
América Latina desempenha um papel fundamental no cenário global da mineração. Até 2025, a participação da região no mercado de cobre deverá aumentar em relação aos 41% do ano passado, e seu mercado de mineração, avaliado em US$ 92,5 bilhões este ano, deverá atingir US$ 144 bilhões até 2033, a uma taxa de crescimento anual de 5,72%, de acordo com a Market Data Forecast.
Especialistas concordam que a mineração de cobre no Chile e no Peru continuará a se expandir, impulsionada pela forte demanda global, e que a Argentina poderá entrar na corrida com seu promissor portfólio de projetos.
No entanto, isso não será possível sem o desenvolvimento de uma mineração responsável e sustentável, caracterizada pela minimização dos impactos ambientais, respeito aos direitos humanos, garantia do bem-estar da comunidade, manutenção da boa governança, implementação de medidas de economia circular e garantia da segurança no emprego, entre outros aspectos.
Nesta entrevista, Angie Sakata, CEO para o Peru da empresa de engenharia Stantec e especialista regional em mineração, discute como alcançar projetos de mineração bem-sucedidos que contribuam para alcançar a perspectiva positiva do setor.
BNamericas: Como você vê a dinâmica do desenvolvimento de projetos de mineração na região?
Sakata: Este foi um bom ano, e 2026 também deve registrar crescimento, apesar de ser um ano político movimentado na região. As eleições presidenciais estão chegando no Chile e, no ano que vem, no Peru. Isso sempre gera incerteza para a economia, mas ainda vemos oportunidades.
BNamericas: O investimento em mineração também será favorável?
Sakata: Peru e Chile têm a vantagem de possuir reservas significativas de cobre, um mineral que gera grande interesse pela transição energética. Isso fica evidente nos desenvolvimentos da mineração no Peru, impulsionados pela estabilidade econômica alcançada pelo país e pela abertura do porto de Chancay, que gerou um impulso comercial significativo. Além disso, com os preços atuais dos minerais, especialmente do cobre, a atratividade dos investimentos em mineração é maior.
BNamericas: A unidade de inteligência financeira do Peru (UIF) detectou que a mineração ilegal movimentou US$ 2,25 bilhões no país entre 2022 e 2025. Quão grave é essa situação?
Sakata: A mineração ilegal é um dos principais riscos do setor. Com o alto preço atual do ouro, isso se torna ainda mais preocupante, pois alimenta ainda mais a ilegalidade. Essa situação depende de ações governamentais e medidas políticas para erradicá-la.
BNamericas: Quão desafiador é o processo de licenciamento para projetos de mineração no Peru?
Sakata: O sistema de licenciamento no Peru é um obstáculo para projetos. Há um forte desejo de simplificá-lo e despolitizá-lo, sem perder o foco ambiental. Embora alguns projetos complexos levem mais tempo para serem concluídos, é fundamental ter uma estratégia que inclua o envolvimento antecipado dos atores e partes interessadas envolvidas no processo de licenciamento para garantir um fluxo mais rápido de projetos.
BNamericas: Como obter licenças sociais para projetos de mineração?
Sakata: Através de muita comunicação e proximidade com as comunidades, para estabelecer uma conexão. A mineração responsável e sustentável está demonstrando que coisas positivas podem ser feitas pelas comunidades e que os minerais são essenciais para as mudanças desejadas, como o uso generalizado de energia limpa e renovável, onde o cobre é um elemento básico.
BNamericas: Uma questão que preocupa as comunidades é a gestão de rejeitos. Como ela deve ser abordada?
Sakata: Após as situações trágicas ocorridas no setor [como o rompimento da barragem de Brumadinho, da Vale, em Minas Gerais, em 2019], devido a práticas falhas de responsabilidade com o meio ambiente e as comunidades, novas tendências e regulamentações estão indo na direção certa.
Hoje, há uma preocupação maior com o bem-estar das comunidades e do meio ambiente, embora sejam necessários bons engenheiros e uma gestão de longo prazo das operações de mineração. Isso requer a avaliação da sustentabilidade da infraestrutura para analisar o que acontecerá com ela no futuro, além do desenvolvimento de um plano de fechamento da operação com uma abordagem multidisciplinar, onde todos devem estar alinhados com os mesmos objetivos.
BNamericas: Quais práticas de economia circular estão se tornando mais difundidas na fase de fechamento das operações de mineração?
Sakata: O setor está avançando com uma visão de fechamento progressivo e uma abordagem ecossistêmica. O objetivo não é mais apenas cumprir as regulamentações, mas também deixar um legado positivo nas áreas afetadas pela mineração. A fase de fechamento envolve o uso de engenharia, a análise de questões de restauração ambiental e a priorização do bem-estar das comunidades.
Isso deve ser analisado nas fases iniciais do planejamento, e não após a conclusão da infraestrutura. É necessária uma abordagem combinada e de longo prazo, abrangendo todas as áreas de projeto, engenharia e questões socioambientais, incluindo soluções para a transformação ou reutilização de rejeitos. Também é essencial revisar novas metodologias e processos para alcançar um reprocessamento eficiente ou identificar novos usos. Nem tudo pode ser reutilizado, por isso é fundamental considerar a infraestrutura, os rejeitos e os resíduos a longo prazo.
BNamericas: Que iniciativas interessantes de abastecimento de água estão sendo realizadas no setor de mineração peruano?
Sakata: O Peru tem condições geográficas muito diferentes, então cada região tem uma abordagem diferente. A água é um fator-chave, e soluções abrangentes devem ser buscadas para maximizar seu uso. É importante identificar a fonte de forma otimizada, definir modelos, avaliar opções de dessalinização e assim por diante.
A opção mais viável, em muitos casos, é uma combinação de soluções, incluindo opções para reutilização de água usada, incorporação de sistemas de tratamento ou recuperação de água e consideração de tecnologias de filtragem e reprocessamento. Essas avaliações são feitas com base na localização da mina ou área de operação, pois isso influencia se o local tem um balanço hídrico negativo ou positivo e se a precipitação é escassa ou excessiva.
BNamericas: Em relação à inclusão, diversidade e equidade na formação de equipes, isso ainda é uma questão pendente na governança das empresas de mineração?
Sakata: Ainda há um longo caminho a percorrer. Isso envolve compreender a cultura da empresa e a cultura da própria sociedade, abrangendo os setores privado, empresarial e social. Do ponto de vista empresarial, é essencial continuar disseminando a importância do respeito e da valorização da contribuição de cada pessoa para que isso possa se estender à sociedade em geral. Houve uma mudança significativa no setor de mineração, especialmente no que diz respeito à inclusão de mulheres, mas ainda existe uma lacuna nessas áreas.
BNamericas: A Stantec também trabalhou em projetos importantes na Argentina, particularmente no setor hidrelétrico..
Sakata: A Stantec tem uma longa história na Argentina, especialmente no setor hidrelétrico, com projetos como Los Caracoles. Há um enorme potencial na mineração, e queremos explorar esse potencial com a experiência em mineração que temos no Chile e no Peru para que esses projetos em andamento possam realmente se desenvolver.
BNamericas: Em relação à incorporação de soluções digitais e automação, quais áreas de projetosde mineração são mais demandadas por esse tipo de tecnologia?
Sakata: Há um interesse significativo na automação de veículos para fortalecer a segurança, no uso de opções digitais para a gestão de recursos hídricos e no acesso a informações em tempo real a curto prazo para previsões, modelagem e tomada de decisões precisas. Todas as áreas da mineração exigem abordagens voltadas à eficiência, compartilhamento rápido de informações, otimização de processos e segurança aprimorada. À medida que soluções para aprimorar a segurança no setor forem implementadas, melhores resultados serão alcançados.
BNamericas: Quais são suas principais dicas para um projeto de mineração bem-sucedido?
Sakata: O fundamental é que toda a equipe esteja alinhada. Cada pessoa deve estar alinhada em sua especialidade e área, mas mantendo uma abordagem holística que envolva todos. Não existe solução perfeita, pois sempre há riscos. Por isso, devemos buscar constantemente otimizações e melhorias, tendo em mente que a mineração implica uma posição de responsabilidade para com o futuro.