
O fantasma da escassez de semicondutores, que paralisou linhas de montagem em todo o mundo durante a pandemia, voltou a rondar a indústria automotiva global. Uma nova crise envolvendo a fabricante Nexperia — com sede na Holanda e controlada pelo grupo chinês Wingtech Technology — ameaça interromper a produção de veículos na Europa, nos Estados Unidos e no Japão nas próximas semanas.
A tensão começou quando o governo holandês interveio na Nexperia, assumindo o controle da empresa sob alegação de segurança nacional. Em resposta, a China bloqueou as exportações de chips produzidos em suas fábricas, provocando um novo gargalo na cadeia global. O governo dos EUA, por sua vez, incluiu a controladora Wingtech em uma lista de restrições comerciais, ampliando a disputa.
As consequências já são sentidas. A MEMA, associação de fornecedores automotivos norte-americanos, alertou que as montadoras dos EUA estão a duas a quatro semanas de paralisar fábricas. Ford, GM, Stellantis e Toyota estão entre as afetadas. Na Europa, a BMW confirmou impactos iniciais, enquanto a Honda também relatou efeitos no Japão. A ACEA, entidade que reúne fabricantes europeus, descreveu a situação como “potencialmente devastadora”.
O episódio reacende o debate sobre a dependência global dos chips asiáticos e a necessidade de autonomia tecnológica — questão que também chegou ao Brasil.
Falta de regulamentação trava programa nacional
Por aqui, a indústria automotiva acompanha o cenário com apreensão. Apesar de o Congresso ter aprovado, em setembro de 2024, a Lei nº 14.968, que cria o Programa Brasil Semicondutores (Brasil Semicon), o plano ainda não saiu do papel. A iniciativa prevê R$ 21 bilhões até 2026 para estimular a produção local e fortalecer o parque tecnológico, mas a ausência de decretos regulamentadores impede sua execução.
“O decreto está pronto há seis meses, mas ainda não foi colocado para aprovação”, criticou Erwin Franieck, conselheiro da SAE Brasil. Para ele, a demora trava investimentos e posterga a chance de o país se tornar parceiro global no setor.
O programa Brasil Semicon amplia o alcance do Padis, que apoia o desenvolvimento de semicondutores, e prorroga seus incentivos até 2073 — o mesmo prazo da Zona Franca de Manaus. A expectativa é que ele ofereça previsibilidade para atrair fabricantes, laboratórios e centros de inovação.
Segundo Valter Pieracciani, especialista em inovação, o Brasil corre risco de repetir erros da pandemia: “Temos o péssimo hábito de buscar soluções na véspera do apagão. É preciso aprovar a lei, investir em pesquisa e estruturar a produção. Taiwan levou trinta anos para chegar ao nível em que está.”
Governo busca aliados na Ásia
Diante do risco de desabastecimento, o governo brasileiro tenta se antecipar. Em visita à Malásia, um dos principais polos mundiais de semicondutores, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou um memorando de entendimento com o governo malaio para cooperação tecnológica e convidou empresas locais a investir no país.
“O Brasil está de braços abertos para receber empresários da Malásia”, afirmou Lula. O presidente destacou que o objetivo é evitar que a indústria nacional volte a reduzir produção por falta de chips, como ocorreu em 2021.
Nesta terça-feira (28), o ministro Geraldo Alckmin, do MDIC, deve se reunir com Igor Calvet, presidente da Anfavea, para discutir medidas emergenciais e estratégias de abastecimento. O encontro busca alinhar ações com montadoras e fornecedores, que pedem ao governo celeridade na regulamentação do Brasil Semicon e segurança jurídica para investimentos locais.
Setor cobra política de Estado
Empresários e especialistas do setor automotivo defendem que o país adote uma estratégia industrial de longo prazo, combinando incentivos, acordos internacionais e capacitação tecnológica. “Não é apenas uma questão econômica, mas de soberania produtiva”, afirmou Franieck.
Enquanto o impasse global persiste, o Brasil tenta equilibrar urgência e planejamento: garantir o abastecimento imediato das montadoras e, ao mesmo tempo, criar as bases para reduzir a dependência externa.
O consenso é claro — sem chips, não há carro, nem transição energética, nem futuro digital.