Siderurgia cresce no 3º tri, apesar de incertezas

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Os balanços do terceiro trimestre de 2025 das principais produtoras de aço no país revelam um setor que resiste a um ambiente dominado por importações crescentes, preços deprimidos e incerteza sobre medidas de defesa comercial. Com demanda firme em segmentos como construção civil, infraestrutura e parte do agronegócio, as empresas conseguiram ampliar volumes, reduzir custos e sustentar margens em um nível melhor do que o registrado no início do ano.

Ainda assim, as empresas são unânimes em afirmar que a melhora tem limites claros: o aço importado segue tirando competitividade do produto nacional e deteriorando o potencial de recuperação do setor. A pressão sobre o governo por medidas mais duras, como antidumping, salvaguardas e revisão de cotas, ganhou tração junto ao governo após um trimestre que escancarou a distância entre a demanda doméstica aquecida e a capacidade de capturar esse movimento.

A Nippon Steel, ao consolidar sua saída da Usiminas, disse que a venda das ações da companhia brasileira para a Ternium visa a “mitigar maiores riscos de desvalorização, visto que não se espera recuperação significativa no Brasil em breve”, segundo o vice-presidente Takahiro Mori, se referindo ao avanço do aço estrangeiro.

A retórica dos executivos no trimestre reforçou o pleito antigo de defesa comercial. Em entrevista recente ao Valor, Jorge Gerdau falou em “guerra total do aço” e pediu que o Brasil adote medidas similares às iniciativas da Comissão Europeia, braço executivo da União Europeia (UE), de propor o aumento da tarifa fora da cota sobre aço e alumínio para 50%, o dobro da atual.

A tensão ganhou um novo patamar no fim do trimestre, quando o embaixador da China no Brasil, Zhu Qingqiao, rompeu uma prática histórica de silêncio e reagiu às acusações de dumping feitas por siderúrgicas, montadoras e fabricantes de máquinas.

O diplomata rejeitou a tese de que o aço chinês recebe subsídios estatais e afirmou que as empresas brasileiras precisam “sair da zona de conforto”, inovar e conhecer o modelo chinês antes de reclamar. O representante de Pequim também classificou medidas antidumping como “protecionismo”, afirmando que prejudicam o multilateralismo.

As declarações foram endossadas pelo Conselho Empresarial Brasil-China, ampliando a pressão sobre o governo, que tenta equilibrar, simultaneamente, a relação com Pequim, o lobby industrial doméstico e a necessidade de preservar empregos e capacidade produtiva nacional.

Apesar disso, os dados divulgados pelo Instituto Aço Brasil mostram que as importações de produtos siderúrgicos recuaram 21,4% em outubro. O volume foi de 473 mil toneladas no mês, ante 602 mil em igual período de 2024. De janeiro a outubro de 2025, as importações aumentaram 6,1%, para 5,549 milhões de toneladas.

A notícia, porém, é tratada com cautela por especialistas. Artur Bontempo, analista de minério de ferro e aço da consultoria Wood Mackenzie, explica que a queda registrada em outubro não representa necessariamente uma reversão da tendência, mas aparenta mais um movimento com aspecto sazonal de fim de ano potencializado por um primeiro semestre muito forte.

Com base nos dados de importação divulgados pelo Instituto Aço Brasil, a renovação do sistema de cotas em maio serviu como uma barreira para as importações nos meses seguintes, que registraram valores abaixo de 2024 entre agosto e outubro.

“Apesar de ser consenso que o mercado nacional continua sob pressão por conta da importação, no geral, as empresas comentaram que esperam medidas de defesa mais efetivas para 2026. Sendo, também, consenso que o preço do aço no Brasil ficou limitado por conta das importações”, afirmou o especialista.

Além disso, o trimestre evidenciou que o ambiente global de aço vem se tornando mais protecionista em 2025, reforçando a sensação de urgência entre as siderúrgicas brasileiras. Nos Estados Unidos, o governo Trump manteve a tarifa de 50% sobre o aço brasileiro, medida que praticamente inviabiliza as exportações e pressiona as empresas a se concentrarem no mercado doméstico.

Apesar da recente aproximação entre Brasil e EUA, a presidente da Aço Verde do Brasil (AVB), Silvia Nascimento, não demonstra otimismo em relação a possíveis retrocessos do governo americano. “Não acho que o governo Trump vá voltar atrás e retomar as tarifas de 10%, como é com ferro-gusa e outras commodities que interessam a eles. Se houver, pode ser que ele reduza para 35%, que seria o melhor dos cenários”, afirmou.

Por outro lado, o diretor-financeiro da Gerdau, Rafael Japur, ressalta que os diálogos com as autoridades têm sido construtivos e indicam um movimento para enfrentar o problema ainda este ano.

Segundo ele, parece haver uma sensibilidade em diferentes frentes da administração do governo, como o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), em relação à pressão da indústria nacional por medidas de defesa comercial.

“As investigações de pleitos antidumping que estão colocadas por parte da indústria nacional têm avançado”, disse. “Não temos problemas de demanda de aço no Brasil. Temos bons níveis de atividade econômica e de vendas. A grande questão é que saímos de 10% de importações para um patamar mais alto. Uma em cada quatro toneladas de aço consumidas no Brasil veio de fora”, disse.

O governo atendeu parcialmente às demandas das siderúrgicas ao prorrogar até maio de 2026 o sistema de cotas de importação, com tarifa de 25% sobre o aço que ultrapassar os limites estabelecidos. A medida também ampliou de 19 para 23 o número de produtos abrangidos. O Brasil abriu ainda a maior investigação antidumping da história, envolvendo 25 itens importados da China.

Mas o endurecimento tem freios políticos. A China é o principal parceiro comercial do Brasil, comprando grandes volumes de commodities, além de compartilhar espaços estratégicos no grupo dos Brics. Uma ação mais dura contra o aço chinês poderia provocar retaliações.

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