
As discussões técnicas que ocorrem nos corredores de Brasília sobre investigações antidumping e tarifas de importação podem parecer distantes da realidade da maioria dos brasileiros. No entanto, o desfecho dessas decisões é sentido diariamente no caixa do supermercado. O aço é o coração da lata, representando cerca de 70% do seu custo de produção.
Quando o governo decide sobretaxar as importações desse insumo, ele está, na prática, assinando um aumento indireto no preço de itens essenciais acondicionados em latas e embalagens metálicas como leite em pó, vegetais e proteínas como a sardinha.
Hoje, o governo brasileiro possui razões robustas para reavaliar a política de defesa comercial no setor de folhas de aço. O argumento do interesse público nunca foi tão urgente. Dados do FGV-Ibre mostram que as famílias de baixa renda comprometem hoje 22,6% do seu orçamento apenas com alimentação — um salto considerável em relação aos 18,4% registrados em 2018. Nesse cenário, qualquer medida que onere os alimentos enlatados (onde a embalagem representa cerca de 20% do seu custo) funciona como um imposto regressivo sobre a mesa de quem menos pode pagar.
O impacto não é meramente teórico. Estudo do IPCA-IBGE aponta que o grupo de “alimentos enlatados e conservas” subiu 56,18% entre dezembro de 2018 e junho de 2025. Ignorar o efeito inflacionário de novas medidas antidumping sobre as folhas metálicas — insumo essencial para 25% do volume total de alimentos processados em categorias como laticínios e carnes — é um contrassenso econômico para um governo que prioriza a segurança alimentar.
Não há justificativa social que sustente a proteção de um setor que, pelos seus próprios comunicados ao mercado, vive um momento de plena recuperação e lucratividade. A indústria doméstica celebrou 2024 como seu melhor ano de produção de aço desde 2022, com crescimento de 14,9%. Ao contrário do que a narrativa de dano sugere, o lucro líquido da empresa chegou a quadruplicar no final de 2023. Proteger lucros recordes em detrimento do preço da comida é uma inversão de prioridades que o Estado deve evitar.
A existência de um monopólio no fornecimento nacional de folhas metálicas torna o setor de embalagens — e, por extensão, o de alimentos — extremamente vulnerável. O histórico recente registra que essa rigidez já gerou episódios de desabastecimento, que levaram o governo brasileiro a zerar o imposto de importação temporariamente em 2021 para determinadas folhas metálicas de aço. Impor barreiras agora contra importações de produtos de alta qualidade de origens como Japão e países europeus poderá agravar novamente a escassez do produto no mercado brasileiro e a ineficiência logística da indústria doméstica.
Além disso, é preciso encarar as limitações técnicas do produto nacional que a proteção tarifária camufla. Quando o aço falha, o risco de contaminação e desperdício de comida acondicionada em uma embalagem produzida com o aço falho aumenta. Nesse passo, o consumidor pode acabar pagando mais por um produto cuja embalagem oferece menor rendimento industrial e, potencialmente, maior risco sanitário.
O setor de embalagens metálicas já lida com o peso do direito antidumping definitivo contra a China, aplicado no segundo semestre de 2025. Somar a isso novas taxas contra importações originárias de parceiros tradicionais cria um “efeito tenaz” que asfixia a competitividade nacional. Sem opções de fornecimento viável e fluido, o risco é o de “importação reversa”: em vez de aço, o Brasil passará a importar latas prontas ou o próprio alimento embalado de fora, destruindo empregos locais.
O governo brasileiro deve considerar o que a legislação chama de “dano reverso”: o prejuízo sistêmico que a defesa de um único player causa à coletividade. A manutenção de importações competitivas é o que garante o equilíbrio de preços em setores cruciais.
A racionalidade econômica, portanto, deve caminhar junto com a responsabilidade social. A defesa comercial não pode ser um instrumento de isolamento que ignora a realidade inflacionária do país. O momento exige que o governo federal utilize os mecanismos de “interesse público” para garantir que o aço necessário para embalar a safra brasileira e alimentar a população chegue às indústrias brasileiras dos elos seguintes da cadeia produtiva com preço justo e qualidade inquestionável.
A neoindustrialização que o Brasil busca não será alcançada protegendo a ineficiência, mas fortalecendo as cadeias que transformam matéria-prima em bem-estar. Ao julgar os casos de dumping em curso, Brasília deve ponderar que a estabilidade do prato do brasileiro vale mais do que a reserva de mercado para um setor que já opera com margens saudáveis e recordes de produção.
Arquivar investigações que carecem de nexo causal e de prova de dano material é, acima de tudo, um ato de defesa do consumidor. O equilíbrio entre a indústria de folhas metálicas de aço e a indústria de transformação deve ser pautado pela eficiência e pela conformidade técnica, garantindo que a lata de aço continue sendo a embalagem mais segura, sustentável e acessível para a mesa de todos os cidadãos.
Garantir que o Brasil não retroceda na luta contra a inflação de alimentos é um dever do Estado. O governo brasileiro tem agora em 2026 a chance de reafirmar que o interesse público está acima de qualquer pressão monopolista, protegendo o poder de compra da população e a viabilidade de uma indústria que é estratégica para o desenvolvimento nacional e o futuro sustentável do país. [logo-jota]
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*Thais Fagury
Presidente da Abeaço (Associação Brasileira de Embalagem de Aço) e da Prolata Reciclagem