Nascido em Córdoba, na Argentina, Marcelo mora no Brasil há quase 11 anos e tem mais de 40 anos de experiência no setor siderúrgico assumindo a presidência da Usiminas há pouco mais de dois anos.
Produtora de aços planos, a Usiminas tem como acionistas controladores a Ternium, a Nippon Steel, e a Previdência Usiminas e atuação integrada com: mineração, siderurgia, distribuição e soluções industriais.
As unidades industriais estão em Ipatinga (MG) e Cubatão (SP) com a produção de cerca de 4,5 milhões de toneladas por ano e investimentos de R$ 7 bilhões nos últimos anos.
Tem a Mineração Usiminas (Musa) em Itatiaiuçu e Mateus Leme (MG) com produção anual de 8 milhões de toneladas.
“Até o final deste ano podemos chegar a 9 milhões de toneladas de minério de ferro. E nós estaremos em torno dos 10 milhões de toneladas, mas temos várias alternativas, que pode ser um pouco mais ou um pouco menos”, avalia o executivo.
Marcelo conta que a companhia estuda retomar o Projeto Compactos, na área de mineração, definição que deve acontecer em 2026.
A seguir, entrevista com Marcelo Chara e vídeo com conteúdo completo:
O Brasil está na liderança da América Latina, na excelência, no estado da arte no aço?
Definitivamente, a indústria siderúrgica brasileira tem altíssimo grau de competitividade. Aqui estão vários dos principais players do mundo do aço na escala global e particularmente na Usiminas estamos tendo uma competitividade importante. Somos líderes em segmentos de mercado que são de altíssima demanda como a indústria automotiva e os segmentos industriais com os quais estamos realmente preparados para oferecer a mais sofisticada das indústrias.[06:54] E o Brasil, entre as 10 maiores economias do mundo, é um país de mais de 200 milhões de habitantes, com matriz energética de altíssimo grau de eficiência e muito por fazer e sem dúvida, muito atrativo para desenvolver a atividade industrial.
É uma indústria que não deixa nada a dever a outros players em várias outras partes do mundo.
Definitivamente, não. Foram R$ 7 bilhões nos últimos 5 anos que foram investidos na Usiminas, no nosso grau de atualização tecnológica. A nossa indústria, do ponto de vista de agregação do valor, requer uma inovação permanente. Nós temos competitividade para exportar, temos competitividade para defender nossa presença no mercado local. Temos algumas preocupações que são fundamentalmente na defesa comercial.
Mesmo diante desse mercado tão desafiador, a Usiminas continua acreditando no mercado de aço no Brasil, no consumo interno, também com vistas à exportação. Qual é a maior concentração desse volume de investimento feito pela Usiminas?
Temos feito importantes esforços nas áreas primárias. No Alto Forno 3 fizemos uma reconstrução completa que levou quase R$ 3 bilhões (do volume total investido de R$ 7 bilhões). Obra que nós iniciamos a operação no início de novembro de 2023 e foram quase 9.000 pessoas trabalhando durante o pico da construção. Isso permitiu melhorar sensivelmente todo o nosso desempenho industrial, desde eficiência, custos e também de desempenho ambiental.
No caso do Alto Forno 1 há uma decisão de não mais religá-lo ou depende muito da demanda do mercado?
Na configuração produtiva de hoje temos funcionando o Alto Forno 3, que é o maior, um forno de mais de 3.000 m³ de volume interno, E o forno de número 2, que é um forno de 800 m³. Essa configuração produtiva é suficiente para nós. Hoje conseguimos fazer com dois fornos, o que fazíamos com três fornos no passado.
Isso é aumento de eficiência.
Nós temos capacidade ociosa, nós temos capacidade para encher, nós temos necessidade de aumentar nossa capacidade de produção porque se o mercado brasileiro crescesse, teríamos capacidade para absorver. E se as importações fossem menores – hoje a taxa de penetração da importação é altíssima, recorde na história do Brasil, 25%, ou seja, um quarto do país, uma Usiminas. É produto importado no qual nós temos problemas em concorrer com as importações.A importação é um tema espinhoso, mas muito dela é subsidiada. Isso gera uma luta desleal com o qual não dá para substituir essa importação quando ingressa (o produto) com preço subsidiado. Se essa importação fosse limitada, com mecanismos corretos de defesa, nós poderíamos religar o Alto Forno 1, mas hoje não se justifica.
Atualmente, a Usiminas tem uma produção de cerca de 4 milhões de toneladas de aço por ano: 84% é para o consumo interno e 16% para exportação. Qual é o volume que a Usiminas poderia estar produzindo com um ambiente de negócios mais saudável?
Na nossa capacidade de laminação a quente que é o processo primário, nós poderíamos estar acima de 6 milhões de toneladas por ano. Entre 6 milhões e 7 milhões de toneladas (por ano). E nós estamos laminando em torno de 4,5 milhões de toneladas, então teríamos um crescimento de 20% a 30% sem problema. Mas não tem ambiente para isso.
Sempre que eu perguntava sobre a China ao saudoso ex-presidente da Usiminas, Sérgio Leite, ele dizia: “Helenice, a China não é uma economia de mercado”. Você acha isso também?
O tema é técnico, e te digo, é técnico por quê? Porque os custos do aço são transparentes e você consegue calcular como em poucas outras indústrias. Porque o custo de aço tem uma componente entre 70% e 80% que é minério de ferro e que é carvão. E os preços das duas commodities têm publicação mundial. Então, com uma simples equação calcula-se o custo metálico do aço. Acima disso, você tem que colocar mão de obra, energia elétrica. Então o custo metálico que todo mundo paga no mundo inteiro para fabricar o aço, ao mesmo tempo, você vê o preço que os chineses vendem (o aço) no Brasil. Aí você coloca o custo da matéria-prima e você vê que…
A conta não fecha.
A conta não fecha, claramente dá negativo. Então, definitivamente isso é técnico e nós colocamos provas disso ao Ministério de Indústria e Comércio (MDIC). As autoridades, os técnicos do ministério são muito bons e nós confiamos que eles farão o trabalho certo do ponto de vista técnico mostrando os danos desse dumping. Estamos esperando confiantes.
Não está demorando muito essa decisão do governo não, Marcelo?
Está demorando, está dentro dos prazos, o prazo é fevereiro de 2026 para estes laminados a frio e assim seguem na sequência outros produtos. E já deveria ter sido emitida a nota técnica, estão dentro do prazo, eu sei que estão bastante saturados porque há uma invasão de produtos de todo tipo ao Brasil.
Na equipe da Usiminas, são 12 mil colaboradores e 9.000 terceirizados, num total de 21 mil pessoas envolvidas nas operações. E essa turbulência toda que aconteceu no mercado, a Usiminas teve que demitir, ou ela fez um reordenamento de pessoas?
Nós estamos num plano de competitividade muito importante. Nós temos crescido em nossa produtividade laboral mais de 30% nestes últimos dois anos. Ou seja, o que fazíamos antes com três fornos, agora fazemos com dois. Particularmente, com a atual condição de mercado, temos dificuldades para seguir. Nós estamos regulando a produção conforme que há ainda um segmento de mercado que está invadido por aço, principalmente, de origem China. Nós temos demitido funcionários. Nos estamos ajustando nossas dotações, principalmente de terceiros. Estamos tratando de preservar funcionários próprios. Estamos cumprindo nossas metas de capex (investimento) que temos definido. Mas te digo, temos reduzido o pessoal. Estamos demitindo pessoal para alinhar nossos custos às condições de mercado.
Na verticalização da operação tem a Mineração Usiminas (Musa). A unidade de mineração já está num patamar de 8 milhões de toneladas de minério de ferro por ano, não é? É uma produção no Quadrilátero Ferrífero (Itatiaiuçu e Mateus Leme, em Minas Gerais) com investimentos de R$ 249 milhões em 2024 e R$ 278 milhões previstos para 2025.
A Musa é um ativo chave para nós. Eu pessoalmente faço questão de estar presente em todas as nossas operações. A maior parte do tempo estou em Ipatinga (onde está a usina). Eu visito a Musa todos os meses. Eu percorro cada metro quadrado de nossas operações mineiras. Desde pouco mais de dois anos que estou na Usiminas e tive a oportunidade de entender em detalhe e com nossos times da Musa todas as características de nossas operações. A Musa fornece uma parte importante do minério da Usiminas. Mas exporta e também vende para o mercado local.
Então não é só para consumo próprio?
Uma parte importante vem para a Usiminas e mais de 50% se exporta e se vende a outros.
Outros mercados fora do Brasil?
A China, por exemplo, também.
Olha que contrassenso, não é?
E vendemos a dólares. Eles pagam em dólar, e dólar é o valor de mercado.
Como é que se vai negar vender o minério para a China, não é?
É claro. Está é correto. A Musa é uma das cinco maiores mineradoras do país e a única entre as cinco maiores que tem a operação completamente a seco (o empilhamento a seco, sem barragens).
Como estão as reservas da Mineração Usiminas? Tem muito minério lá ainda? A reserva é para muitos anos?
Nós temos para vários anos na frente.
Quantos anos? Você pode falar ou ainda está em pesquisa?
Vários anos.
Um bom volume que justifique investimentos na operação?
Completamente. Nós temos um projeto importante e que é público porque temos reservas muito significativas que se chama Projeto Compactos.O projeto Compactos tem características muito boas em termos de teor de ferro. Permitiria obter um minério de ferro da mais alta pureza, entre 67% e 68% (de teor de ferro).
Atualmente esse teor é 64% na Musa?
Vamos chegar a ter 64%. Mas este teor de 67%, 68% seria apto para os processos, digamos, de redução direta. A redução direta são os processos que estão crescendo no mundo, que permitem uma pegada de carbono muito mais baixa. Este projeto nós podemos estar tomando a definição no próximo ano, durante 2026. Hoje estamos licenciando.
Mas aí, o que seria? Esse volume de produção aumentaria em quantos por cento?
Hoje estamos em torno de 8 milhões de toneladas. Até o final deste ano podemos chegar a 9 milhões de toneladas. E nós estaremos em torno dos 10 milhões de toneladas, mas temos várias alternativas, que pode ser um pouco mais ou um pouco menos.
Vocês estão investindo na mineração também nos próximos anos? Como é que está esse plano plurianual?
O investimento na mineração é constante, permanente. Agora estamos fazendo um acesso, estamos avaliando o início da operação eventual da Mina Leste, e estamos constantemente digamos investindo em áreas para poder conter o rejeito. Para eventualmente poder seguir crescendo com outras áreas. A Musa é estratégica para nós e estamos cuidando dela com muito foco.
A mineração pode virar o principal negócio da Usiminas?
Nosso business é aço e a mineração é um complemento estratégico.
A participação da Fiemg, a gente vê que a indústria tem se amparado muito no Senai, no Sesi, a figura do presidente Flávio Roscoe com um diálogo constante com o governo. Como tem sido esse diálogo da Usiminas com a Fiemg?
Eu falo com total transparência. Do ponto de vista institucional eu diria que é excelente. Do ponto de vista pessoal também. Eu conheço o Flávio (presidente) e tenho o máximo respeito à instituição emblemática no país. A Fiemg é uma instituição de uma fortaleza institucional e profissional muito significativa. E a Usiminas confia na Fiemg e procura participar ativamente de toda a sua dinâmica com todos os nossos funcionários.