Novo petróleo? Por que reservas minerais do Brasil são cobiçadas pelos EUA

O Brasil possui uma das maiores reservas de terras raras do mundo.

A composição de seu subsolo é considerada estratégica por conter elementos como neodímio, disprósio e lantânio, fundamentais para tecnologias da transição energética: turbinas eólicas, painéis solares, celulares, chips e, principalmente, motores e baterias de veículos elétricos.

Apesar disso, o país ainda atua na base da cadeia: exporta matéria-prima bruta, importa o produto beneficiado, e corre o risco de repetir o erro histórico do minério de ferro e do petróleo.

Agora, sob pressão internacional e diante da corrida global por minerais críticos, o governo brasileiro começa a organizar uma política nacional para mudar esse rumo. A reportagem do UOL Carros ouviu os principais ministérios envolvidos e mostra o que já está em curso e o que ainda falta para o país aproveitar sua vantagem natural.

Um plano ainda em construção

A espinha dorsal do que pode vir a ser uma estratégia nacional está no Projeto de Lei 2.780/2024, em tramitação na Câmara dos Deputados. O texto propõe a criação da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE) e de um comitê interministerial que integraria ações de mapeamento, extração, beneficiamento e industrialização desses minérios. O objetivo é garantir segurança energética, estimular inovação e agregar valor à produção nacional.

Enquanto o PL não avança, os ministérios começaram a agir por conta própria, cada um dentro de sua esfera. E, apesar do discurso de integração, o que se vê até agora são iniciativas paralelas, com foco e ritmos distintos.

O que diz o governo federal

O Ministério de Minas e Energia (MME) assumiu a dianteira da construção da PNMCE. Segundo a pasta, o Brasil precisa consolidar sua posição como fornecedor estratégico de minerais essenciais à transição energética, diante de uma demanda global crescente e da concentração produtiva em países como a China.

Neste panorama, o Brasil possui uma posição estratégica por ser detentor de vastas reservas de minerais cruciais, incluindo Nióbio (90% das reservas globais), Níquel (12%), Grafita (26%) e Terras Raras (23%), além de outros igualmente importantes.

O MME trabalha com a Agência Nacional de Mineração (ANM) e o Serviço Geológico do Brasil (SGB) em três frentes principais:

Mapeamento geológico nacional, com destaque para lítio, terras raras, grafita e níquel.

Elaboração do Plangeo 2026-2035, plano decenal que define áreas prioritárias para pesquisa de minerais críticos.

Criação de editais de áreas com alto potencial mineral.

Ademais, o MME adota uma postura de atração de investimentos que combine previsibilidade regulatória com requisitos de desenvolvimento local. Em 2024-2025, foram publicados guias e orientações destinados a investidores estrangeiros, que detalham procedimentos para obtenção de direitos minerários, exigências de licenciamento ambiental, incentivos e instrumentos de financiamento; além de enfatizar a necessidade de transferência tecnológica e desenvolvimento de capacidades industriais locais.

O ministério também participa do Conselho Nacional de Política Mineral (CNPM), grupo de trabalho que reúne representantes de diversos ministérios, entidades públicas, academia e setor produtivo, mas a primeira reunião só aconteceu em outubro de 2025.

Aposta na industrialização

Já o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) quer evitar que o Brasil se limite à mineração. A visão da pasta é mais desenvolvimentista: transformar as reservas em cadeias produtivas completas, com fabricação local de componentes estratégicos, como baterias, ímãs permanentes e semicondutores.

A atuação do MDIC se apoia na política da Nova Indústria Brasil (NIB), que prevê o “adensamento tecnológico” de setores-chave. Em maio, o ministério articulou, junto com o BNDES e a Finep, um edital de R$ 5 bilhões para projetos que envolvam a transformação mineral de elementos como terras raras, lítio, nióbio, níquel e grafita. A chamada recebeu 124 propostas, somando um potencial de R$ 85 bilhões em investimentos.

Segundo nota enviada ao UOL Carros, “ao Brasil não interessa apenas mapear, explorar e exportar o minério bruto, mas desenvolver internamente as etapas industriais”.

MMA alerta para impactos ambientais

O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), por sua vez, atua como fiscalizador do processo. A pasta reforça que a mineração de terras raras envolve alto impacto ambiental, e que qualquer política nacional precisa estar atrelada a um marco regulatório socioambiental robusto.

O MMA participa do Conselho Nacional de Política Mineral (CNPM) e dos Grupos de Trabalho criados para discutir a mineração sustentável e os minerais estratégicos. Também esteve presente na audiência pública que discutiu a PNMCE na Câmara, e avalia propostas legislativas com base na legislação ambiental vigente, que exige evitar impactos adversos sempre que possível; mitigar o que não for evitável e compensar os impactos residuais.

A pasta também sinaliza que o licenciamento ambiental será obrigatório em todas as fases.

O interesse estrangeiro já começou

Enquanto a política nacional ainda se estrutura, empresas estrangeiras já começaram a operar no território brasileiro. A americana Serra Verde, por exemplo, recebeu US$ 465 milhões de uma agência de fomento do governo dos EUA para extrair e beneficiar terras raras em Goiás. A expectativa é que parte dessa produção já abasteça os EUA a partir de 2026.

Além disso, empresas canadenses e australianas também têm planos de exploração mineral no Brasil. O receio de especialistas é que, sem uma política clara de verticalização, o país repita o modelo de exportador de commodities, perdendo mais uma vez a oportunidade de agregar valor ao que produz.

E os carros com isso?

A conexão com o setor automotivo é direta: os minerais críticos estão no centro da arquitetura dos motores elétricos, nas baterias, nos sistemas de conectividade e em diversos componentes de alta tecnologia que os veículos elétricos exigem.

“Os ímãs feitos com terras raras são fundamentais para o funcionamento do motor elétrico. E quanto melhor a qualidade desses ímãs, maior a eficiência do motor”, explica Rogélio Golfarb, ex-presidente da Anfavea. Ele ressalta que países como EUA, China e Japão já estruturaram suas cadeias produtivas para garantir acesso a esses materiais, o que o Brasil ainda precisa fazer.

Para Golfarb, o caminho está claro: “O Brasil deveria trocar seu minério por transferência de tecnologia. Participar da cadeia produtiva, gerar emprego, desenvolver a indústria. Se não fizermos isso agora, vamos perder o bonde da mobilidade elétrica.”

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