Saulo Ferreira: Agronegócio encara transição e terá 2026 desafiador

O agronegócio brasileiro encerra 2025 com um balanço ambíguo. De um lado, colheita robusta e produtividade em alta. De outro, margens comprimidas, crédito restrito e custos que não recuaram na mesma velocidade da queda dos preços das commodities.

A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima que a safra 2024/25 alcance entre 325,7 e 336 milhões de toneladas de grãos, um avanço expressivo em relação ao ciclo anterior, impulsionado pelo aumento da área plantada para cerca de 81,6 milhões de hectares e pela elevação da produtividade média para aproximadamente 4 mil quilos por hectare.

Para 2025/26, a projeção já aponta nova expansão, com potencial de chegar a 354,8 milhões de toneladas e área plantada de 84,4 milhões de hectares, cerca de 3,5% acima do ciclo anterior. À primeira vista, é um retrato de força produtiva, mas o desempenho econômico não acompanhou o salto da produção e traz alertas importantes.

Os custos para o produtor se mantiveram elevados, deteriorando a rentabilidade, enquanto juros altos e volatilidade cambial aprofundaram o quadro de alavancagem. No cenário internacional, a desaceleração da demanda chinesa, e as políticas de controle de preços e segurança alimentar adotadas limitaram a recuperação das cotações.

Com estoques globais elevados e recomposição da oferta em concorrentes diretos do Brasil, a perspectiva de valorização das commodities permanece baixa, e o mercado trabalha com a continuidade desse ciclo apertado em 2026.

A logística segue como um dos principais gargalos da competitividade, apesar dos avanços recentes. Dados da Conab mostram que, em 2025, o Arco Norte responde por 37,4% das exportações de soja, consolidando participação, mas a maior parte do escoamento ainda se concentra em Santos e Paranaguá, que juntos somaram mais de 40% da movimentação no ciclo 2024/25.

Além disso, a aplicação efetiva da tabela mínima do frete rodoviário, que voltou ao centro das discussões em 2025 com fiscalização e multas da ANTT, adicionou uma camada adicional de risco ao setor, pressionando margens no curto prazo e elevando custos operacionais ao longo da cadeia.

Esse ambiente desafiador tem impacto direto nas empresas do setor. A pressão por redução de custos, a necessidade de renegociar dívidas e as incertezas sobre preços e demanda provocaram queda de motivação, hesitação em investir e, em alguns casos, até mesmo paralisia estratégica.

Diante desse contexto, os executivos do setor precisaram revisar profundamente suas agendas e competências. Na agenda financeira, a prioridade tem sido reforçar a resiliência do negócio. Planejar cenários e avaliar continuamente os riscos tornaram-se essenciais, assim como a gestão rigorosa de caixa, a renegociação de dívidas e a busca por estruturas de crédito mais competitivas, inclusive no mercado internacional.

A necessidade de aprimorar práticas de hedge e instrumentos de mitigação de risco cresce em importância. A reforma tributária também trouxe uma agenda nova e complexa, exigindo simulações e revisões internas.

Nas operações e no supply chain, a busca por eficiência domina a agenda. A pressão sobre custos logísticos permanece significativa, mesmo com a ampliação da capacidade portuária e até a possibilidade de excesso de capacidade futura, o que tem levado muitas empresas a revisar planos de investimento em ativos.

Gargalos estruturais na armazenagem, no transporte e nos contratos ferroviários ainda limitam a competitividade. O uso intensivo de dados e tecnologia tornou-se central para melhorar previsibilidade, gestão de estoques, execução e tomada de decisão.

No trading de commodities, especialmente grãos, os desafios de 2025 refletem a dinâmica global de oferta e preços. A forte produção de soja e milho no Brasil e nos Estados Unidos pressionou as cotações e elevou a volatilidade, tornando decisões de hedge mais complexas.

A intensificação da guerra comercial entre Estados Unidos e China ao longo do ano, com novas tarifas anunciadas em abril, desorganizou fluxos tradicionais e levou a mudanças temporárias nas compras chinesas — que postergaram importações de soja americana. O acordo firmado tardiamente deve resultar em volumes relevantes chegando ao mercado muito próximos da entrada da safra brasileira de 2026, aumentando o risco de congestionamento logístico e pressão sobre armazenagem.

O balanço geral de 2025 mostra que o agronegócio brasileiro vive uma inflexão estrutural. A produção segue forte, mas a rentabilidade diminuiu, o crédito está mais restrito e a logística precisa se reinventar. Para 2026, terão vantagem os líderes capazes de integrar disciplina financeira, eficiência operacional, profunda compreensão de risco, velocidade de adaptação e capacidade de liderar organizações sob pressão — em um setor que continua sendo um dos pilares da economia brasileira, mesmo sob fortes desafios.

Ainda assim, vale lembrar que commodities se movem em ciclos, e quem atravessar este momento mais duro com consistência e boa gestão terá condições de capturar resultados relevantes no próximo ciclo de alta.

*Saulo Ferreira é sócio da Flow Executive Finders

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