadas a fornecedores do Brasil, Índia, China e Europa. O cronograma prevê início de produção no último trimestre de 2028 ou início de 2029.
Procurada para falar sobre o acordo com a Cedro, a Vale emitiu uma nota: “A operação que envolve o arrendamento de direito minerário de titularidade da Vale à Cedro Mariana foi aprovada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), contudo, ainda está em análise pela Agência Nacional de Mineração (ANM), conforme a regulamentação vigente aplicável”.
Logística ferroviária e portuária
O pellet-feed para redução direta da Cedro, com baixo teor de fósforo, alumina e sílica (elementos contaminantes), será voltado à exportação. Os principais mercados são países com disponibilidade de gás natural, usado como insumo, caso de Oriente Médio e Norte da África.
Segundo Carvalho, a distância da mina ao terminal da Vale até a ferrovia é de 19 km e o projeto prevê a construção de uma correia transportadora, que será uma das maiores do Brasil. A correia será encapsulada para não haver dispersão do minério — superfino — e a ideia é montar painéis solares sobre o equipamento para gerar a energia demandada pelos motores de propulsão da correia, informa Martins.
Cedro e Vale já têm relações comerciais. Da atual produção da empresa em Mariana, em torno de 3 milhões de toneladas por ano, a mineradora compra metade e o restante é vendido para Gerdau e produtoras de ferro-gusa de Minas Gerais. O minério é levado até a ferrovia da Vale em caminhões. “Nosso plano é vir a usar caminhões movidos a biometano. Já estamos fazendo testes”, diz o vice-presidente. Para o novo projeto, o foco, por ora, é uso da correia transportadora encapsulada.
Arrendamento de certas reservas de minério de ferro, que não justificam alocar capital em uma mina de pequeno porte, está na estratégia da Vale. Acordos como esse são feitos com mineradoras de médio porte, como a Cedro e várias outras que operam em Minas Gerais. Foi o caso com a Itaminas, de Sarzedo, que firmou acordo com a Vale, no fim de 2024, para exploração da mina da Jangada, em Brumadinho. A Vale não deu detalhes sobre esse formato de parcerias.
Para Martins, a produção desse tipo de minério é cada vez mais um processo industrial — não apenas a extração pura e simples de minério do subsolo. “Isso requer plantas industriais com todas as tecnologias recentes, automatizadas, operação com comunicação 5G e até via satélite. Nosso plano é ter uma mineração 4.0, sem barragem, com empilhamento a seco do rejeito. Além da licença ambiental, temos de ter a social.” Veículos elétricos e autônomos já são comuns em grandes operações de minas mundo afora.
Segundo Carvalho, a Cedro vai utilizar 30% de capital próprio para o projeto e 70% na forma de dívida. Como outras empresas do setor, a ideia é também buscar financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Atualmente, a Cedro Mineração, com duas unidades de produção — Mariana e Nova Lima — produz 7 milhões de toneladas de minério de ferro por ano.
A empresa prevê 1,5 mil empregos durante as obras de construção da nova mina e 300 diretos na operação quando entrar em funcionamento, além de 1,5 mil indiretos. A Cedro informa que quer reforçar seu apoio ao município de Mariana, com ações voltadas à educação, cultura e esportes. Diz já ter alocado R$ 50 milhões em projetos sociais.
Há dez anos, Mariana viveu a tragédia do rompimento da barragem de rejeitos de Fundão, que causou um desastre ambiental, social e econômico de grande proporção. Era operada pela mineradora Samarco. O acordo final de reparação firmado com autoridades do País um ano atrás foi de R$ 170 bilhões. A Samarco, com suas acionistas Vale e BHP, já desembolsou cerca de R$ 40 bilhões. A empresa voltou a produzir, gradualmente, desde o final de 2020 — sem barragens.