A indústria automotiva global voltou a acionar o sinal de alerta com o risco iminente de nova escassez de semicondutores. O chairman da Volkswagen para a América do Sul, Alexander Seitz, afirmou que os estoques de chips da montadora devem durar “não muito tempo”, em meio à crise que se formou após a intervenção do governo holandês na Nexperia, subsidiária chinesa responsável por cerca de 40% da oferta mundial desses componentes.
Seitz esteve reunido com o embaixador da China no Brasil, Zhu Qingqiao, para reforçar as negociações abertas pelo governo brasileiro e pela Anfavea junto às autoridades chinesas, buscando garantir que o país não seja afetado pelas restrições impostas à exportação de semicondutores. O executivo destacou que a situação é crítica e que a solução passa por um acordo direto entre Brasil e China, que integram os Brics.
“Brasil e China têm condições de conversar e mostrar que podemos nos enquadrar no regime de exceção. O que vier para a América do Sul vai ficar na América do Sul”, afirmou Seitz.
O chairman reforçou ainda que a dependência global da Ásia na produção de chips mostra a necessidade de industrialização local. “Temos de pensar seriamente na produção de semicondutores aqui. Mesmo tecnologias simples, como transistores usados na abertura automática de portas, continuam concentradas fora do continente”, disse.
Crise global reacende tensão entre China, Europa e EUA
A atual crise teve início quando o governo da Holanda assumiu o controle da Nexperia, citando preocupações de segurança nacional após alertas de Washington. Em resposta, a China suspendeu as exportações dos produtos acabados da empresa — um movimento que rapidamente se refletiu em fábricas europeias e agora ameaça chegar à América do Sul.
A Volkswagen informou que seus estoques globais podem durar apenas mais uma semana, enquanto montadoras como Honda, Stellantis, Ford e Mercedes-Benz admitem monitorar o tema em tempo integral. O CEO da Stellantis, Antonio Filosa, revelou que a companhia montou uma “sala de guerra” para gerenciar a crise, com equipes dedicadas a buscar fornecedores alternativos e ajustar a produção.
Essas estruturas de resposta rápida, comuns desde a pandemia, voltaram a ser ativadas diante da escassez dos chips da Nexperia, usados em sistemas básicos como freios, limpadores, vidros elétricos e controle de direção. Segundo a S&P Global Mobility, trata-se de semicondutores de arquitetura antiga e de difícil substituição.
A Associação Europeia dos Fabricantes de Automóveis (ACEA) alertou que algumas fábricas estão a dias de interromper as linhas de montagem. “As paralisações podem ocorrer em questão de dias. Pedimos esforços diplomáticos urgentes para resolver essa situação crítica”, afirmou Sigrid de Vries, diretora-geral da entidade.
Impactos e busca por soluções
No Brasil, o tema mobiliza Geraldo Alckmin, ministro do Desenvolvimento e vice-presidente, que conduz tratativas com Pequim para incluir o país nas exceções de exportação. A preocupação é imediata: as montadoras locais estimam ter semicondutores suficientes para apenas algumas semanas de produção.
Para Seitz, a saída passa pelo diálogo político e técnico. “A região está fora do contexto geopolítico do problema e pode servir de exemplo de cooperação. Acreditamos que uma solução bilateral é possível”, declarou.
Enquanto isso, o setor automotivo global volta a se organizar em torno de planos emergenciais, equilibrando produção, logística e diplomacia. Como resumiu o CEO da Mercedes-Benz, Ola Källenius, “a solução está no campo diplomático — com a Europa presa no meio e toda a cadeia de suprimentos em risco”.