
A MRS Logística, que administra uma malha ferroviária de 1.643 km entre São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, passará a ser também um operador hidroviário. O grupo acaba de iniciar um investimento de R$ 1,5 bilhão, que deverá ser concluído em 2028, para construir dois terminais ao longo da Hidrovia Tietê-Paraná e adquirir barcaças e empurradores.
O projeto começou a ser estruturado em 2016, segundo Raphael Steiman, diretor comercial da MRS, que assume como diretor-executivo do braço de hidrovias. Naquele ano, a empresa comprou um terreno em Pederneiras (SP), onde agora será construído um terminal multimodal – com conexão com a hidrovia, rodovias e a malha ferroviária da Rumo, que se conecta à da MRS em Jundiaí (SP).
Outro terminal também será erguido em São Simão (GO). A empresa comprou uma unidade no local, que passará por adequações. As obras dos dois terminais devem ser concluídas em janeiro de 2027.
Além disso, já foram encomendadas 40 barcaças e 10 empurradores, junto a estaleiros da região da hidrovia. Os equipamentos deverão ser entregues ao longo de 2027 e 2028.
O plano é iniciar a operação em fevereiro de 2027, inicialmente com foco no transporte de grãos. “Essa data casa com o início da safra”, disse Steiman. No primeiro ano, a expectativa é movimentar 1,3 milhão de toneladas, volume que deverá avançar até a capacidade máxima anual de 2,3 milhões, em 2028.
O executivo afirma que, hoje, boa parte dos clientes que usam a malha ferroviária da MRS já transportam sua carga pela hidrovia, mas com outros operadores, e agora o grupo quer oferecer o serviço “de porta a porta”.
“Em 2021, a empresa instalou a primeira planta de clientes, da [fabricante de celulose] Bracell, em Pederneiras. O próximo passo natural foi partir para a hidrovia e oferecer a solução completa de logística”, explicou. A iniciativa foi aprovada em 2023, e, desde então, passou por estudos e análises do conselho. O grupo é controlado por CSN (Companhia Siderúrgica Nacional), Vale, Gerdau e Usiminas.
A decisão, segundo ele, não foi motivada pela retomada das obras de derrocamento (remoção de material para aprofundamento do canal) do Pedral de Nova Avanhandava em 2023 – umas das obras mais aguardadas pelos usuários da hidrovia. A intervenção, porém, “deu tranquilidade e mais força” para a aprovação do projeto.
O derrocamento deverá dar mais segurança à navegação em momentos de seca, evitando a interrupção do tráfego. “Nos últimos 20 anos, houve dois anos de secas, nos quais, se tivesse essa obra [pronta], não teriam ocorrido problemas na hidrovia. Então, a MRS deverá começar a operar na era de ouro da Tietê-Paraná”, afirmou o executivo.
Esta é uma primeira fase do projeto hidroviário da MRS, mas já existe uma perspectiva de uma segunda etapa, em que a capacidade máxima saltaria de 2,3 milhões de toneladas transportadas por ano para 4 milhões.
Além disso, há um plano de expandir a operação de grãos para outras cargas, como madeira, celulose, açúcar e eventualmente contêineres – e, “quiçá, expandir para outros rios”, disse Steiman. Porém, por enquanto, são apenas discussões internas, e o foco é nesta primeira fase, afirmou.
Na cadeia de grãos, a empresa já procurou potenciais clientes durante o período de análise de viabilidade do projeto, e todos formalizaram interesse no serviço, segundo o executivo. A política comercial ainda está sendo desenhada, mas a comercialização já deve ter início em 2026.
O plano de partir ao modal hidroviário caminha em paralelo às obras de ampliação da malha da MRS, firmadas junto ao governo federal com a renovação antecipada do contrato, que previu R$ 11 bilhões em investimentos (em valores não atualizados). A companhia informa que R$ 1,5 bilhão foram aportados até julho de 2025, nos três primeiros anos do novo contrato.
Segundo Steiman, o projeto também está alinhado com um plano da MRS de diversificar sua carga para além da mineração – setor dos sócios controladores da empresa. No passado, a mineração já chegou a representar 80% dos volumes transportados pela companhia. Ao fim de 2024 (os dados mais recentes divulgados), a participação da área já tinha caído para 61,2%.
Em relação ao financiamento, o executivo afirmou que a MRS tem feito captações de debêntures incentivadas para seus investimentos, e que o projeto hidroviário não deverá ter um peso grande no balanço. “É um projeto controlado e rentável, estamos bastante seguros.”