
A Vale entrou em uma nova fase de crescimento, sustentada por resultados operacionais robustos, avanços em eficiência e uma relação “bastante positiva” com a estatal chinesa China Mineral Resources Group (CMRG) — empresa criada em 2022 para centralizar a compra de minério de ferro pelo maior consumidor mundial da commodity. A avaliação é do vice-presidente executivo de Finanças e Relações com Investidores da mineradora, Marcelo Bacci, que manifestou otimismo sobre o relacionamento com o grupo chinês e com as perspectivas da companhia para 2025.
Segundo Bacci, a Vale conseguiu desenvolver soluções logísticas e operacionais sob medida para o mercado asiático, oferecendo produtos entregues em portos e com qualidade adaptada às necessidades das siderúrgicas chinesas. “Buscamos otimizar o custo da entrega e da distribuição local. Isso não impacta diretamente o preço, mas facilita muito a vida do cliente”, explicou o executivo.
Ele destacou que não há contratos de longo prazo ou fórmulas de precificação específicas com a CMRG, e que a relação tem se mantido estável, mesmo diante de rumores recentes sobre tensões entre a estatal chinesa e outras mineradoras globais, como a BHP. “Não existe nenhum tipo de anúncio formal sobre esses temas. A China é um parceiro importante, mas nós também somos fornecedores estratégicos. É do interesse de ambos manter uma relação amigável”, afirmou.
O diretor de Relações com Investidores, Thiago Lofiego, complementou que não houve grandes alterações nos fluxos comerciais entre Austrália e China, sinalizando estabilidade na dinâmica global do minério de ferro.
Vendas e lucro em alta consolidam desempenho no trimestre
Os números do terceiro trimestre de 2025 reforçam o bom momento da mineradora. As vendas de minério de ferro cresceram 5% em relação ao mesmo período do ano anterior, somando 4 milhões de toneladas adicionais. O lucro bruto aumentou 17%, impulsionado pelo preço médio de US$ 94,4 por tonelada, 11% superior ao trimestre anterior. O desempenho foi sustentado pela estratégia de portfólio de produtos, que prioriza minérios de maior qualidade e melhor remuneração.
Os custos all-in do minério de ferro caíram 4% em relação a 2024, para US$ 52,9/t, enquanto o custo caixa C1 manteve-se em US$ 20,7/t, alinhado ao guidance para o ano. O resultado se estendeu também aos metais básicos: os custos do cobre e do níquel caíram 65% e 32%, respectivamente, refletindo ganhos de eficiência e aumento de produção.
Com isso, o EBITDA proforma atingiu US$ 4,4 bilhões, alta de 28% na comparação anual, e o CAPEX ficou em US$ 1,3 bilhão, mantendo-se dentro do planejamento. “Entregamos mais um trimestre sólido, com consistência operacional, avanço em nossa agenda estratégica e foco absoluto em segurança”, afirmou o CEO da Vale, Gustavo Pimenta.
Novo ciclo e caminho de volta ao topo
Após seis anos de reestruturação profunda e revisão de processos, a Vale se prepara para retomar a liderança mundial na produção de minério de ferro em 2025 — posição que perdeu para a australiana Rio Tinto após o rompimento da barragem de Brumadinho, em 2019.
A mineradora encerrou 2024 com 328 milhões de toneladas produzidas, e o plano de negócios para 2025 prevê entre 325 e 335 milhões de toneladas, volume suficiente para recolocar a companhia no topo do ranking global.
“O momento é de reconstrução sólida e sustentável. A Vale tem um potencial enorme para desenvolver projetos de baixo custo e com minério de alto teor”, afirmou Pimenta, durante o Congresso Exposibram, em Belo Horizonte.
Ele destacou que a empresa “é hoje mais segura, mais madura e com uma cultura voltada à integridade operacional e ao respeito às comunidades”. A companhia, segundo o executivo, transformou seus protocolos e práticas de mineração após as tragédias de barragens em Minas Gerais, reforçando sua meta de mineração responsável e foco em segurança social.
Demanda global e transição energética
O presidente da Vale se disse “muito otimista” com o mercado global, sustentado por fatores estruturais como urbanização, crescimento populacional e transição energética. Embora reconheça que novos projetos, como a mina de Simandou, na Guiné, trarão volumes adicionais ao mercado, Pimenta pondera que boa parte dessa oferta servirá apenas para substituir minas exauridas. “A oferta global não cresce na mesma velocidade da demanda”, avaliou.
Nesse contexto, a mineradora aposta em uma ‘descomoditização’ do minério de ferro, no qual o produto deixa de ser padronizado e passa a ser customizado para cada cliente, conforme a especificidade das siderúrgicas. “Somos hoje a empresa mais sofisticada do mundo na produção de minério de ferro, com 20 pontos de blendagem espalhados pelo planeta”, disse Pimenta.
A Vale também tem direcionado investimentos para complexos industriais voltados à produção de aço de baixo carbono, especialmente em regiões com acesso a gás natural de baixo custo, como o Oriente Médio. A estratégia busca fortalecer o papel da companhia na transição energética global e consolidar seu compromisso com práticas ambientais, sociais e de governança (ESG).
Vale do futuro: eficiência, segurança e parceria global
Com os resultados em alta, custos em queda e o reforço das relações com a China, a Vale mira 2026 como o início de um novo ciclo de crescimento sustentável. “Estamos reconstruindo uma Vale mais segura, mais eficiente e mais integrada ao futuro da mineração responsável”, disse Pimenta.
A mineradora acredita que a estabilidade nas relações internacionais, aliada à eficiência operacional e à diversificação de produtos, deve consolidar sua posição como principal fornecedora global de minério de ferro de alta qualidade.